quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Dragão do inferno - Parte 1



DRAGÃO DO INFERNO - PARTE 1


Os passos apressados abafavam o som das lágrimas. Homens, mulheres, idosos e crianças corriam igualmente, movidos pelo pânico. O medo não fazia distinção.
Ao todo eram mais de oitenta pessoas, arrancadas brutalmente de suas casas pela urgência e gravidade da situação. Agricultores, ferreiros, artesãos, comerciantes e toda a sorte de humildes camponeses que podiam ser encontrados no extremo sul de Myaran. Os rostos cansados, reflexo do esgotamento provocado por um produtivo dia de trabalho, deram lugar aos semblantes de preocupação e angústia. Alguns traziam ferimentos no corpo, cicatrizes deixadas pelos algozes que haviam transformado os vilarejos da região em um inferno na semana anterior.
Corriam, aos tropeções, tentando enfileirar seus filhos o mais rapidamente possível em um dos muitos salões que davam acesso ao local que, pelos próximos meses, eles chamariam de lar – supondo que sobrevivessem. Eram muitas as passagens que ligavam a igreja a suas dependências subterrâneas, e só os deuses sabiam o quanto os criadores daquele esconderijo estavam sendo agradecidos por aquela gente. Várias escadas ocultas permitiriam que parte do povo se abrigasse em aposentos localizados a cinqüenta metros abaixo do solo. A balbúrdia foi grande, mas logo todos conseguiram garantir seu lugar no único local que, acreditava-se, seria seguro pelas horas seguintes.
A calmaria trazida pela sensação de proteção permitiu que se ouvissem os choros das crianças. Mesmo acostumadas às terríveis calamidades a que seu povo era submetido regularmente, fruto da tirania do terrível dragão vermelho, Erdagan, os acontecimentos recentes foram fortes demais para serem assimilados tão rapidamente pelas inocentes mentes infantis. Algumas foram trazidas desacordadas para o subterrâneo, visto que seus pais não podiam se dar o luxo de aguardar que recuperassem a consciência antes de trazê-las. As demais soluçavam e choravam, gritavam pela saudade de algum ente querido assassinado há pouco tempo, ou simplesmente tremiam descontroladamente enquanto seus olhares perdiam o brilho.
Para que ninguém dissesse que os deuses tinham abandonado aquele povo, havia o Reverendo Tudhy. Cumprindo as funções de pregador, curandeiro, cerimonialista e mensageiro da boa nova, ele era a principal autoridade religiosa da região, sendo o responsável por tranqüilizar os corações com suas palavras de encorajamento, celebrar matrimônios e funerais, e abençoar os recém-nascidos. A ele, e apenas a ele, cabia o papel de impedir que todos perdessem a esperança. Um papel que ele pretendia cumprir com muito gosto, pois sabia que a outros fora reservada uma missão muito mais desafiadora.

Impedir a destruição do mundo.

***

- Afinal, Reverendo, o que está havendo aqui?

A pergunta veio de um jovem imberbe, alto, calvo, que trajava roupas simples e tinha olhos de um negro tão profundo quanto o brilho da lua cheia. Havia chegado no dia anterior ao povoado, com o intuito de visitar um de seus irmãos a quem não via há quase um ano. Descobriu, da forma mais dolorosa possível, que seu ente querido tinha perdido a vida na horrenda carnificina que ocorrera dias antes.
O rapaz enlutecido, de nome Rorb, não foi autorizado a abandonar a região devido ao altíssimo risco a que iria se expor se o fizesse. Recebeu abrigo, comida, mas nenhuma explicação. Ninguém tinha condições emocionais de falar sobre o que tinha acontecido, tampouco sobre o que estava para acontecer. O jovem optou por aceitar esconder-se nos subterrâneos da igreja, mas não podia mais ficar sem entender o que se passava.

- Os deuses são bondosos por permitirem que você ainda respire, meu jovem – o Reverendo intercalou as palavras a algumas tosses – Sugiro que ore a todos os deuses em que acreditar para que sobrevivamos. Mais que isso, te aconselho a preservar sua sanidade e não tentar entender o mal que nos aflige.  
- Reverendo, eu preciso saber o que está acontecendo. Meu irmão morreu e, aparentemente, minha cunhada e minha sobrinha tiveram o mesmo fim. Parece que também estou correndo perigo e nem sei exatamente o motivo. Desculpe-me, Reverendo, mas exijo saber o que se passa.

O Reverendo suspirou e abaixou a cabeça, para em seguida ter que levantá-la devido a um novo e violento acesso de tosse. Bebeu um gole de água, e notou que mais pessoas se aproximavam para ouvirem o que ele contaria. Fez uma curta e silenciosa prece aos deuses e começou.

