Un’mar esvaziou a carteira e
recebeu em troca uma caixa de papelão com um par de calçados dentro. Um sapato
masculino com assinatura de uma pessoa famosa, feito do coro de algum animal em
extinção. Tão chique e pedante que só faltava recusar o seu pé.
– Isso era realmente necessário?
– perguntou o urkol, sentindo com desgosto o a leveza da sua carteira. – Não
tenho nem mais troco para o metrô.
– Para que andar de metrô se em
breve você vai cavalgar o mundo, meu caro? – o humano de bigode fino sorriu e
colocou as duas mãos nos ombros de Un’mar. – Logo terá uma coleção de
breelandezes.
– Bri...?
– O modelo do sapato.
– Sapatos são só sapatos. –
bufou. – E eu poderia te-los comprado depois que o dinheiro começasse a entrar
no meu bolso.
– Não, não! Você está prestes a
se encontrar com Don Berdinazzi! O assoalho da mansão dele não aceita aqueles
horríveis sapatos de cabedal desgastado, aba ilhó costurada e biqueira rachada.
Este belo Scorpione certamente ajudará a causar uma boa impressão.
– “Scorpione”? – o homem
arregalou os olhos. – Não era “brilandes”?
– É o nome do estilista que o
assinou. Da grife. Deuses, Un’mar! Todos vocês, urkols, são tão ignorantes
quanto à moda?
O homem não pode deixar de rir
daquele comentário racista. Injúrias contra a progênie dos urkols eram comuns.
E diante da maioria dos insultos, muito mais severos e agressivos, aquilo soou
até lisonjeiro.
– Haha, está bem, Juliano! Eu sou
apenas um bronco que não sabe nem chamar os sapatos pelo nome.
– Bem, felizmente a ignorância
não é uma condição perpétua. Posso lhe ensinar muito sobre moda. – o humano
passou a mão nos cabelos engomados impecáveis. – Também sobre etiqueta e na
maneiras à mesa. Antes do jantar irei dar uma rápida aula sobre os sete tipos
diferentes de garfos que devem ser usados num banquete...
– Sete. – interrompeu o homem,
tirando o chapéu e abanando-se com ele. – No meu bairro eu e meus irmãos comíamos
quase tudo com as mãos.
– Urg! – o bigode de Juliano se
torceu em desgosto. – Não que não existam iguarias que possam ser consumidas
com as mãos sem constrangimentos, mas ainda assim...
– Para que tudo isso? Don
Berdinazzi está contratando um urkol. O que mais ele poderia esperar de mim?
– Não seja tolo! Isso é o mesmo
que afirmar que anões só sabem ser ferreiros e mineiros ou que elfos-das-areias
só sabem ser mascates e encantadores de serpentes. Estamos numa nova era onde
os preconceitos antigos estão sendo derrubados um a um, mas parece que vocês,
não-humanos, fazem questão de mantê-los. Eu quero acreditar que um urkol não
precisa ser necessariamente uma criatura bestial que só usa a força bruta.
– Mas sete tipos de garfos...?
– Un’mar, apenas fique quieto e
faça tudo o que eu disser para você fazer e o jantar correrá de maneira
sublime. – o humano passou um dedo sobre toda a extensão do seu fino bigode de
lorde. – Você tem o elemento-surpresa a seu favor. Não duvido que Don
Berdinazzi realmente ESTEJA esperando de você um comportamento bestial.
– Sim, elemento-surpresa. – o urkol
olhou para a sua caixa de sapatos e para o nome da grife impressa nela. –
Surpresa é eu estar metendo os pés num “escorpião” de livre vontade.
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Depois de uma tarde abafada a
temperatura caiu drasticamente naquela noite. O vento gelado sacudia as
vidraças e tentava entrar de qualquer maneira. As empregadas estavam com seus
uniformes de verão e tremiam de frio enquanto carregavam tachos fumegantes.
– Tagliatelle ao molho vermelho. –
anunciou o mordomo. – Espero que esteja ao seu gosto.
– Obrigado... – murmurou Un’mar,
olhando para o prato como quem vê uma carnificina de minhocas inocentes e sente
um profundo pesar por isto.
– ... o garfo da direita... –
murmurou Juliano, que estava sentado ao seu lado.
O urkol deu três garfadas e limpou
a boca com todo o estilo e sofisticação que lhe era possível. Um empregado
rapidamente foi trocar seu prato por outro mas ele recusou, estava satisfeito. Não
que a comida não estivesse boa, mas já era o terceiro prato de massa da noite. A
culinária Giulliriana não era conhecida por suas baixas calorias.
