segunda-feira, 12 de novembro de 2012

FILME NA MESA! #004



Coloque seu relógio de pulso sobre o criado-mudo, conte quantas vezes um padrão se repete e ouça a voz que narra sua vida. Sou eu, novamente:  V.H. Mota e vamos hoje falar de um filme menos “explosivo” e “dinâmico” que os dois anteriores (você deve visitá-los AQUI e AQUI). Trata-se de “Mais Estranho Do Que A Ficção”, filme protagonizado por Will Ferrell (excelente num papel fora do seu padrão de comédia soberba) e auxiliado por um elenco de peso (Maggie Gyllenhall, Dustin Hoffman, Emma Thompson e Queen Latifah – falei que tinha peso no elenco). Este filme de 2006 teve a direção de Marc Forster (que tem no currículo atualmente “007 – Quantum of Solace” e está terminando de produzir “World War Z”, com Brad Pitt) e narra a história de um homem metódico que tem a sua vida normal e pacífica – porém sem graça – mudada ao descobrir que alguém narra em sua mente o passo-a-passo de sua trajetória:

Mais Estranho Do Que A Ficção (Stranger Than Fiction - 2006)
 Trailer: "Contado Ninguém Acredita"

Imagine que você, em sua rotina natural, começa a escutar alguém narrando seus eventos em tempo real. Mas apenas você escuta esta voz, ninguém mais. Ela não te manda fazer coisas, apenas diz como e por que foram feitas. Sem tendencia-lo, sem o questionar. Apenas diz que você começa a escovar os dentes pelo lado esquerdo da boca, esfrega por um determinado número de vezes e passa ao lado direito, repetindo o mesmo padrão. Depois lhe diz como você abotoa a sua camisa e que depois de puxar o zíper da calça dá uma ajeitada no seu material, puxando o para cima – para parecer volumoso – e o leva à esquerda, para parecer pesado. Coisas que você não conta a ninguém e, às vezes, nem percebe que faz. Isto é uma pincelada do que acontece na vida de Harold Crick (Ferrell), um funcionário da Receita Federal, que passa a ouvir seus pensamentos como se fossem narrados por uma voz feminina. A voz narra não apenas suas idéias, mas também seus sentimentos e atos com grande precisão. Apenas Harold consegue ouvir esta voz, o que o põe em situações desconcertantes. Esta agonia aumenta ainda mais quando descobre pela voz que sua morte é iminente, o que o faz tentar descobrir desesperadamente quem está falando em sua cabeça e como impedir sua própria morte.

"Quem está aí? Pare de falar, sua voz estúpida!"

Procurando por ajuda, Harold encontra duas possibilidades: segundo sua psiquiatra (Linda Hunt), ele é esquizofrênico (afinal, escuta vozes em sua cabeça); na opinião do conceituado Doutor em Literatura Jules Hilbert (Hoffman), ele está tendo a sua vida narrada por alguém que escreve toda sua trajetória (se eu fosse o Harold, levaria ele à psiquiatra também). Numa busca desenfreada pela autora da obra de sua vida (Thompson) – que não sabe que Harold é real – o pacato funcionário da Receita Federal percebe que não se trata de impedir a morte, pois ela virá; mas, sim, de como aproveitar a sua vida até que este momento chegue. Seguindo algumas dicas e padrões literários sugeridos pelo seu “Consultor Literário”, Harold realiza desejos, extravaza suas vontades mais simples e encontra o amor (Gyllenhall, a irmã, não o “cowboy”). Até que chega o dia em que ele encontra sua autora e ele deve decidir se a deixa finalizar o livro como planejado para ser entregue à representante da editora (Latifah), ou se muda o sentido de tudo o que já viveu, até mesmo as coisas boas.

"Eu estou vivo. Não me mate. Eu sou real!"

Sabemos claramente que várias obras já abordaram o tema do “Livre Arbítrio” ou ainda o enigma do “Simulacro”. Mas podemos ir mais além do que foi apresentado em filmes como “Matrix”...

