quarta-feira, 9 de maio de 2012

Livro de Maudi - Projeto Tagmar2


O conto abaixo, de autoria de Marcelo Rodrigues, Ygor Moraes Esteves da Silva, Julio Augusto Cezar Junior, Leonardo Nahoum Pache de Faria,  narra um dos momentos mais críticos da história de Tagmar, quando os demonistas estiveram bem próximos de vencer a guerra e a esperança esmaecia lentamente a cada homem que tombava diante as turbas de demonistas bankids e os frutos de suas invocações profanas.

Este conto narra como um pequeno e destemido grupo, que mesmo cercados de demonistas tomam uma atitude desesperada, sacrificando suas vidas para darem esperança ao mundo. É um conto que demonstra todo o poder e terror dos diabolistas e como eles massacravam populações inteiras em nome de seus senhores infernais. Mas também é um conto que evoca a coragem e a determinação, e explica o surgimento d`O Mais Sábio, aquele que surgiu para dar esperança aos mortais....

Extratos do "Livro de Maudi”
(da cópia existente nos arquivos dos sacerdotes de Palier em Saravossa, Calco).

"No começo, na primeira pérola do cordão de existência, havia apenas as cores do caos e da energia bruta, seguindo a infinitude do para sempre, que era aquela primeira esfera, onde as luas contavam se como todas e como nenhuma".

Ouvíamos aquelas palavras pela terceira vez desde a fuga do acampamento bankdi   os mesmos versos imutáveis, iguais tons de voz e ênfase, que acrescentavam a todo aquele inferno, labaredas e labaredas.

Puxei a bata do velho pela segunda vez, o som da voz treme e pára finalmente, quando o corpo ferido e trespassado por flechas negras despenca sobre meus braços doloridos. Arrasto o para longe das janelas, onde ele diz ver multidões de seus fiéis. Pobre e senil criatura! As setas zunem sem complacência nos ouvidos, varando a janela e aterrissando alquebradas entre nossos pés. Aldrabar percorre o chão de escombros da torre em busca de projéteis perfeitos. Temo que nossas aljavas não bastem para toda a fuga...

  Uma massa vindo do sul!!!   o som vem dos andares superiores. O mago Petas nos grita dependurado da janela mais alta   Os Bankdis convocaram suas legiões de demônios!   se solta com uma respiração curta, perfazendo cambalhotas e aterrissando entre vagas de escombros e flechas partidas   A Frente está a duzentos uktos daqui, mas os batedores já se encontram bem à frente.   Ergue se o corpo magro e com ele as vozes - Escondam vos que um encanto se faz preciso!!!

Aldrabar se junta ao chão, o rosto fino comendo a poeira secular, e continua a afastar o lixo e as coisas quebradas, revelando mais flechas e desenhos estranhos no chão. Puxo o velho pela manga suja e nos coloco em proteção. Quando Petas inicia o encanto, fluidos místicos percorrem o salão, anunciando a força que virá. A voz imutável desperta novamente.

“Mas houve o fim da primeira pérola, e com ele, a separação de caos e energia. Eram formados os reinos inferiores e os materiais, e em pouco tempo a sapiência manifestou-se em ambos”.

“As emanações do caos indômito, destruidor, deram origem aos seres infernais, Demônio, contemporâneos dos igualmente temidos Titãs, oriundos da consciência e emanações das forças elementais existentes nos reinos da matéria. Os seres titânicos eram treze, e chamavam a si mesmos de Treva, Luz, Água, Terra, Fogo, Ar, Crônus, Crio, Ânimus, Étere, Maná, Entropia e Gênese”.

O ancião se cala de repente, e então, as forças do encanto de Petas atingem seu nível máximo. O vento rodopia pela Torre, vai desenhando poeira sobre nossos olhos sofridos, urrando profanações. Sentimos todos um frio brusco, quando o encanto parte em direção ao inimigo, cavalgando luz de ossos e fogos fátuos. Um frio de morte e de negrura. De magia...

  Negra...   meus olhos se esbugalham e eu corro para Petas, tentando fazer com que inverta o encanto   Você está usando magia negra! Estamos em missão sagrada, você não deve...

Minhas pernas enrijecem e minha corrida pára. Malditos fazedores de milagres... Petas me transforma em uma meia estátua e eu posso apenas respirar. O céu lá fora escurece e o ar assobia palavras malditas. As flechas que entram pela janela agora se cravam nas paredes e exalam cheiros podres. Veneno bankdi.

  O que está... maldição, Petas! A torre está tremendo!!! Aldrabar grita como se tivesse três pulmões. Petas abandona a posição conjuratória e me liberta da paralisia.

  Está feito!  sua voz nunca esteve tão consumida   Metade dos demônios e hordas foi banida. Mandei os para os níveis mais inferiores do Caos Infernal.