Ele observava os outros
convidados. Todos eles humanos. Alguns de alta patente dentro da família. Não
eram aparentados, mas respeitavam-se como irmãos, assim como respeitavam os “irmãos
mais velhos” e o “padrinho”. Do mais alto escalão estava Caetano Valentim, um
Consigliere – o mais alto posto que um não-Berdinazzi poderia alcançar dentro
da organização. De todos, ele era o que menos comia, constantemente erguendo os
olhos acima dos óculos e encarando os membros da família. Particularmente
demorava-se mais em Un’mar, e isso não poderia significar boa coisa.
– Presa. – disse Juliano.
– O quê?
– Presa... – e discretamente
apontou para a boca.
– Ah. – Un’mar limpou uma mancha
de molho que estava aparente em sua presa esquerda. Tapou a boca com o guardanapo
e disse, de forma abafada. – Don Berdinazzi...
– Após o jantar.
– Mas ele...?
– Prefere jantar sozinho em seu
quarto. Não estrague tudo, meu amigo.
O urkol deu um suspiro profundo e
aceitou mais uma taça de vinho.
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Na sala de visitas o mordomo
ofereceu um charuto ao urkol, que recusou polidamente. Só estavam ele, Caetano
e Juliano juntos. Os três dividiam o mesmo confortável sofá, coroados por um
grande quadro de Giuseppe Berdinazzi, o patriarca do clã, falecido há trinta
anos. Começaram com assuntos amenos, como a chuva que estava prestes a cair
naquela madrugada, até que o consigliere foi direto ao ponto:
– Juliano não perde uma
oportunidade de lhe elogiar, senhor Mar.
Un’mar sorriu. Percebeu que o
humano havia feito a sua lição de casa e por isso sabia que nome e sobrenome de
urkols são sempre juntos.
– Certamente não me elogiou pelo
meu gosto por sapatos.
– Por que não? – Caetano sorriu e
olhou por baixo dos óculos. – Estou vendo que está usando um belo Scorpione.
– Escolhido por mim! – sorriu Juliano,
orgulhoso.
– Foi muito elogiado pela sua
força e determinação, senhor Mar. – prosseguiu Valentim. – Algo que se pode
esperar de um urkol. O que me surpreendeu é que foi enaltecido pela sua
inteligência e tranquilidade em agir em situações difíceis. Temos outros de
você na nossa guarda pessoal, mas geralmente eles só servem para atacar,
atacar, atacar. As vezes nem perdemos tempo dando revólveres para eles, uma vez
que sua fúria cega nunca lhes ajuda a mirar muito bem. Um amigo meu costuma
dizer: “Quer ter um armazém tomado pela concorrência de volta? Amarre um bife
na frente de três urkols armados com tacos e você o terá... mas será um
desperdício de bife”, hehehe!
Un’mar segurou o sorriso o máximo
que pode. O consigliere pareceu desapontado em ver que ele não se alterou. Iria
recomeçar a conversa, quando o mordomo anunciou:
– Don Berdinazzi está descendo.
– Ah, enfim. – Caetano foi o
primeiro a se levantar. – Por favor, na parede.
– Huh? – o urkol baixou as
sobrancelhas. – Mas eu já fui revistado antes de entrar na mansão. Isso não é
um procedimento meio inútil?
– Procedimentos de segurança
nunca são inúteis. – Caetano empurrou Un’mar com certa rispidez para a parede.
Suas mãos ágeis tatearam braços, pernas e torço. Aproveitou para enfiar as mãos
em todos os bolsos da calça e do paletó à procura de compartimentos secretos.
Não encontrou nada e sorriu. – Muito bem. Agora você.
– Até eu? – o bigode de Juliano
se entortou.
– Você é Capo. Sabe que é
necessário.
– Sei... sei... – e encostou na
parede para também ser revistado. Dentro da mansão apenas os membros mais
íntimos da família e o consigliere podiam portar armas.
Em minutos, uma figura decrépita
e carcomida entrou na sala apoiado numa bengala e no seu mordomo. Bruno
Berdinazzi tinha setenta anos, mas aparentava noventa. Apressadamente Juliano o
beijou na mão e Caetano fez o mesmo logo depois.
– Padrinho... – o consigliere fez
uma referência, ainda segurando na mão do Don. – Este é Un’mar, um novo
afilhado que deseja entrar em nossas fileiras. Ele tem provado ser um grande
guerreiro e estrategista, como Capo Juliano pode confirmar...
