terça-feira, 23 de outubro de 2012

Dragão do inferno - Parte 2


DRAGÃO DO INFERNO - PARTE 2

Leia a parte 1 clicando aqui.

- Tecnicamente, isso aqui é uma gruta. Uma gruta feia. Mas ainda assim uma gruta.

Gaiawel, o elfo trovador, olhava de soslaio para as formações rochosas que compunham as laterais das partes internas do local. Seus pés estavam encharcados pela água suja que escorria dentro da gruta, e o cabelo levemente desgrenhado pela brisa primaveril que soprou sobre ele minutos atrás.

- Confesso que eu esperava crânios humanos decorando as paredes, ou símbolos profanos desenhados no chão, ou ainda um imenso exército de mortos-vivos sanguinários para nos dar boas-vindas. Mas não esperava por isso.

Era uma gruta absolutamente comum. Se o poderosíssimo orbe mágico de Orff, o mago do grupo, não tivesse identificado que o esconderijo do dragão ficava no interior daquele lugar, ninguém acreditaria. Gaiawel mesmo, no fundo, duvidava um pouco que a localização pudesse ser aquela, mas os longos anos de aventuras vividas ao lado de Orff lhe ensinaram a não contrariar seu amigo naquele tipo de situação.

- Já eu, esperava jovens seminuas deitadas em colchões de penas. Não dizem que esse dragão exigia donzelas virgens? Quem sabe algumas delas ainda possam estar vivas aguardando que um homem de verdade lhes ensine a serem mulheres.

Hundaron era oriundo de uma tribo bárbara que precisou se adequar à civilização. Trabalhou por muito tempo como mercenário, até que o destino se encarregou de uni-lo a Gaiawel, Orff e Dran. Muitas foram as vezes em que sua espada bastarda resolveu problemas do grupo antes que seus demais colegas precisassem agir. Naturalmente, ele tinha consciência de que a situação atual seria muito diferente.

- Ver isso aqui me lembrou o quanto os povos humanos são medíocres. Nenhum anão que dê valor à barba que usa ousaria criar uma caverna tão medíocre, rasa e suja quanto essa – disse Dran, o clérigo anão.
- Longe de mim querer defender os humanos – ironizou Gaiawel – mas acho que eu já deixei claro que isso aqui não é uma caverna. E mesmo que fosse, não foi escavada por humanos. É uma formação natural.
- Sempre há desculpas para justificar a incompetência humana.

E, trocando agressões verbais moderadas, os quatro foram seguindo. O orbe mágico de Orff garantia a luz que o interior da gruta não fornecia. O terreno, cada vez menos úmido, parecia seguir em constante descendência. Havia estalactites, estalagmites, grandes quantidades de musgo e cheiro de decomposição de corpos de pequenos animais. Um corredor levava a outro, mas nenhum dava acesso a qualquer tipo de sala ou construção mais trabalhada. O caminho era entre ruínas.

- E se gritássemos para o dragão que o desafiamos para o combate em um local mais iluminado? – sugeriu Hundaron – Poderíamos lutar com ele em algum lugar mais bem-iluminado, mais cheiroso e mais espaçoso.
- Apesar de não ter achado graça, concordo, em partes, com você – era Dran – Se o dragão nos atacasse aqui, não teríamos como nos desviarmos de seu sopro. Muito embora um dragão ancião não possa viver em lugar tão pequeno. Com certeza, o local em que ele está deve ser uma câmara gigantesca.
- A verdade é que eu queria saber se o miserável já sabe que estamos aqui.
- Ele já sabe! – disse Orff, sempre monocórdio.

O mago tinha o hábito de ignorar as conversas dos amigos e só se manifestar em momentos pontuais. De forma concisa e direta, sem admitir questionamentos. Uma vez que ele tinha dito que o dragão estava ciente da presença deles, então isso era certo.

- Meu arco e minhas flechas foram abençoados por Irlyajur, a deusa dos elfos. Acredito que o seu machado também tenha algum tipo de benção divina nele, certo Dran?
- Não, Gaiawel. Meu machado é forjado por artífices anões, mestres da forja, e é de aço de alta qualidade, apenas isso. O que há de abençoado em mim são meus braços, que empunham a arma com a certeza de que o grande Murgaryd, o Pai Anão, me levará a vitória.
- Ah, anões... Por que sempre se fazem de desentendidos? – Gaiawel pôs a mão sobre a face, fingindo decepção – Estou perguntando isso porque é bem possível que nosso inimigo seja resistente a armas consideradas “normais”. Aliás, Hundaron, será que sua espada funcionará contra nosso inimigo?
- Ela funcionará, trovadorzinho barato, claro que funcionará. Pois embora ela seja comum, ela é empunhada por mim, que não preciso acreditar em deus nenhum para ter certeza da vitória.