***
Todos os povoados que compõem a região sul de Myaran sempre foram pacíficos. Sempre abominamos a guerra, a violência e qualquer prática militar. Por isso, passamos longos anos ignorando os conselhos de termos uma milícia para nos proteger de eventuais ameaças. E assim vivemos, durante muito tempo, sem grandes preocupações, concentrados apenas em assegurar nosso sustento e o de nossos semelhantes.
Foi quando surgiu Erdagan, o gigantesco dragão vermelho. Saído de algum pesadelo infernal, fez uma demonstração de seu poder, dizimando sem muito esforço um vilarejo inteiro. Dezenas de inocentes pereceram sob o fogo impiedoso soprado pelo maldito. Quando achávamos que seríamos os próximos, a criatura disse que nos pouparia, desde que aceitássemos a desumana exigência de entregar a ele, a cada lua cheia, uma jovem cândida de quinze ou dezesseis anos para que ele a sacrificasse.
Relutamos muito. Oramos aos deuses e tentamos pedir reforços à capital, mas os mensageiros que enviamos foram interceptados e carbonizados pelas chamas do dragão. Impotentes, revoltados e sem opção, nos curvamos à vontade demoníaca de Erdagan e lhe entregamos uma jovem. Que os céus nos perdoem por isso, mas tivemos que fazer o mesmo a cada lua cheia.
Irônico reparar que, por causa disso, o dragão passou a nos ver como seus “servos protegidos”. Certa vez, bárbaros vindos da planície oeste tentaram nos atacar, e Erdagan saiu em nossa defesa imediatamente, massacrando sem piedade os invasores. Uma proteção bem-vinda, mas pela qual se pagava um preço alto demais.
Há poucos dias, então, aconteceu. Criaturas bestiais, grotescas caricaturas de seres humanos, de aspecto simiesco e dentes pontiagudos nos atacaram. Eram dezenas, vestindo trapos e portando lâminas enferrujadas. Imploramos por piedade e oferecemos a ele nossas parcas riquezas em troca de uma clemência que não venho. Casas viraram cinzas, cabeças foram separadas dos corpos por violentos golpes de machado. Pais choraram pela morte de seus filhos, para instantes depois juntarem-se a eles no descanso eterno.
Surpreendentemente, Erdagan pôs-se à mostra no momento mais crítico. Sorrimos, então, com a certeza de que nossa salvação estava a caminho, mas isso não aconteceu. O dragão observou à distância a carnificina, como se aquilo o beneficiasse de alguma forma. Não interferiu, e o número de vítimas foi crescendo.
As bestas assassinas foram se multiplicando, pois, enquanto o ataque ocorria, mais invasores chegaram. Muitos de nós tentamos fugir, sem sucesso, encontrando apenas a decapitação como destino. E digo-lhes que felizes foram os que tiveram esse fim rápido e indolor, pois até hoje, em meus sonhos, ouço os gritos daqueles que só sucumbiram após horas de tortura.
Então eu orei. Caí de joelhos, e, em lágrimas, implorei para que os deuses se manifestassem. Para que me provassem que todos esses anos de devoção e fé incondicionais não foram à toa. Supliquei para que mandassem um sinal, uma prova de que se importavam conosco. Pedi fervorosamente para que não permitissem que o mal triunfasse.

E os deuses responderam.

Surgindo como que por magia divina, um clarão desceu dos céus, trazendo com ele um indivíduo. Alto, robusto, seminu, careca e de semblante férreo. Majestosas asas emplumadas nasciam de suas costas, e uma aura cálida o circundava. Era aquele sobre o qual muitas lendas havia, mas que jamais tinha sido visto por essa geração. O enviado dos deuses para não permitir que o mal triunfasse e que os culpados ficassem impunes.

Era o Anjo Sacray.

Rapidamente, ele nocauteou os invasores, garantindo a eles a merecida morte impiedosa. Curou aqueles que agonizavam e fez renascerem membros decepados. Ainda chorávamos pelos nossos mortos, quando o Anjo Sacray emanou um rútilo dourado de natureza santa, trazendo a vida quase todos os que haviam perecido.
Choramos emocionados por ver uma lenda saída de nossos livros sagrados mostrar-se real, e prostramo-nos antes os deuses em gratidão suprema. Pais abraçaram filhos, esposas beijaram esposos. Tudo parecia ter terminado bem, quando um fato inusitado encheu de pânico nossos corações.

Erdagan, o dragão, atacou o Anjo Sacray.

O combate travado pelos dois foi digno de ser cantado pelos trovadores por séculos. E certamente o seria, se a vitória tivesse sido do Anjo. No entanto, o dragão triunfou sem grandes ferimentos, confirmando nossas suspeitas de que se tratasse de um ancião poderosíssimo. O enviado dos deuses foi levado quase sem vida para o covil do monstro maldito. Nós, indefesos, nos recolhemos a nossos lares sem saber o que fazer.
Dois dias depois, chegaram viajantes da capital. Guerreiros, feiticeiros, cavaleiros e sacerdotes dos falsos deuses em que o povo dito civilizado acredita. Visivelmente poderosos, eles reuniram os líderes dos povoados e explicaram o que ocorria. Contaram que Erdagan planejara o surgimento do Anjo Sacray com o intuito de seqüestrá-lo. Disseram que o dragão usou a alma moribunda da criatura celeste em ritual profano. E, com isso, a fera havia se tornado o que eles chamaram de “Dragão do inferno”.
Em meio às explanações pormenorizadas sobre a impressionante extensão dos poderes do monstro, ficou claro apenas que deveríamos procurar abrigo. Os valorosos heróis estavam partindo dentro de poucos dias rumo ao covil para travar uma batalha mortal contra o terrível dragão.
Sem escolha, optamos por nos abrigar na escuridão dos subterrâneos de nossa igreja. Aqui não seremos encontrados, teremos mantimentos, água e paz por algumas semanas. Caso os heróis percam, poderemos nos manter escondidos até que o monstro assassino destrua nossos vilarejos e perca o interesse nessa região.
Os aventureiros partiram há poucas horas, minutos antes de eu iniciar a evacuação de nossas aldeias. Eis por que estamos aqui.

E eis por que só nos resta orar.

0 Blá blá blá!:

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