segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Tarrasque



Tarrasque

Só fazia duas semanas. Menos, talvez.

Estávamos eu, Joynylly, Kardagon e Myur bebericando em uma taverna qualquer. O vinho estava amargo e muito frio, as raparigas eram feias e tinham bêbados na mesa ao lado cuspindo uns nos outros – e, vez por outra, me acertando. Até aí, nada de novo.
De repente, chegou um velhinho. Barba branca, voz entrecortada por espasmos de dor, e um brilho enigmático no olhar. Soa familiar, não? Pois é. Ele se debruçou sobre nossa mesa, começou a chorar e a gaguejar sobre uma profecia. Falou sobre uma ameaça invencível, um monstro adormecido, e que o mundo estava condenado. Disse que nós éramos os “escolhidos” e que devíamos impedir enquanto ainda era possível fazer isso. E falou aquele nome que até o bardo mais criativo já pronunciou trilhões de vezes: Tarrasque.
Saímos da taverna – depois de levarmos o velho a nocaute com um soco de Kardagon, claro. Acho que de cada dez tavernas que já visitamos, em quarenta aconteciam sempre as mesmas coisas.
Pena eu estar errado na única vez em que não podia.

***

A Ordem dos Cavaleiros Santos de Dalanthar havia sido destruída sem deixar vestígio. O mais respeitado grupo de heróis de todo o continente tinha sido dizimado, e minha intuição me alertava que o velho barbudo tinha razão.

Até que chegamos à grande capital Yavak. E vimos o fim do mundo.

O monstro tinha dezenas de metros de comprimento, uma cauda enorme, e, sobre suas costas, uma carapaça invulnerável. Uns diziam que era uma força antinatural do universo, outros que era a suprema criação dos deuses do mal, e ainda havia quem afirmasse que ele era o enviado dos céus para punir a maldade dos mortais. Independente do que realmente fosse, ele era o inimigo que todo aventureiro rezava todas as noites para nunca precisar enfrentar.

Era o Tarrasque.

As cidades eram derrubadas a cada movimento sinuoso do corpanzil do bicho. Arqueiros disparavam flechas, magos lançavam seus feitiços, clérigos erguiam colunas de fogo sagrado, mas tudo batia na carapaça e não o feria. Pessoas eram “varridas” e pisoteadas. Tinha gente correndo para todos os lados, e muito poucos conseguindo realmente escapar.

- Vamos – Joynylly gritou comigo.

Não era uma hora boa para uma bravata. Fiquei quieto e pedi aos deuses em silêncio para que parte do desejo deles de justiça e paz se materializasse em forma de poder em minha espada. Escutei Kardagon gritar algo como “Mire nos olhos do maldito”, e depois ouvi o grito de Myur. Abri os olhos.
O Tarrasque se debatia e girava o corpo freneticamente fazendo tudo ao seu redor desmoronar. Joynylly fez menção de ir resgatar uma família soterrada entre os escombros de sua casa, e não viu a aproximação veloz e violenta da cauda do inimigo. Foi atingida em cheio e voou metros longe. Avancei espada em punho, disposto a arriscar. Atingi uma das patas colossais do monstro. Pouco mais que um arranhão. Recuei.
Ficou claro que não havia chance de vitória. Myur usou uma das poucas magias que restava e nos tirou dali.

***

Ficamos dois dias descansando e tentando pensar em algum tipo de estratégia. Lá fora, não havia mais cidades. Só ruínas. Levitando magicamente graças a Myur, pudemos ver que praticamente todo o mundo já tinha sido arrasado.

- Acredita que somos os únicos sobreviventes? – perguntei, com medo de ouvir a resposta.
- Difícil dizer – Myur respondeu.
- O Tarrasque pode ser vencido?
- Possível, porém improvável.

Fizemos os últimos preparativos e partimos para tentar defender um mundo que já tinha sido destruído. Não haveria sobreviventes para nos agradecer, caso vencêssemos. Nem ao menos, uma criança abraçada à sua mãe para nos emocionar e nos fazer pensar: “Valeu a pena”. Além disso, a chance de vitória era quase nenhuma.

Mas dizem que o sacrifício é o destino dos cavaleiros. Por isso aceitei o destino.

E parti rumo a batalha final.  

***

Momentos antes de partirmos para a batalha, Myur tirou da estranha bolsa que trazia a tiracolo um anel de bronze com três pedras incrustadas.

- É um anel dos três desejos – ele explicou.

Eu já tinha ouvido falar, mas jamais pensei que um dia veria um objeto como esse. Se eu entendi bem, com isso ele poderia lançar três vezes a magia “Desejo” – a mais poderosa magia conhecida. Em circunstâncias normais, ele só poderia conjurá-la uma única vez, e pagando um alto preço por isso. A chama da esperança reacendeu em meu peito.

- Isso não é nenhuma garantia de vitória – ele tratou de frisar – A magia não é poderosa o bastante para que eu simplesmente peça que o Tarrasque morra. Mas, talvez, seja possível enfraquecê-lo.