– Urkol... bah! – o velho cuspia
a cada palavra. – Não preciso de outro animal de estimação! Tenho no meu canil
cães que podem abocanhar meus inimigos com muito mais facilidade que esta
subespécie! Você é um verme, Valentim! Preciso de soldados, não de bestas!
– Padrinho... o senhor Mar não é
uma besta...
– Tudo bem, consigliere. – Un’mar
deu um passo à frente. – Eu já estou acostumado a este tipo de recepção. Nós,
urkols, somos sempre vistos como monstros.
– Um triste preconceito que
tentaremos extinguir. – Caetano ajeitou a gravata. – Padrinho, eu lhe ofereço
um soldado que pode...
– Vá bene! Vá bene! Vocês,
imbecis, fazem o que querem mesmo! – o velho esticou a mão enrugada para Un’mar.
– Bem-vindo à família, animal. De fato estou até surpreso que você não tenha
mordido ninguém enquanto estava aqui.
– Creio que este é o meu grande
elemento-surpresa, Don Berdinazzi. – ele pegou na mão do humano e baixou o
rosto até ela. – Só ser eu mesmo quando todos se esquecerem de quem eu sou.
Como um raio, o urkol ergueu a
cabeça e suas presas se enterraram profundamente no pescoço magro de
Berdinazzi. O sangue jorrou da artéria, enchendo a boca de Un’mar que tossiu
com o excesso. Em pânico, o mordomo sacou uma arma, mas teve seu maxilar
deslocado quando recebeu um soco poderoso que o levou a nocaute no mesmo
instante. Caetano deu um salto para trás e sacou uma pistola.
– Monstro desgraçado!!! Filho
da...!!!
Mas o tiro zuniu para o alto
quando Juliano lhe chutou o braço.
– Traidor! – berrava o
consigliere, ainda com a arma em punho. – Vou te furar completamente, seu...
seu...!
Um mal estar súbito atingiu o homem. Sentiu-se zonzo, como se a pressão tivesse caído. Ele olhou para o braço que o capo havia chutado e viu um corte imenso que vertia sangue sem parar.
– O quê...?
– Nunca mais diga que sapatos são
só sapatos, Un’mar! – o humano sorria enquanto exibia a lâmina retrátil que se
projetava da biqueira do próprio calçado. – Na próxima ficarei muito ofendido!
Com mais um movimento rápido com
o pé, Juliano cortou a garganta do consigliere, que praguejou mais um pouco até
se afogar no próprio sangue. Rapidamente o urkol e seu comparsa fugiram da
mansão usando uma saída dos fundos que só os capos conhecem. Pegaram um carro
da garagem e dispararam pela estrada, provando a tempestade que já havia
começado.
Un’mar guiava o carro,
concentrado na sua tarefa com a força da adrenalina que só naquele momento
começava a baixar, quando escutou seu amigo:
– Presa.
– Hã?
O humano apontou para a enorme
mancha de sangue que ainda se exibia na boca e na presa esquerda do urkol.
– Ah, dá um tempo, Julião! – o homem
limpou a boca com a manga da camisa. – Agora eu não preciso mais ser
educadinho. E agora já foi, minha melhor camisa está irreparavelmente manchada.
Esta sua ideia de me fazer morder o sujeito...
– Ah, era a única arma que não
iam conseguir tirar de você! – Juliano deu uma risada. – Eu ia te oferecer um
par dos meus sapatos especiais, mas não sei se você teria condições de usá-lo.
– Por quê? Acha que sou muito
burro para usar uma arma sorrateira dessas só porque sou urkol?
– Deuses, Un’mar! Este é o
problema de vocês! Não podemos falar nada que vocês já pensam que é racismo!
– E é racismo. – o urkol lambeu
os beiços, terminando de provar o sangue e sorriu. – Alguns dos quais eu tenho
orgulho!
Jussara Gonzo - http://punhadodecontos.wordpress.com/



18:42

Posted in: 
7 Blá blá blá!:
Caraca que texto maneiro! Pela primeira vez vejo uma combinação tão inusitada de "Poderoso Chefão" com "D&D" e uma pitada de elementos de filmes americanos sobre racismo.
Show de Bola!
Ops o "r" sou eu. Não saiu o nome porque deu problema no pc.
=p
KKKKKKK
Curti...
Parece um prelúdio da cosa nostra com Vampire, se bem que o Un,mar tá mais pra D&D mesmo.
Muito bem escrito.
De fato, a Jussara arrebenta.
Como eu, já lhe havia dito ela escreve muito bem mesmo.
Brigadinha, gente! *vozinha de menininha* :)
hahahah
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