segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Caminhos de sangue



Caminhos de sangue

Quando acabei, me senti satisfeito. Havia um sabor que eu tinha dificuldade em descrever, mas que me proporcionou uma satisfação que ia além de tudo que eu já havia experimentado em vida. Saciou por completo minha alma, pois meu corpo parecia não ter mais necessidades físicas.
O sangue escorria farto naquele braço branco e delicado. Não sei se era o prazer mórbido de ver um corpo tão frágil ser violentado pela minha sede, ou se era o vermelho que me fascinava. Acho que os dois. Só sei que o vermelho do pulso escorreu por aquelas mãos pequenas e combinou com o esmalte dela. Senti algo muito parecido com aquilo que, em vida, eu chamei de prazer.
Ela estava caída, indefesa, deitada sobre meu corpo, entregue a vontades que qualquer outro teria. Mas eu não mais. A maior entrega havia sido minutos antes, quando entregou sua vida, sua alma a mim. Abriu mão de sua humanidade. Aceitou trilhar um caminho sem volta e se entregou como uma escrava se entrega a seu senhor. E tão maravilhoso quanto vê-la acordar transformada pela minha vontade, é vê-la fragilizada, totalmente entregue a mim.
 Se existe prazer em minha nova vida, certamente é isso que estou sentindo. Sinto-me embriagado, entorpecido pela mórbida sensação de ver alguém subjugada por pelos meus encantos, dominada pelas minhas vontades. Sim, sensação mórbida, esta é a palavra. Tornei-me uma criatura mórbida, movida por prazeres proibidos. Um escravo desses mesmos prazeres que me fizeram dominá-la.
Dou boas-vindas à escuridão que se apossa de minha alma e adormeço.

***

O que foi que eu fiz? Meu Deus, Emily, não! Como pude? O que foi que me tornei?
Sinto-me um desgraçado. Feri seu pulso, movido por uma sede maldita. Sim seu pulso, que eu longas noites acariciei e beijei com todo o amor deste mundo. E agora vejo você ensangüentada, pálida, sem forças. Por minha causa.
Fui de tal forma controlado por essa maldição, que cheguei ao ponto de demonstrar minha rendição a meu lado monstruoso maltratando a pessoa mais importante de minha vida. Oh, minha adorada, se eu pudesse voltar no tempo, tiraria minha vida para que meu lado bestial não lhe fizesse isso.
Não achei que fosse possível, mas sinto lágrimas escorrerem por meu rosto. Ainda tenho emoções, embora não as controle. Ao contrário, sou um fantoche nas mãos de minhas paixões e vícios. E não tenho como garantir que não farei você tomar parte nesse “circo de horrores” que minha “vida” se tornou.
Minha amada, minha vontade de cuidar de você, de te proteger, foi substituída por uma vontade de te abandonar. Sim, o maior perigo para você sou eu. Ou o melhor, a monstruosidade sanguinária que me tornei.
Oh, Deus! Haverá tempo para me redimir do que fiz? Há ainda salvação para mim? Se houver, eu abro mão dela para que salves minha doce Emily. Mereço padecer, mereço o sofrimento eterno, mas minha querida não merece nada disso. Eu imploro aos céus: tripliquem meu sofrimento, mas não permitam que minha adorada Emily se transforme no que eu me transformei.
Meu Deus, ela está acordando. Ou estou delirando? Sinto minhas forças se esvaindo. O arrependimento me tirou as forças.
Atordoado, adormeço desejando mais que tudo acordar deste terrível pesadelo.

***

Não se lamente, meu senhor. Sim, sua Emily foi violentada por sua vontade. O pouco sangue que há em mim está frio, e meu corpo parece preferir assim. Até porque, pretendo ter mais sangue circulando em mim, se é que me entende.
Não, não se lamente meu senhor. É uma honra ter minha alma aprisionada por este grilhão. Meu antigo “eu” encontra-se cativo em meio a esse labirinto de sensações profanas que me invadem. Tudo que eu era foi substituído por aquilo que o senhor quis que eu me tornasse. Vejo os ferimentos em meu pulso não como um sacrifício, mas como uma honra sem par. Uma entrega que resulta na grande transformação.
Quando o senhor se levantar, terá orgulho de ver o que me tornei. E, juntos, conduziremos nossas existências por esse caminho que não mais podemos chamar de “vida”.
Vamos trilhar juntos esse caminho de sangue.   

1 Blá blá blá!:

Rogério "Monge da Dungeon" disse...

Hum. Show de bolice.

Interessante verificar que o vampiro "Galtraniano" é meio "O Médico e o Monstro" onde a transformação parece flutuar ao nível da "Sede".

Talvez a Emily irá culpa-lo quando ela matar a "própria sede"...

Flws

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