  Idiota...   minha voz tentava controlar a raiva ardente   Sabe que estamos escoltando um homem santo. Quer trazer a ira de seu deus sobre as nossas cabeças, é isso que quer? Você e essa magia podre?
  Você sabe que não temos escolha!!!   A voz, a garganta, os pulmões, tudo parecia fraco. Um fio de sangue escorria dos ouvidos do mago   A seita Bankdi é muito mais do que pensamos que fosse quando aceitamos o trabalho. Há!   esfregou as mãos nas têmporas e orelhas e ficou um pouco a rir para os dedos vermelhos   Nos disseram "um pequeno grupo de fanáticos que quer erradicar com todas as religiões mais antigas", "uma meia dúzia de dois", "poder nenhum..."   cuspiu para o lado. O sangramento aumenta.   Li a mente de um deles quando estava lá no alto, na janela. A Moldânia Superior já não conhece mais os antigos ritos. Todos os cultos derivados da história antiga estão esquecidos. Malim   apontou o velho   é um homem santo, sim. O último que vive, representante da adoração ancestral. E nós estamos carregando o por planícies de demônios e venenos, de forças que podem nos esmagar!

Calou nesse ponto e eu também não disse nada. Petas tinha toda a razão. Carregávamos a história do mundo conosco, de um mundo que queria esquecer essa história.

“Depois de pérolas e mais pérolas de infinito horizonte, mudanças vieram: a descendência dos Titãs deu Deuses ao Universo, que teimaram em se unir às criaturas dos reinos baixos, dando origem aos Titãs-segundos. Houve nessa época a Primeira Discórdia, quando Deuses e Titãs-segundos juntaram forças contra seus criadores, instáveis e catastróficas demais. Foi o início da Lei”.

Malim falou essas palavras e caiu para o lado, como que adormecido, e no ar ficara o peso das palavras. Pensei em quanta coisa podia se perder, com a morte daquele homem.
Aldrabar interrompeu pensamentos com gritos irracionais.

  Na janela!!! Bankdis na janela!!!

Em poucos instantes eles eram muitos e pareciam vir em hordas, escalando os muros altos da torre e se arremessando da janela sobre nós. Minha espada refletiu meus dentes secos e corpos bankdi começaram a ganhar o chão.

  Petas, a janela! Você tem que tentar fechar a janela!   alternava inspirações e golpes decepadores. Belador cintilava azul pungente, excitada, enquanto cortava carne inimiga como se não precisasse de meu braço . Aldrabar refugiava se com o velho atrás de uma pilastra caída, retomando as setas recolhidas aos seus antigos donos.

  Lá vai!   o aviso chega atrasado e meu corpo quase chega a ir com o vento que se forma. Grandes escombros levantam se do chão da torre e vão se amontoar na janela agora vermelha, a enorme profusão de membros partidos que vão ficar ali para sempre.

O vento cessa, e eu conto cinco golpes e duas flechas antes que o salão esteja livre de vida inimiga. Petas cambaleia por entre os corpos.

  A barreira não vai... agüentar muito!   esforço, mais sangue, ouvidos vermelhos - Meu Deus! Tanto vermelho não!!!   Temos que... dar um jeito de sair!   seguro o pelo ombro, deixo o sentado enquanto averiguo Aldrabar e o velho.

A torre, então, treme de novo, cascalhos caem do teto e das rochas presas à janela. Petas chora, tudo parece mais negro.

Aldrabar grita.

  Um alçapão!   vejo o revirar mais poeira   Maudi, venha, cá! Tem um alçapão aqui, rapaz!Atravesso o salão tentando não notar o chão trêmulo, o medo incipiente, os cadáveres que parecem chamar reforços. Colocamos pesos e pesos de madeira e destroços de lado, e a esperança parece reacender nos olhos quando vislumbramos a tal porta no chão. Petas se aproxima quase a se arrastar.

- É... uma saída, mesmo?


- Não sabemos ainda.   forço o grande puxador de metal para cima.   Aldrabar, me ajude aqui.

Puxamos e puxamos até quase o corpo estalar, o ferro gemendo e resistindo mais que os músculos, até que a vontade e o desespero tomam frente e o portal cede, caindo de lado e revelando as entranhas da terra para nós, um túnel rochoso que se estende indefinidamente a partir de alguns poucos degraus que servem de entrada. Sinto gelo na alma, no corpo. O ar que me bafeja o rosto é antigo, milenar, talvez nunca respirado, e eu sinto arrepios ao pensar em maldições e lugares que não se deve nunca, NUNCA, profanar. Recuei.

- Não podemos ter medo, Maudi. Não podemos.   Petas passa por mim cambaleante, vencendo os primeiros degraus em direção ao inferno escuro e desconhecido. Aldrabar carrega Malin e repete os mesmos passos de coragem.

E eu... eu. Por todos os Deuses, tudo o que posso fazer eu faço. E os sigo.

  Vocês... abaixem a cabeça.   Petas fala a Aldrabar e Malin. Alcanço o alçapão com as mãos e retorno ao seu lugar, acabando com a única luz que possuíamos. Petas dirige se a mim, agora.

  Você também, Maudi.   tosse rouca, sente respingos quentes no pescoço. Visco, pode apostar, vermelho.   Vou selar o alçapão com magia e disfarçá lo o melhor possível. Mas teremos de nos mover depressa. Com esse encanto feito, o da janela será automaticamente desfeito. É a ordem das malditas coisas.
Encolhi me junto à parede úmida, cheirando o musgo como se fosse pele de mulher. Refreei vômitos. Petas sussurra "Agora!" e o alçapão parece tentar se amassar sobre nós. Eles terão que cavar ao redor para nos pegar.