A discussão teológica foi seguindo por longos minutos, até que a chegada a um precipício, aparentemente sem fundo, barrou a passagem de todos. Devia ter algo em torno de quinze metros de comprimento. Não podia ser pulado ou atravessado através de meios normais.

- É um teste. E perigoso! – disse Orff.

Não era a primeira vez em longos anos de aventuras vividas juntos que eles se deparavam com um abismo entre o grupo e seu objetivo. A solução para transpor aquele inconveniente era a magia de Orff. O jovem arcano ergueu, a um gesto, seu orbe, que flutuava a altura de seus ombros. Um estalar de dedos e um franzir de cenho fizeram a esfera mágica faiscar de forma repentina. Um brilho no fundo do precipício pôde ser brevemente vislumbrado.

- Há magia nesse precipício. É uma armadilha! – concluiu Orff.

O mago apanhou um pedregulho do chão e o imbuiu de energia arcana. Balbuciou qualquer coisa, e seu orbe crepitou em resposta com mais intensidade. A pedra começou a flutuar e foi em direção ao outro lado do abismo. No meio do caminho, um brilho vindo do fundo do precipício interferiu com a magia e fez o pedregulho cair.

- Isso é o que teria nos acontecido se eu tivesse tentado nos fazer levitar até o outro lado como sempre fizemos – explicou Orff.

Os três companheiros nada disseram, embora torcessem, mentalmente, para que o colega tivesse uma solução para o problema. O mago aproximou mais da borda do abismo, sendo seguido por seu orbe flutuante. A esfera arcana foi ampliando a aura azulada que a circundava, obtendo o brilho vindo das profundezas como resposta. O interior da gruta inteira rutilou por curtos instantes, nos quais as duas forças mágicas mediram forças.
Quando tudo pareceu voltar à normalidade, Orff suava e resfolegava. Mas sorria.

- Vamos atravessar!

A magia dele conduziu o grupo até o outro lado do abismo, e todos caminharam por mais duas horas até chegarem ao fim de um corredor. Uma abertura estreita os levava a uma imensa escavação, aquela sim feita por mãos humanas. Sobre eles, um teto situado a dezenas de metros de altura. O chão era pastoso, formado por substâncias asquerosas que era melhor não saber quais eram. Ali, sim, tinha espaço para um dragão. Mas não havia nenhum.

Só havia demônios.  
  
***

- Confesso que não estou entendendo – era Gaiawel.
- Eu explico para você: viemos aqui matar um dragão. Enquanto não o achamos, vamos matar os demônios, pois foram eles que nós achamos – explicou Dran – Alguma dúvida?
- Gostei da explicação! – gargalhou Hundaron.
- Minhas dúvidas são: o que esses demônios estão querendo aqui? Eles são aliados do dragão? Onde está o dragão? Todos os anões são assim tão desprovidos de senso de humor?
- As perguntas do elfo são pertinentes! – interrompeu Orff.

Os outros três fitaram com certa admiração o semblante pétreo do amigo mago.

- É importante que isso seja esclarecido, porque dependendo das circunstâncias, nosso objetivo aqui pode passar a ser outro.
- Antes de sua bem-vinda explicação, Orff, deixe-me perguntar: os demônios já estão cientes de nossa presença? – perguntou Gaiawel.
- Não. Ainda não. Por isso, escutem: esses demônios são aliados do maldito Erdagan. O miserável capturou o Anjo Sacray com a intenção de entregar a alma dele aos demônios, recebendo em troca algumas gotas do sangue de cada um dos seis arquidemônios. Com esse sangue, Erdagan se tornará o terrível “dragão do inferno”.
- Entendi – disse Hundaron – Eu estava achando estranho o dragão usar uma criatura do céu para virar uma criatura do inferno.
- O que significa que nossa missão não é apenas exterminar Erdagan, mas, principalmente, impedir que o sangue dos arquidemônios seja usado por ele em um ritual, correto? – perguntou Dran.
- Exato! – bradou Orff.

Naquele momento, o orbe mágico crepitou com grande intensidade.

- Nossa presença foi descoberta. Vamos! 

CONTINUA...

1 Blá blá blá!:

Rogério Monge da Dungeon disse...

Aguardando...

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