Kardagon preparava-se para estrear uma arma nova: um imenso machado encantado que estava guardando para alguma batalha “especial” que surgisse. Ele parecia tão tomado por uma empolgação adolescente, que nem dava importância às palavras de Myur.
Joynylly estava sentada em um rochedo pondo suas botas. Quando olhei para ela, vi que estava de olhos fechados. É claro, deveria estar orando. Desde que essa maldita batalha começou, ela sempre se mostrou a mais abatida. Às vezes até parecia que ela sentia o sofrimento das vítimas. Cada homem, cada mulher, cada criança que morria provocava nela uma dor visível. No fundo, acho que ela estava rezando para morrermos lutando. Assim o sofrimento terminaria.
Eu estava apenas pensando em como ser útil no confronto. Queria logo que Myur enfraquecesse o Tarrasque com a magia para que pudéssemos definir estratégias. Quem sabe com um ataque coordenado, bem planejado, não conseguiríamos a vitória?

- Mas por outro lado – Myur acabou com meu otimismo – a magia “Desejo” jamais consegue fazer algo que vá contra a vontade dos deuses. Se forem verdadeiras as lendas que dizem que o Tarrasque é um enviado dos deuses para punir o mundo...
- Podemos não conseguir – Joynylly completou.

Não era a hora de fazermos suposições, pensei. Pedi a Myur que fizesse logo a conjuração. Apesar do desânimo, estávamos prontos.

Prontos para desafiar a vontade dos deuses.

***

Myur recitou várias e várias vezes umas palavras esquisitas de algum idioma estranho. Parecia uma litania, como se estivesse pedindo insistentemente que os deuses nos ajudassem.
Tive a impressão de que o sol tinha se apagado. Senti o chão tremer, meu estômago revirou-se, um zunido invadiu minha cabeça, e por longos instantes, uma sensação de desorientação atingiu todos nós.
Uma das pedras incrustadas no anel foi escurecendo até ficar completamente negra e se esfarelar. Myur havia desejado que as defesas do Tarrasque fossem enfraquecidas. Ou que ele deixasse de ser invulnerável, ou que ficasse mais vulnerável aos nossos ataques, ou algo assim. Não lembro ao certo. Quando Myur nos explicou eu ainda estava zonzo, fazendo força para não vomitar.
Uma nova desorientação, uma nova alteração no tecido da realidade, um novo desejo sendo feito. Kardagon se desequilibrou e caiu no chão, Joynylly perdeu os sentidos, e eu vomitei como poucas vezes havia feito na vida. Desta vez, Myur não contou o que tinha desejado. Lembro de ele ter dito que só durante a batalha saberíamos se os desejos foram atendidos ou não.
 Ele guardou o terceiro desejo para uma eventual emergência, esperou que nos recuperássemos totalmente, e leu um pergaminho amassado que trazia em suas coisas.
Fomos teletransportados para onde o Tarrasque estava.

***

Se haviam sobreviventes, encontrá-los seria mais difícil do que derrotar o Tarrasque. Absolutamente tudo que a vista alcançava jazia em destroços. E a abominação maldita continuava lá, destruindo, e destruindo de novo, pisoteando escombros, demolindo ruínas e esmagando cadáveres.
Nos materializamos atrás dele. Invisíveis. “É parte da estratégia”, Myur nos alertou telepaticamente. “Não tentem entender. Apenas ataquem.”

Joynylly ergueu uma impressionante coluna de fogo sagrado na pata dianteira esquerda do maldito fazendo-o se desequilibrar. Myur lançou uma rajada de energia arcana sobre a carapaça do monstro. Sem efeito. O Tarrasque girou o corpanzil levando a cauda em direção a onde estava Kardagon, que, estrategicamente posicionado para não ser atingido, cravou seu machado com força no inimigo, que emitiu um urro assustador. Joynylly golpeou várias vezes com a maça-estrela a outra pata do bicho. Myur me fez levitar magicamente, e, por telepatia, me orientou a atacar os olhos daquele desgraçado. Orei aos deuses para que me dessem a força necessária e estoquei minha espada no infeliz.
“Enquanto a invisibilidade durar, estaremos em vantagem”, pensei, após acertar o outro olho do Tarrasque. O monstro maldito caiu, enfraquecido, após ter sido bombardeado pelas magias ofensivas de Myur. Suas patas e suas cauda começavam a sangrar timidamente.

- Nós vamos conseguir – lembro de não ter conseguido conter a empolgação – Se continuar assim, vamos vencê-lo.
- É cedo para comemorar – Myur respondeu no exato instante em que voltamos a ficar visíveis.

O Tarrasque pisou com força em Joynylly quando ela tentava feri-lo ainda mais. O giro veloz da cauda titânica atingiu em cheio Kardagon. Lembro de ter visto o machado dele voar longe, e, ao voltar a olhar para ele, vê-lo morto. A besta infernal levantou-se e veio em minha direção. De longe, Myur usou o terceiro desejo. Não sei o que ele pediu, mas vi o Tarrasque ser atingido por uma seqüência interminável de raios prismáticos multicoloridos. Eu também fui atingido pela explosão. Meu corpo ardia enfraquecido, enquanto pude escutar a criatura maldita urrar com selvageria.
Mesmo enfraquecido, o Tarrasque veio em minha direção para me esmagar. Zonzo, olhei para o lado esperando que uma nova magia de Myur me salvasse. Mas ele estava desmaiado. Parecia não respirar mais. Empunhei minha espada com a pouca força que ainda tinha e pedi aos deuses que a vontade deles fosse feita.

É minha última lembrança da minha vida no Plano Material.  

***

Termino de registrar essa história neste pergaminho amarelado com um sorriso no rosto. Vou dedicar minhas próximas horas a agradecer ao deus da justiça por ter me recebido tão bem em seu reino.  
    

1 Blá blá blá!:

Dragões do sol Negro disse...

0.o

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