sábado, 3 de fevereiro de 2018

Ao Mestre Mnar



Ao Mestre Mnar

Era meados de 1999, mas ainda me lembro como se fosse hoje: um mestre simpático tentando me explicar como funcionava aquele jogo cujo tabuleiro era a imaginação. Eu já tinha me aventurado em livros-jogo, mas criar um personagem do nada, ainda mais dentro de um universo complexo e com aquele monte de regras, era mais complicado do que parecia.

Só o tamanho do livro de regras já assustava, e o nome então, nem se fala: Advanced Dungeon & Dragons. Mas meu mestre já tinha tudo preparado. Ele deixou aquele trambolho de lado e foi aguçando a curiosidade de nós, mancebos. Anões, elfos e até mesmo os humanos, tão problemáticos, foram criando cor e vida, habitando aquele mundo dinâmico e cheio de expectativas. Não demorou para sermos contagiados pela paixão e pelo entusiasmo do nosso mestre.

Nós nos aventuramos pela Idade Média, fantástica ou não, vivemos o Brasil Colonial, as Guerras Mundiais, o Velho Oeste e até mesmo o futuro.

Em uma dessas andanças pelos caminhos tortuosos da imaginação do nosso mestre, chegamos a um lugar que seria nossa morada.

Quando entramos na Taverna Pata do Dragão pela primeira vez, fomos muito bem atendidos pelo Wilson. Éramos recém-chegados na Cidade de Porthi e estávamos sedentos por aventuras. Ah, e foram tantas aventuras, tão incrivelmente fantásticas...

Nosso Mestre tratava Poldengram como um ofício. Ele escreveu e desenhou muitos detalhes, instigou e coloriu as criações dos jogadores e deu tanta vida ao mundo que Poldengram deixou de ser só dele. E era isso que o mestre queria.

Eu ainda me lembro da primeira vez que vi o símbolo do dragão negro envolto pelo sol. Não sei se a minha admiração nasceu daquele lindo desenho, sem conceitos rebuscados de heráldica, ou se era porque o desenho estava estampado no escudo de um guerreiro Drow.

O nome dele era Tsunami Kobayashi, e ele era muito diferente do que meus preconceitos de uma breve vida de aventuras me diziam para esperar de um Drow. Hoje sei que o caráter daquele guerreiro, tão contrário à sua natureza, foi uma grande influência na formação dos princípios que regem a Casa dos Dragões do Sol Negro.

Ahh, a Casa dos Dragões do Sol Negro! Quem olhava de fora não percebia nenhum adorno ou riqueza — é que os tesouros estavam nos membros. Quem adentrava aquela construção rústica era sempre recebido pelo Bardo Cego, um sujeito turrão. Pilhas de tomos e pergaminhos se espalhavam, tão altas que quase não se podia ver as paredes — e, em uma delas, ficavam as principais ferramentas de oficio dos seus integrantes: Armas! E como eram belas, todas forjadas pelo próprio Tsunami. Dioramas de guerras, mapas e pinturas ficavam espalhados pelas prateleiras, ocupando cada espaço que restava, e uma grande mesa de madeira ocupava toda a sala.  Na cabeceira ficava um trono, o lugar reservado para Tsunami Kobayashi. Não era um trono rebuscado ou pomposo — Tsunami não o escolhera pela aparência, e sim porque era confortável.

Era raro ver Tsunami na casa, o que era bom para a saúde dos presentes, mas o Bardo Cego estava sempre lá, pronto para receber a todos com um abraço afetuoso e muitas histórias.

Toda semana, muitos aventureiros de todas as partes de Poldengram se reuniam naquela Casa. Os destinos das cidades, as guerras, as questões de equilíbrio de poder dos países eram discutidas e decididas entre aquelas paredes.

Todos vinham com algum propósito declarado, mas, quando cruzavam o estreito corredor que levava até a porta de madeira carcomida, o que mais esperavam dentro de seus corações era encontrar os outros integrantes, ouvir as histórias e participar dos jogos do Bardo, sempre torcendo para que o dia não raiasse, para que os dados não parassem de rolar.

Hoje volto à Casa com o coração apertado. Mesmo antes de ver a pequena construção já vislumbro uma imensidão de aventureiros em volta. Eu os reconheço. Seguro as lágrimas ao ver o corpo do altivo Drow descansando em uma pira funerária no centro do terreno.

