sexta-feira, 18 de maio de 2012

Por que jogo RPG? E porque o RPG que eu jogo é o “de mesa”?




Não sei se por ser jogador de RPG há algum tempo, ou por pesquisar sua aplicação em escolas, é muito comum eu estabelecer paralelos de diferentes comportamentos humanos com os que são possíveis encontrar em boa parte dos jogadores de RPG.

Parto, sobretudo do uso indiscriminado e demasiado de artefatos tecnológicos e seus derivados. Toda vez que olho ao meu redor com um olhar um pouco, apenas um pouco mais crítico, eu vejo como os mundos individuais estão distantes uns dos outros. Embora seja meio clichê, SIM, as pessoas estão realmente cada vez mais sozinhas, mesmo estando em contato com muitas pessoas a todo o momento. Para me ajudar a desenvolver esse pensamento, resgatei um trecho da minha dissertação de mestrado que trata um pouco sobre isso.

Esse uso desenfreado das novas tecnologias pode aguçar o narcisismo que há em nós e nos deixar cada vez mais solitários. O mito de Narciso conta a história de um jovem rapaz muito belo, que despertava a paixão de ninfas e donzelas. Porém, Narciso preferia viver sozinho, pois acreditava que não havia encontrado ninguém a sua altura, ninguém que merecesse seu amor. Um dia, cansado da caça, com muita sede e calor, Narciso se debruçou em um lago para poder beber água. Ficou surpreso com o que viu, admirado com a beleza da criatura que estava vendo. Mal sabia que era a sua própria imagem. Narciso apaixonara-se por sim mesmo. Toda vez que Narciso tentava tocar sua paixão a imagem sumia entre as águas e voltava depois de pouco tempo. Percebendo que não poderia tocar a imagem, Narciso ficou o resto dos seus dias debruçado na margem do lago se admirando, esquecendo de comer e de beber, e definhou até a morte.

É interessante e pertinente refletir sobre dois aspectos do mito. O primeiro deles é como Narciso viveu só para ele, desprezando as outras pessoas. No fim percebemos que Narciso buscou a vida toda um espelho. De alguma forma é isso que acontece com esse boom de tecnologias. As pessoas passam a se relacionar menos e a buscar uns aos outros apenas como espelhos. Querem se sentir belos, únicos e na busca dessa beleza acabam não percebendo que há uma sociedade a sua volta. O segundo aspecto se refere à impossibilidade do toque de Narciso. Sua paixão nunca foi completa porque ele não podia tocar o ser amado. De alguma forma isso reflete na procura cada vez maior por novos recursos tecnológicos. Para nos sentirmos os melhores, temos que ter o melhor – essa é uma das prerrogativas da sociedade em que vivemos. Logo, para ser o melhor, tenho que ter aparelhos de ponta – para completar a paixão narcísica, tenho que estender a mão e buscar o toque. Assim como no mito, a imagem se desfaz, porque assim que se compre algo de última geração, em pouco tempo já surge um modelo mais avançado. É uma busca fadada à frustração.

Computadores, celulares e os novos arsenais tecnológicos permitem romper barreiras de tempo e espaço, mas podem fazer perder a capacidade de estabelecer relações afetivas duradouras. Nunca se esteve tão sozinho mesmo em contato com tanta gente; A introspecção da solidão, as conversas a fio, por saudade, a essencialidade se transforma.

Muita gente compra e utiliza as novas tecnologias, pela possibilidade de criar uma sensação de afeto. A possibilidade de ter cada vez mais amigos é a possibilidade de se ver cada vez menos carente. A globalização e a quebra de distância possibilitam o contato com pessoas de todo o mundo. Se outrora ocorria algo em um lugar e suas conseqüências atingiam apenas aquele local, atualmente as repercussões atingem os mais diferentes contextos em todo o mundo. 

 As pessoas estão se falando cada vez mais, por meios de recursos tecnológicos como celulares e internet. Isso poderia ser bom, se não estivesse substituindo o relacionamento “olho-no-olho”. Não que esses recursos sejam os vilões, mas o uso excessivo e indiscriminado pode gerar más conseqüências.

 “O excesso de nada pode muito bem fazer um homem sentir-se mal” (HARGREAVES, 2004, p. 57).

 É possível afirmar que algumas pessoas dessa geração têm contato em apenas um dia com mais pessoas do que seus avós tiveram em um ano – talvez a vida toda. Entretanto, a qualidade da comunicação a confiança e as amizades serão as mesmas vivenciadas e tão profundas quanto as vivenciadas por seus avós?

Nesse sentido eu penso no RPG, o de mesa. Como, sem querer, sem o intuito e intenção, um jogo ou hobbie consegue agregar tantos valores em si mesmo? Não consigo pensar no RPG de mesa sem pensar em companheirismo, empatia, justiça, diálogo ou resumindo o “olho-no-olho” que tanto nos faz falta!
Penso ainda que é esse relacionamento que faz com que sonhos se tornem realidade, que faz com que meninas se transformem em princesas e meninos se tornem heróis, porque há uma crença, uma fé conjunta que isso é possível.... mas isso fica para outro texto!

2 Blá blá blá!:

Alexandre disse...

Acho que foi no começo do mês que saiu uma materia interessante no jornal aqui da cidade. A materia era especificamente sobre a tecnologia e os efeitos que ela causa nas pessoas.
Falava sobre narcisismo também e principalmente sobre as redes sociais e todas as relações superficiais que ela cria, a busca das pessoas pela imagem e tudo mais. Acho que é um tema importantissimo para se conversar e concordo plenamente, RPG é um otimo hobby de interação de verdade.

Alê RPG Cristão disse...

Muito bom o artigo, concordo com muito do que você diz, as pessoas mantêm-se conectadas nas redes sociais e tem muitos "amigos" se é que se pode chamar assim.
Mas no fundo é uma tentativa de dizer a todos "Olha como sou popular tenho 1 milhão de amigos."
A Amizade vai muito além de contatos superficiais pela internet, celular, e-mail, ou qualquer outro recurso eletrônico. Amizade envolve, contato real, o "olho no olho", afinidade, cumplicidade e amor como diz Provérbios 17:17 Em todo tempo ama o amigo e na angustia se faz irmão.
E o RPG de mesa proporciona tudo isso.

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