segunda-feira, 14 de maio de 2012

Orgulho e Preconceito Urkol



Un’mar esvaziou a carteira e recebeu em troca uma caixa de papelão com um par de calçados dentro. Um sapato masculino com assinatura de uma pessoa famosa, feito do coro de algum animal em extinção. Tão chique e pedante que só faltava recusar o seu pé.

– Isso era realmente necessário? – perguntou o urkol, sentindo com desgosto o a leveza da sua carteira. – Não tenho nem mais troco para o metrô.

– Para que andar de metrô se em breve você vai cavalgar o mundo, meu caro? – o humano de bigode fino sorriu e colocou as duas mãos nos ombros de Un’mar. – Logo terá uma coleção de breelandezes.

– Bri...?

– O modelo do sapato.

– Sapatos são só sapatos. – bufou. – E eu poderia te-los comprado depois que o dinheiro começasse a entrar no meu bolso.

– Não, não! Você está prestes a se encontrar com Don Berdinazzi! O assoalho da mansão dele não aceita aqueles horríveis sapatos de cabedal desgastado, aba ilhó costurada e biqueira rachada. Este belo Scorpione certamente ajudará a causar uma boa impressão.

– “Scorpione”? – o homem arregalou os olhos. – Não era “brilandes”?

– É o nome do estilista que o assinou. Da grife. Deuses, Un’mar! Todos vocês, urkols, são tão ignorantes quanto à moda?

O homem não pode deixar de rir daquele comentário racista. Injúrias contra a progênie dos urkols eram comuns. E diante da maioria dos insultos, muito mais severos e agressivos, aquilo soou até lisonjeiro.

– Haha, está bem, Juliano! Eu sou apenas um bronco que não sabe nem chamar os sapatos pelo nome.

– Bem, felizmente a ignorância não é uma condição perpétua. Posso lhe ensinar muito sobre moda. – o humano passou a mão nos cabelos engomados impecáveis. – Também sobre etiqueta e na maneiras à mesa. Antes do jantar irei dar uma rápida aula sobre os sete tipos diferentes de garfos que devem ser usados num banquete...

– Sete. – interrompeu o homem, tirando o chapéu e abanando-se com ele. – No meu bairro eu e meus irmãos comíamos quase tudo com as mãos.

– Urg! – o bigode de Juliano se torceu em desgosto. – Não que não existam iguarias que possam ser consumidas com as mãos sem constrangimentos, mas ainda assim...

– Para que tudo isso? Don Berdinazzi está contratando um urkol. O que mais ele poderia esperar de mim?

– Não seja tolo! Isso é o mesmo que afirmar que anões só sabem ser ferreiros e mineiros ou que elfos-das-areias só sabem ser mascates e encantadores de serpentes. Estamos numa nova era onde os preconceitos antigos estão sendo derrubados um a um, mas parece que vocês, não-humanos, fazem questão de mantê-los. Eu quero acreditar que um urkol não precisa ser necessariamente uma criatura bestial que só usa a força bruta.

– Mas sete tipos de garfos...?

– Un’mar, apenas fique quieto e faça tudo o que eu disser para você fazer e o jantar correrá de maneira sublime. – o humano passou um dedo sobre toda a extensão do seu fino bigode de lorde. – Você tem o elemento-surpresa a seu favor. Não duvido que Don Berdinazzi realmente ESTEJA esperando de você um comportamento bestial.

– Sim, elemento-surpresa. – o urkol olhou para a sua caixa de sapatos e para o nome da grife impressa nela. – Surpresa é eu estar metendo os pés num “escorpião” de livre vontade.

.......................................
Depois de uma tarde abafada a temperatura caiu drasticamente naquela noite. O vento gelado sacudia as vidraças e tentava entrar de qualquer maneira. As empregadas estavam com seus uniformes de verão e tremiam de frio enquanto carregavam tachos fumegantes.

– Tagliatelle ao molho vermelho. – anunciou o mordomo. – Espero que esteja ao seu gosto.

– Obrigado... – murmurou Un’mar, olhando para o prato como quem vê uma carnificina de minhocas inocentes e sente um profundo pesar por isto.

– ... o garfo da direita... – murmurou Juliano, que estava sentado ao seu lado.

O urkol deu três garfadas e limpou a boca com todo o estilo e sofisticação que lhe era possível. Um empregado rapidamente foi trocar seu prato por outro mas ele recusou, estava satisfeito. Não que a comida não estivesse boa, mas já era o terceiro prato de massa da noite. A culinária Giulliriana não era conhecida por suas baixas calorias.