A sanfona, que Severino da Égua Braba sempre comandava com tanta animação, hoje ressoa baixinha e tristonha.

A bandeira dos Dragões, a meio-mastro, é guardada pelos mais novos e ativos aventureiros. Wildak Fletcher, o guerreiro audaz, ostenta a flâmula. A seu lado vejo Avi Endha, clériga da vida, integrante recente que muito orgulha a Casa; Harun AL-Rashid, feiticeiro de terras distantes cuja cultura muito aguçava a eloquência do Bardo Cego; e a pequena Shada, uma Anã maga teimosa e sagaz, a única de Poldengran. Ali em volta vejo PuUm. o goblin arauto da sorte; Crowley, o gatuno boladão, como ele mesmo se chamava;  Frantus Casco de Pedra, o anão impetuoso; Mundicento, com seu lobo inseparável; e a clériga Patrina.

Vejo muitos rostos conhecidos que há muito não encontrava: Amrod Seragorn, o habilidoso arqueiro arcano; Percival longO`donell, o famoso duelista; Cedric Godofredo, iniciado da Ordem do Arco e comerciante de sucesso em Porthi; Yashin, o ourives; Beck Ardigans, o temível arauto dos deuses; os irmãos orcs Krepe e Kaloi; o renegado Drael lodar; o assassino Baltazar; o espadachim Jean Charles Maurice Lupian; o nobre elfo Aramil Qualaquendi; o  violento Bárbaro Smirnoff de Vinland; o orc fedorento, Brabom Parco; Argull, o corvo branco; o cozinheiro Troll Ceronte; o Gnomo piadista Mytzuplyx;  Gonosuke, o monge da ordem de Talran; o Druida George; o filho de Heironeus Forcas Shigamori; Hitoshi Kituki, o monge tatuado; o escritor Ander Elderwood e muitos outros.

Nunca tinha visto nada parecido com essa miríade de aventureiros reunida. É impossível nomear todos que chegam para honrar e se despedir do Mestre da Casa.

Sentada ao lado da pira está Elleinad, a sacerdotisa de Tempus. Basta que ela se levante, e todos se calam. A clériga sussurra algumas palavras no ouvido de Tsunami e começa a entoar uma canção. Todos os conflitos do mundo cessam, e o assassino e o paladino se abraçam e choram a morte de seu líder.

O filho de Heironeus, Forcas Shigamori, se aproxima com a tocha para encaminhar a alma do nobre Drow aos portões celestes. Todos os presentes se calam, só escutando o crepitar das chamas enquanto se despedem, silenciosa e respeitosamente. Um a um, todos prestam suas últimas homenagens.

Aos poucos a reunião daquele grupo que poderia derrubar um reino vai se dissolvendo, e todos se afastam, enquanto o nosso querido Bardo Cego assiste, do alto.
Cada um que esteve na Casa dos Dragões do Sol Negro deixou um pouco do seu espírito com aquele Drow. Ele foi o primeiro a bradar o lema que todos levam em seus corações e que sempre os trarão de volta para a Casa, mesmo que apenas em pensamento:

Um Dragão Nunca Esquece.
           _____________________________________________

Mnar, foi um grande Mestre na mesa, mas principalmente na vida. Era um grande irmão, em todas as ocasiões.

Deus deve ter um plano, algo que ainda não entendemos, para levar o melhor de nós embora tão cedo.

Foi um privilégio desfrutar de sua amizade e de sua companhia.

Seu legado de alegria e companheirismo ficará conosco nesse plano, junto com tantas boas lembranças e muita saudade.

Gary Gygax e Dave Arneson devem estar ao seu lado, emocionados e empolgados, rolando os dados sob seu comando.

Que sua luz ilumine o plano celeste.

Descanse em paz, meu amigo.

Por Diego Cava e Rayssa Galvão.


Curitiba, 01/02/2018.

0 Blá blá blá!:

Postar um comentário

LinkWithin

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...
Twitter Delicious Facebook Digg Stumbleupon Favorites More

 
Design by Free WordPress Themes | Bloggerized by Lasantha - Premium Blogger Themes | Facebook Themes