 
"Se você tomar a pílula azul a história acaba e você acordará na sua cama, acreditando no que quiser acreditar. Se você tomar a pílula vermelha, ficará no País das Maravilhas e eu te mostrarei até onde vai a toca do coelho."



...Ou na série “The 4400”.

Nota do Editor: exemplo bom de uma série ruim.

Mais Estranho Do Que A Ficção” não se trata de você sair da fantasia, de encontrar a libertação de um mundo engendrado por uma mão “Divina” (conhecido como “Mito da Caverna”, de Platão), mas sim de aceitar a sua condição de peça do destino e procurar entender por que você está sendo movimentado no tabuleiro daquela forma. Trata-se de questionamento, não de rebeldia.

Como e Onde Ambientar?

• Por mais que estejamos acostumados a cenários de Fantasia Medieval repleta de Guerreiros e Monstros, nunca devemos esquecer que, enquanto alguns lutam, outros trabalham para provir alimento para um reino. E quem trabalha são estes nobres camponeses, que pouco são citados. São pessoas ordinárias, simples, “desprezíveis” aos olhos de aventureiros. Um dia, durante a sua rotina de lavrador, você escuta seu filho dizendo, em palavras pomposas demais para sair da cabeça de uma criança daquela idade, todas as suas atividades naquela manhã. Em suas mãos, um pergaminho velho com relatos de cada passo dado desde que acordara. Questionado de quem lhe entregou aquela epístola, o jovem apenas diz que estava ali, enterrado, onde ele estava cavando para plantar trigo. Mais para de noite, durante a caça de um rato que lhe roubara pedaços de pão, você enfia a mão pelo buraco onde o bicho se refugiou, puxando dali outro pergaminho, com a narrativa de todos os eventos significantes da metade do dia até agora. Esta página, um pouco mais velha que a anterior. A dúvida lhe corrói os miolos e logo as coisas pioram: sua casa é queimada, sua lavoura, devastada. Sua esposa e filho são raptados e nenhum tipo de barganha lhe foi feito por suas vidas. Um grupo de aventureiros acaba lhe encontrando e dizem que podem lhe ajudar, sem nada lhe cobrar a não ser um curioso pedido: que impedisse uma praga das trevas que assola todo o mundo. Como se tivessem um pacto, os aventureiros não mais lhe dizem uma palavra sequer, muito menos por que você, simples camponês de meia idade, seria capaz de uma façanha épica desta. A verdade se revela ao longo da aventura, já que você é incapaz de se lembrar de eventos que ocorreram antes dos dois anos que precederam o casamento com sua esposa e isto tem um motivo: eras um poderoso arcano que afligiu este mundo de uma ponta a outra, espalhando as trevas em cada reino que pisoteava com suas tropas. Mas seria derrotado pelos mesmos guerreiros que hoje estão à sua volta e, como medida de segurança, se fez um “backup” remissivo em um tomo que foi dado como perdido, mas espalhado, página a página por ti, em determinados pontos que você iria passar nesta aventura. Ninguém está narrando a sua história. Você a escreveu, mas quando era uma pessoa totalmente diferente... ou achava que era. Cabe a você esta escolha no final: tornar-se novamente aquele mago poderoso e vilanesco ou reverter este conhecimento para um bem maior?

Número 23: Mais um filme onde um comediante brinca de ser sério muito bem.

