segunda-feira, 17 de setembro de 2012

A amargura do dragão




"Estavam de frente um para o outro. Fitaram-se demoradamente, cada qual trazendo consigo um semblante que expressava perfeitamente o que sentiam. O silêncio foi quebrado por uma afirmação que mais parecia um desabafo:

- Achei que você já soubesse – Mais uma pausa. Os olhares de desviaram – Será que nunca nenhum bardo lhe disse que o amor de um dragão é eterno?
- Será mesmo que o que você diz sentir é amor? Um dragão, prepotente, auto-suficiente, orgulhoso... Mesmo assim é capaz de amar? Você está me dizendo que a arrogante raça dos dragões é capaz de sentir algo como amor? Está dizendo que até mesmo um dragão precisa de outra pessoa para ser feliz? Como você me explica isso?
- Não há explicação para certas coisas. O amor é uma delas.

Ela fechou seus olhos por um breve instante. Meneou a cabeça, respirou fundo e tornou a abri-los lentamente. O vento soprou forte, talvez para levar para longe do rosto dele as lágrimas, caso ele chorasse. Mas dragões não choram.

- Na verdade, você está com o orgulho ferido. Está acostumado a ter tudo que deseja, tomar pela força tudo aquilo que quer. Não consegue aceitar a frustração de que sua vontade não foi realizada. Você me vê como um prêmio, um troféu a ser conquistado, assim como uma das muitas jóias que há em seu covil. Quer que eu seja sua propriedade. Não por amor, mas para satisfazer sua vontade de conquistar e de possuir. Você me vê como a caça que escapou de seu predador. E isso fere seu orgulho. Deixa em você uma ferida que jamais cicatrizará.

Ele olhava para ela com olhar sério. Talvez não acreditando naquilo que ouvia, ou frustrado porque achou que ela o entenderia. Se não fosse um dragão, ela diria que ele estava fazendo força para não se emocionar. Mas dragões não se emocionam.

- Você acha que o me move é o orgulho? Posso conseguir você pela força, se eu quiser. Posso pôr em risco a vida de pessoas importantes para te chantagear e te obrigar a viver ao meu lado. Posso até mesmo enfeitiçá-la para que me deseje.

Ela não quis oferecer nenhuma resposta, pois parecia entender onde ele queria chegar. Os semblantes mudaram. A angústia dele não, embora fosse difícil perceber. Pois dragões não demonstram fraqueza.

- Se eu fosse movido pelo orgulho, poderia fazer algo assim. E conseguiria você. Recuperaria meu orgulho, realizaria minha vontade. Saciaria minha sede de conquista, meu desejo de posse. Mas o que eu quero é algo maior que isso. É o amor. Puro e verdadeiro.
- Amor? – ela retrucou incrédula – Como pode uma criatura como um dragão sentir amor? Uma raça que só sabe destruir e matar... Como pode ser capaz de amar?
- Destruímos aquilo que não amamos. Matamos aquilo que não amamos, pois para nós não tem valor. Mas sabemos valorizar aquilo que amamos.

Os dois voltaram a se entreolhar demoradamente. Estava claro que ela não o entendia.

- Você sabe que seu amor por mim não é, nem jamais será correspondido. E se mesmo assim você continua me amando... Só posso pensar que seja porque seu orgulho está ferido com a não realização da sua vontade.
- Se meu amor precisasse ser correspondido para continuar existindo, aí sim eu estaria alimentando meu orgulho. Mas meu amor é incondicional. Mesmo não sendo correspondido, ele continua vivo. Pois o verdadeiro amor é entrega, é doação total. O verdadeiro amor não pede nada em troca. Se eu precisasse ser correspondido para continuar amando, eu estaria dando amor pensando em recebê-lo de volta... Seria apenas uma troca. E amor não é troca... É doação.
- Nem nós humanos amamos para sempre. Como pode um dragão amar desta forma?

O dragão virou seu rosto Queria esconder as lágrimas que escorriam. Mas por algum motivo, o vento não quis levá-las.

- Talvez vocês humanos devessem aprender com nós, dragões, como se ama de verdade. Assim, talvez, o amor de um humano fosse como o amor de um dragão. Eterno!

Lágrimas rolaram fartas. O vento soprou forte, mas parecia desviar-se daquele rosto umedecido.

Muito pouco se sabe sobre o destino da jovem. Conta-se que ela teria voltado ao seu lar, no extremo oposto do continente, e casado com um nobre designado por seu pai. Outros acreditam que ela teria sido capturada por mercadores de escravos e vendida a um senhor de terras.
Quanto ao dragão, ele de fato nunca mais foi visto. Cogita-se que tenha ficado recluso até o fim de sua vida em seu covil sofrendo em silêncio. Outros acreditam que ele teria abandonado a região e rumado para terras inexploradas a fim de esquecer sua tristeza.
Mas o mais provável é que ele tenha tirado sua própria vida, incapaz de suportar a dor que sentia.

Diz a lenda que nunca mais a luz do dia teria aparecido naquele lugar. Para alguns, era porque até o sol não tinha vontade de brilhar em um ambiente de tanta dor e desilusão. Mas a explicação mais fantástica e cantada nas tavernas por bardos desdentados é de que nem mesmo o astro-rei era capaz de iluminar um horizonte enegrecido pela amargura de um dragão."



4 Blá blá blá!:

Dragões do sol Negro disse...

Show de bola, um aconto do dragão élfico hauahuahauhaua

"Amor é como a batalha. Começa com uma tremedeira nas pernas, mas logo virá um caos de berros, dor e gargalhadas!" Mnar o Urso.

Rogério Monge da Dungeon disse...

Atenção, atenção, jogadores apelões:

Aqui esta prontinho um histórico show de bola para seu mestre deixar você jogar com 1/2 dragão, e bem escrito!

RPG Forever disse...

Ou um histórico para seu mestre deixar você jogar com um dragão emo.

Rogério Monge da Dungeon disse...

wahahahahahaha!

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