Ele observava os outros convidados. Todos eles humanos. Alguns de alta patente dentro da família. Não eram aparentados, mas respeitavam-se como irmãos, assim como respeitavam os “irmãos mais velhos” e o “padrinho”. Do mais alto escalão estava Caetano Valentim, um Consigliere – o mais alto posto que um não-Berdinazzi poderia alcançar dentro da organização. De todos, ele era o que menos comia, constantemente erguendo os olhos acima dos óculos e encarando os membros da família. Particularmente demorava-se mais em Un’mar, e isso não poderia significar boa coisa.

– Presa. – disse Juliano.

– O quê?

– Presa... – e discretamente apontou para a boca.

– Ah. – Un’mar limpou uma mancha de molho que estava aparente em sua presa esquerda. Tapou a boca com o guardanapo e disse, de forma abafada. – Don Berdinazzi...

– Após o jantar.

– Mas ele...?

– Prefere jantar sozinho em seu quarto. Não estrague tudo, meu amigo.

O urkol deu um suspiro profundo e aceitou mais uma taça de vinho.

............................................................

Na sala de visitas o mordomo ofereceu um charuto ao urkol, que recusou polidamente. Só estavam ele, Caetano e Juliano juntos. Os três dividiam o mesmo confortável sofá, coroados por um grande quadro de Giuseppe Berdinazzi, o patriarca do clã, falecido há trinta anos. Começaram com assuntos amenos, como a chuva que estava prestes a cair naquela madrugada, até que o consigliere foi direto ao ponto:

– Juliano não perde uma oportunidade de lhe elogiar, senhor Mar.

Un’mar sorriu. Percebeu que o humano havia feito a sua lição de casa e por isso sabia que nome e sobrenome de urkols são sempre juntos.

– Certamente não me elogiou pelo meu gosto por sapatos.

– Por que não? – Caetano sorriu e olhou por baixo dos óculos. – Estou vendo que está usando um belo Scorpione.

– Escolhido por mim! – sorriu Juliano, orgulhoso.

– Foi muito elogiado pela sua força e determinação, senhor Mar. – prosseguiu Valentim. – Algo que se pode esperar de um urkol. O que me surpreendeu é que foi enaltecido pela sua inteligência e tranquilidade em agir em situações difíceis. Temos outros de você na nossa guarda pessoal, mas geralmente eles só servem para atacar, atacar, atacar. As vezes nem perdemos tempo dando revólveres para eles, uma vez que sua fúria cega nunca lhes ajuda a mirar muito bem. Um amigo meu costuma dizer: “Quer ter um armazém tomado pela concorrência de volta? Amarre um bife na frente de três urkols armados com tacos e você o terá... mas será um desperdício de bife”, hehehe!

Un’mar segurou o sorriso o máximo que pode. O consigliere pareceu desapontado em ver que ele não se alterou. Iria recomeçar a conversa, quando o mordomo anunciou:

– Don Berdinazzi está descendo.

– Ah, enfim. – Caetano foi o primeiro a se levantar. – Por favor, na parede.

– Huh? – o urkol baixou as sobrancelhas. – Mas eu já fui revistado antes de entrar na mansão. Isso não é um procedimento meio inútil?

– Procedimentos de segurança nunca são inúteis. – Caetano empurrou Un’mar com certa rispidez para a parede. Suas mãos ágeis tatearam braços, pernas e torço. Aproveitou para enfiar as mãos em todos os bolsos da calça e do paletó à procura de compartimentos secretos. Não encontrou nada e sorriu. – Muito bem. Agora você.

– Até eu? – o bigode de Juliano se entortou.

– Você é Capo. Sabe que é necessário.

– Sei... sei... – e encostou na parede para também ser revistado. Dentro da mansão apenas os membros mais íntimos da família e o consigliere podiam portar armas.

Em minutos, uma figura decrépita e carcomida entrou na sala apoiado numa bengala e no seu mordomo. Bruno Berdinazzi tinha setenta anos, mas aparentava noventa. Apressadamente Juliano o beijou na mão e Caetano fez o mesmo logo depois.

– Padrinho... – o consigliere fez uma referência, ainda segurando na mão do Don. – Este é Un’mar, um novo afilhado que deseja entrar em nossas fileiras. Ele tem provado ser um grande guerreiro e estrategista, como Capo Juliano pode confirmar...