• Segunda metade do século XIX. Universidade de Ingolstadt, Alemanha.  Berço da aristocracia e academicismo da Europa e estopim dos maiores expoentes das ciências humanas, médicas e engenharias. Pouca ação é vista naqueles arredores, a não ser as explosões de experimentos físico-químicos e uma queda ou outra de protótipos de máquinas voadoras. A maior vitória nesta área é ser destaque acadêmico da faculdade, o melhor aluno, o mais eficiente pesquisador. Revirando as bibliotecas para estudo de material para os exames próximos, um grupo de alunos encontra, na sessão de Química, na prateleira rechaçada de Alquimia, um livro não catalogado. Nele, os manuscritos do Dr. Victor Von Frankenstein. O homem fora um estudante brilhante, monitor dedicado e, conhecidamente, um aficcionado pela geração de vida. Queria ser Deus, muitos dizem, mas profanava a carne moldada pelo Senhor. Trabalhava com sobras. Pasmos e curiosos com as palavras megalomaníacas de Frankenstein, os estudantes procuram saber mais sobre o “tutor” escriba. Funcionários antigos da faculdade se recusam a trocar uma linha sobre o médico; professores – que foram alunos junto com Frankenstein – se recusam a alimentar suas buscas; os anuários de destaques simplesmente excluem a figura do gênio insano e desgraçado. Conforme novas páginas são encontradas, fica claro que Frankenstein não apenas foi vitorioso ao dar vida a matéria morta uma vez – onde descreve como “a criatura” – mas como também conseguiu aperfeiçoar o método de reanimação artificial, de maneira menos agressiva aos olhos de terceiros (já que o “monstro” era descrito como um retalho mal costurado de carne amarela). O evento mais estranho é que os trechos perdidos que são encontrados narram partes da vida de cada um dos participantes da pesquisa, sendo cada estudante pertencente a uma área de conhecimento bem diferente um do outro. Será que um dos alunos era a última criação de Frankenstein? Ou será que alguém se aproveitou dos manuscritos de Victor para reproduzir o experimento, instigando os estudantes ao emular a letra do cientista? Como você reagiria ao saber que o que você sempre achou ser não passa de um mosaico da vida de outros?

Frankenstein, de Mary Shelley: bastante teatral e interpretação abaixo da média de Robert De Niro, mas vale ver.

Planeta Marte, fim do século XXI. Após a redução drástica da população terrestre decorrente da Guerra Termo-Nuclear, a mão-de-obra ficou escassa para suprir os grandes figurões que sobraram, refugiados em Marte. Agricultores, metalúrgicos, montadores, motoristas, prostitutas,... Todos os trabalhos considerados menores, porém de utilidade básica para a sociedade capitalista, ficaram sem contingente para ocupar seus postos, e logicamente nenhum magnata quer sujar suas mãos com trabalho pesado para justificar seu whisky. Neste contexto surgiram os “Replicantes”: robôs orgânicos criados geneticamente – visualmente indistinguíveis dos humanos. Sendo fabricados pela poderosa Tyrell Corporation, com patente distribuída também a outras "mega fabricantes" ao redor do mundo, restringindo o uso deles aos planetas-colônias, e não os Planetas-Capitais. As principais diferenças entre humanos e replicantes são: tempo de vida de 5 anos (assim, não há tempo hábil para se instigar movimentos grevistas); incapacidade de reprodução (replicantes só podem ser engenhados geneticamente); seus talentos natos são implantados na época do “nascimento” (assim não se corre o risco de se ter um replicante especializado em espionagem num serviço onde conhecimentos de corte de carne de boi seja o mais indicado); replicantes parecem não partilhar de sensibilidade a ponto de demonstrar emoções. Um tipo de teste minucioso, baseado em perguntas e análise de retina (chamado Voight-Kampff) é capaz de revelar um replicante entre humanos, mas não é imediato. Porém, a Tyrell Corporation criou um modelo cujo projeto caiu em mãos erradas: os Replicantes Modelo Nexus-6. E surgiu o boato de que um grupo deste lote está a caminho de Marte para exigir de Tyrell – o grande magnata da Corporação – mais tempo de vida. Cabe ao grupo de aventureiros, neste cenário Cyberpunk, evitar a ação destes androides de carne e osso, mas também fica a reflexão: se você tivesse uma audiência com Deus, não lhe pediria mais tempo de vida? Lembrando que, como se trata de um construto biológico, nada impede que eles tenham implantes de memória que o façam acreditar que são de fato humanos. Inclusive você.

Blade Runner: Não devo falar nada sobre este filme. veja-o. A imagem acima é a melhor cena.