  Vamos... rápido!   o barulho das pedras chega até nós, caindo sobre o salão da janela com um ribombar que lembra as piores tempestades. Os gritos animalescos de demônios e coisas piores gelam o ar e a alma. Somos puro medo.

Avançamos durante mais tempo que consigo lembrar. Malim parece ausente. Recomeça a falar como se estivesse numa grande praça tranqüila.

“Alguns dos Titãs fugiram, então, para além da Lei e do Caos, formando os Reinos Elementais de Aqua, Terra, Fogo e Ar, tendo Étere a ocupar o vazio entre eles.
Outros, em sua tentativa de fuga, juntaram se ao novo Universo material. Este foi o destino de Ânimus, Maná, Entropia, Crio e Crônus. Poucos foram, ainda, capturados e subjugados: Treva e Luz eram eles.
De Gênese, nada se sabe; nem verdades nem lendas. Os Deuses instalaram-se nos reinos materiais, criando leis em meio ao caos. Dos Titãs segundos, sabe se apenas que vagam pelas dimensões, percorrendo todas as pérolas do Mundo sem motivo que nos seja permitido saber”.

A terra então principiou a cair sobre nós. Era chuva barrenta, bocados caíam aos montes, como se criaturas enfiassem garras por cima de nós, na tentativa de nos tirar a vida. Petas parou, fazendo com que ficássemos todos juntos, um bolo de carne medrosa, esperançosa de uma morte rápida.

  Amigos... a morte se aproxima.   Petas não falava nem baixo nem com cuidado. Como se já não houvesse mais necessidade de fugas e esconderijos. - Não espero que acreditem no que vou dizer, nem que atendam meu pedido.   o teto caía em profusão, rochas, musgo, raízes de árvores perdidas em uma terra qualquer que não podíamos ver. O medo caminhava maior. Posso sentir a presença do Mal sobre nós, posso contá lo em mais de dois mil inimigos. 

Não há fuga possível, não como tentamos fazer agora.   pareceu falar mais alto   Escutem!


Só temos chance na magia antiga, na magia ancestral que nem mesmo os mais poderosos magos se atrevem a usar. Meu corpo gelava e eu cuspia terra e queria sair dali. Mas o Mal era quase visível, a morte nos acompanhava mais de perto a cada respiração. Nós três, Petas, eu e Aldrabar fizemos apenas silêncio durante aquele pouco tempo que intercalou tais propostas desesperadas. Era uma concordância. Tentaríamos o que quer que fosse para nos tirar dali   Você será o recipiente do encanto, Maudi. Tem o único corpo resistente o suficiente para agüentar a... magia.

  Não entendo...

  Sairemos todos daqui Aldrabar, mas só em espírito. Seremos quatro almas a ocupar o corpo de Maudi. Nossas carcaças serão abandonadas aqui enquanto a magia transportará um único corpo através das dimensões até um lugar seguro, focalizou a voz   Pode ser a sua casa, Maudi.

Não respondi. Nem mesmo poderia. Era um absurdo enorme tudo aquilo. E ao mesmo tempo, estávamos numa posição em que acreditaríamos até nas palavras de cachorros. Falei "sim". Aldrabar gemeu tão alto que ouvimos ecos vezes e vezes.

  É a nossa única chance! – Petas tremia sua voz.   Juntem as mãos!!!   ele gritava, sobrepondo se aos outros gritos que agora enchiam o túnel por detrás de nós e que pareciam avançar; sem parar, dentes trincados, garras, sedentos.

Os demônios precipitaram se sobre nós mesmo perto das últimas conjurações. O mundo já era uma visão quádrupla, quatro corpos, quatro mentes, e pude sentir quando as garras penetraram nos corpos quase vazios, momentos antes de partirmos na caravela de carne que antes foi o corpo de um homem chamado Maudi.

Não... devo manter me separado enquanto escrevo esses passados. Devo ser Maudi, pelo menos enquanto traço essa história desconhecida de meu povo, a Verdade que deve um dia ser dita. Já se vão cinqüenta anos na esteira do tempo, desde os acontecimentos que narrei nestas folhas amareladas. A seita Bankdi já praticamente não existe mais, e as pessoas do mundo material seguem um Deus humano, reverenciável por ser sábio, mais sábio do que algum homem alguma vez já foi. Devo encerrar por enquanto esses escritos, retomar a eles quando outras coisas aflorarem e tiverem por direito de serem expurgadas, imortalizadas em papel para a história um dia poder ser dita, inteira e em sua total verdade. Por enquanto, urge que o mundo desfrute de uma paz que só um homem incomum poderia conquistar.

Um homem que é quatro... e UM.
Maudi, Aldrabar, Petas e Malim.
UM.


2 Blá blá blá!:

Rogério"Monge da Dungeon" disse...

Excelente o conto destes quatro...





...que são um!

Dragões do sol Negro disse...

Tbm achei bom d+

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