– Urkol... bah! – o velho cuspia a cada palavra. – Não preciso de outro animal de estimação! Tenho no meu canil cães que podem abocanhar meus inimigos com muito mais facilidade que esta subespécie! Você é um verme, Valentim! Preciso de soldados, não de bestas!

– Padrinho... o senhor Mar não é uma besta...

– Tudo bem, consigliere. – Un’mar deu um passo à frente. – Eu já estou acostumado a este tipo de recepção. Nós, urkols, somos sempre vistos como monstros.

– Um triste preconceito que tentaremos extinguir. – Caetano ajeitou a gravata. – Padrinho, eu lhe ofereço um soldado que pode...

– Vá bene! Vá bene! Vocês, imbecis, fazem o que querem mesmo! – o velho esticou a mão enrugada para Un’mar. – Bem-vindo à família, animal. De fato estou até surpreso que você não tenha mordido ninguém enquanto estava aqui.

– Creio que este é o meu grande elemento-surpresa, Don Berdinazzi. – ele pegou na mão do humano e baixou o rosto até ela. – Só ser eu mesmo quando todos se esquecerem de quem eu sou.

Como um raio, o urkol ergueu a cabeça e suas presas se enterraram profundamente no pescoço magro de Berdinazzi. O sangue jorrou da artéria, enchendo a boca de Un’mar que tossiu com o excesso. Em pânico, o mordomo sacou uma arma, mas teve seu maxilar deslocado quando recebeu um soco poderoso que o levou a nocaute no mesmo instante. Caetano deu um salto para trás e sacou uma pistola.

– Monstro desgraçado!!! Filho da...!!!

Mas o tiro zuniu para o alto quando Juliano lhe chutou o braço.

– Traidor! – berrava o consigliere, ainda com a arma em punho. – Vou te furar completamente, seu... seu...!

Um mal estar súbito atingiu o homem. Sentiu-se zonzo, como se a pressão tivesse caído. Ele olhou para o braço que o capo havia chutado e viu um corte imenso que vertia sangue sem parar.

– O quê...?

– Nunca mais diga que sapatos são só sapatos, Un’mar! – o humano sorria enquanto exibia a lâmina retrátil que se projetava da biqueira do próprio calçado. – Na próxima ficarei muito ofendido!

Com mais um movimento rápido com o pé, Juliano cortou a garganta do consigliere, que praguejou mais um pouco até se afogar no próprio sangue. Rapidamente o urkol e seu comparsa fugiram da mansão usando uma saída dos fundos que só os capos conhecem. Pegaram um carro da garagem e dispararam pela estrada, provando a tempestade que já havia começado.

Un’mar guiava o carro, concentrado na sua tarefa com a força da adrenalina que só naquele momento começava a baixar, quando escutou seu amigo:

– Presa.

– Hã?

O humano apontou para a enorme mancha de sangue que ainda se exibia na boca e na presa esquerda do urkol.

– Ah, dá um tempo, Julião! – o homem limpou a boca com a manga da camisa. – Agora eu não preciso mais ser educadinho. E agora já foi, minha melhor camisa está irreparavelmente manchada. Esta sua ideia de me fazer morder o sujeito...

– Ah, era a única arma que não iam conseguir tirar de você! – Juliano deu uma risada. – Eu ia te oferecer um par dos meus sapatos especiais, mas não sei se você teria condições de usá-lo.

– Por quê? Acha que sou muito burro para usar uma arma sorrateira dessas só porque sou urkol?

– Deuses, Un’mar! Este é o problema de vocês! Não podemos falar nada que vocês já pensam que é racismo!

– E é racismo. – o urkol lambeu os beiços, terminando de provar o sangue e sorriu. – Alguns dos quais eu tenho orgulho! 

7 Blá blá blá!:

r disse...

Caraca que texto maneiro! Pela primeira vez vejo uma combinação tão inusitada de "Poderoso Chefão" com "D&D" e uma pitada de elementos de filmes americanos sobre racismo.

Show de Bola!

Rogério"Monge da Dungeon" disse...

Ops o "r" sou eu. Não saiu o nome porque deu problema no pc.

=p

Dragões do sol Negro disse...

KKKKKKK

Diego disse...

Curti...
Parece um prelúdio da cosa nostra com Vampire, se bem que o Un,mar tá mais pra D&D mesmo.
Muito bem escrito.
De fato, a Jussara arrebenta.

Dragões do sol Negro disse...

Como eu, já lhe havia dito ela escreve muito bem mesmo.

Jussara Gonzo disse...

Brigadinha, gente! *vozinha de menininha* :)

Dragões do sol Negro disse...

hahahah

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