Convido-os a assistir os filmes citados como referência e depois aplicar os conselhos postados! Três ideias, três períodos, três vertentes, várias possibilidades! Não se limite apenas ao filme ou às nossas sugestões! RPG é criatividade, um filme onde você é roteirista e diretor. Conduza os seus players, seus atores! Pegue seus dados, monte as fichas e boa diversão!

  V.H. Mota
PS: visite meu blog para acompanhar outras colunas que escrevo! Aguardo sua visita no Corra O Risco! E escute as excelentes reflexões do pessoal do Jurassicast sobre o filme AQUI! Obrigado!

7 Blá blá blá!:

Ana S. disse...

Como você reagiria ao saber que o que você sempre achou ser não passa de um mosaico da vida de outros?

Como coloco isso para os meus jogadores sem parecer bobinho?

Vitor Hugo Mota disse...

Boa questão, Ana.

Faça parecer mais psicológico do que físico. Nós - pessoas normais - somos apenas uma colcha de retalhos feita de influência de pessoas que passaram por nossas vidas. O que pode ter parecido mera "vivência" do personagem pode ser, na verdade, uma memória resquicial do tecido usado para compô-lo (se optar por usá-lo como golem de carne) ou até mesmo implantes de memória feitos por lavagem cerebral ou outro método de enxerto mnemônico.

O mais importante nesta aventura proposta em época clássica é que os jogadores sejam suavemente conduzidos por este emaranhado de informações dispersas a ponto de enlouquecerem junto com Frankenstein: será que um deles é a tal criação? Será que se pode confiar no outro colega de faculdade? Afinal, ele pode usar a desculpa de você ser o golem final para ter material para experimentar os manuscritos do cientista louco. O interessante é perturbar mais a mente do que o corpo. E quando todos acharem que é um jogo da mente, você revela que há exemplar físico das pesquisas.

Existem nuances na própria obra "Frankenstein", de Mary Shelley, que podem ser usadas como elementos extras na aventura: Henry Clerval, melhor amigo de Victor Frankenstein, foi morto pela criatura e o cientista chegou a ser acusado pelo seu assassinato. Por que não usar Clerval como sendo o experimento de sucesso de Frankenstein? Trazer o amigo querido de volta é sempre um plot interessante.

Tem um filme interessante que envolve um grupo de estudantes de medicina que fazem experiências com a vida após a morte que seria o clima ideal para a interação entre os personagens desta aventura: "Linha Mortal". De repente pode te ajudar na ambientação, Ana.

Obrigado pela visita e me dê um feedback da aventura, ok?

Rogério Monge da Dungeon disse...

Uma variante Interessante para o conjunto de idéias é a ideia do livro "Cavalo Marinho no Céu" de Edmund Cooper

Flws

Vitor Hugo Mota disse...

Não conheço. Procurarei saber, Rogério. De repente agrega valor.

Obrigado!

Rogério Monge da Dungeon disse...

Cara: Um pequeno resumo EXTREMAMENTE SPOILEIRANTE é o seguinte:

Um grupo de pessoas que estavam num avião se descobre transportada para um lugar deserto onde só tem um hotel, um mercadinho que é reabastecido misteriosamente todo dia e dois carros sem motor.
Explorando o deserto descobrem outros seres humanos (ou mais ou menos isso) vivendo na idade média ou na pré-história.

A grande sacada é: eles são clones exatos e perfeitos das pessoas que estavam naquele vôo e descobrem isso de maneira chocante: Foram clonados por uma raça de alienígenas com o intuito de espalharem a vida por aquele planeta e os outros habitantes estranhos são seres de outros planetas também clonados mas em épocas diferentes de sua história.
Em suma: os verdadeiros estão vivendo suas vidas como se nada tivesse acontecido, ao passo que os clones tem que se adaptar a uma vida vazia e sem sentido...

Dragões do sol Negro disse...

Ai no final eles descobrem que estão todos mortos hauahuahauhau

Vitor Hugo Mota disse...

E que seus nomes eram Ben Reilly e Kaine e que foram engendrados por Miles Warren, o Chacal.

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