sexta-feira, 13 de abril de 2012

Semântica


– E quando eu falar “Kazadah” vocês responderão “Bhoro kaza”!
Aliana deu um suspiro resiliente. Como se não bastasse o horrendo cheiro de suor que emanava dos soldados, as botas desconfortáveis de metal e o enorme peso do machado que entortava suas costas, ela ainda tinha que prestar atenção em comandos em Ardwka, o ancestral idioma dos anões – oficial e obrigatório em Ardehennas, a cordilheira-natal dos filhos da montanha.
– Vocês me chamarão de “Thas”, não se esqueçam! – o anão vestido em armadura completa andava por entre as várias fileiras de soldados. Um machado quase maior do que ele estava pendurado em suas costas. – Thas! Thas Vathrur, para ficar menos informal. É como são chamados os generais em Ardehennas.
Mas eles não estavam em Ardehennas, estavam em Bazaduh, uma comuna anã dentro do reino de Erion, o maior território de domínio humano no mundo. Havia acabado de ser oficializado como região independente e de morada exclusiva para os anões chamados “superficiais” retornarem o seu contato com a Pedra (cuja letra maiúscula não era força de expressão).
– Vocês serão meus “Latru”, meus soldados. – o anão parou um instante e estalou o pescoço com dificuldade. Era difícil mexer a cabeça com aquela armadura de gorjal inflexível. – Não quero ouvir cumprimentos descerimoniosos, como “colega” ou “mano”, entre vocês, entenderam? Devem chamar a si mesmo e aos seus de Latru. Ao rei de Ardehennas, que está longe de nós, “Bathuska” e ao regente da nossa comuna devemos chamar “Bathi”.
– ... e à você de “cuzão”... – Aliana ouviu alguém sussurrar perto dela.
– Agora quero esta fileira e esta aqui cuidando da limpeza dos quartos. – prosseguiu o Thas. – Esta daqui e esta podem ir para a ferraria. E o restante, guardem seus machados e peguem as picaretas, precisamos de dez sacas de minério até a hora do almoço.
Se tinha algo que Aliana detestava mais do que ficar horas em pé numa armadura desconfortável e com um machado enorme pendurado nas costas era ter que ir para as minas. Fazia parte do treinamento de todo soldado (perdão, “latru”) saber um mínimo de forja e mineração. Muito se falava sobre como os anões ganhavam músculos depressa quebrando pedra todos os dias. Mas até aquele momento a única coisa que a jovem guerreira havia ganhado eram calos e escoriações.
– Dez sacas... – murmurou um rapaz em tom infeliz. – De que tamanho?
– Provavelmente maiores que o saco dele. – disse outro. – As bolas devem ficar menores a cada dia, rodeadas por todo aquele ferro que ele tem na virilha.
– Ah, é por isso que ele geme tanto quando vai sentar?
– Não. Isso aí são as hemorróidas. – sorriu um terceiro. – Em ardwka chamam-se “Tiputus” cuja tradução literal é “sentar no formigueiro”.
Risadinhas suaves eclodiram, mas Aliana não sorriu. A maldita bota de metal estava lhe apertando o dedinho e seu dia não ia ficar melhor do que aquilo tão cedo. Estóica, entrou na fila para pegar sua picareta e se dirigiu até a área de mineração. Era o seu dever. E se existe algo que anões costumam fazer bem são deveres.
Bazaduh era uma comuna jovem e pequena, com não mais de um ano de fundação e três mil habitantes. Quase todos os anões do reino de Erion se mudaram para lá depois que ela foi inaugurada e só não havia mais pessoas por falta de espaço. Aos poucos novos túneis e casas de pedra eram construídos no subterrâneo, mas isto era um processo demorado, embora urgente. Por este motivo a recém-formada guarda da comuna gastava mais tempo quebrando pedras do que lutando.
– O mestre de armas devia nos ensinar a lutar com picaretas. – disse um anão que estava trabalhando perto de Aliana. – Passamos mais tempo com elas na mão do que com machados. Alias, já que não usamos aquelas merdas, por que temos que carregá-las o tempo todo? Prefiro muito mais lutar com uma faca, pelo menos são mais leves. Não acha?
A jovem anã apenas sorriu com o canto da boca e voltou ao trabalho. Ela reconheceu o rapaz que estava tentando puxar papo com ela: Garad. Preso por arruaça no mínimo três vezes na época em que ainda vivia na superfície. Era fácil reconhecê-lo porque ele era um dos poucos anões adultos que não usava barba, apenas um cavanhaque sem bigode. Os dois moravam na mesma vila desde crianças e não se viam há muito tempo. A vinda até a comuna havia feito vários anões se reencontrarem. A garota tinha quase certeza que era a voz dele que havia chamado o thas de cuzão naquela hora. Companhia certa para quem quer confusão.
– Lembro-me de você. Seu nome é Alinara, não é?
– Aliana. – a moça disse, sem se virar.
– Isso! – o rapaz quebrou uma pedrona com gosto ao se lembrar do nome. – Estou vendo que sua família foi alocada como Casta Guerreira, assim como a minha. Hah! Se tivéssemos nos transformado em Casta Mineira teria sido melhor, pelo menos não precisaríamos ficar andando com os malditos machados nas costas. – ele girou os ombros, estalando os ossos. – Meu nome é Garad, a gente estudou junto, lembra?
O som das pedras sendo trituradas era constante.
– Você não é de falar muito, não é? – o rapaz suspirou.
– O thas não gosta que a gente converse no trabalho.
– Conversar é proibido por quê? Não estamos trabalhando e falando ao mesmo tempo?
Aliana não respondeu e voltou a se concentrar em meter a picareta na rocha. Desapontado, Garad se afastou e foi quebrar pedras em outro lugar. Mas a moça não ficou em paz. Logo outro anão tomou o lugar do rapaz desbarbado.
– Esse Garad ainda vai se meter em encrenca. – disse o anão típico, de barba comprida e jeito bruto, quebrando as pedras com força exagerada como se estivesse tentando provar alguma coisa.
A moça teve a impressão que também o conhecia. E quando ele disse seu nome ela teve certeza.
– Balur, lembra-se? – o anão sorriu e a moça sorriu de volta por educação. Lembrava-se muito bem daquele anão ruivo, principalmente do odor de queijo podre que ele exalava desde que eram crianças. – Meu pai era ferreiro na Vila da Temperança e o pai de Garad trabalhava para ele como curtidor. Desde aquela época não gosto desse espertinho. – o anão cuspiu, deixando a saliva pendendo da barba como se fosse uma coisa bonita de se ver. – Vive sussurrando coisas pouco louváveis sobre o nosso thas durante a revista das tropas. Os rapazes que ouvem acabam rindo e podem se dar mal por isto.
Assim como antes, Aliana não respondeu.
– Encontre-me na armoraria depois do almoço. Eu e alguns rapazes estamos planejando pregar uma peça em Garad para ele parar de por as asinhas de fora.
Asas era tudo o que Aliana queria ter para sair daquele buraco. Sem prestar atenção, a moça escutou os sussurros confusos do colega (opa, “latru”) que parecia se deliciar em descrever como ele e outros da mesma brigada iriam punir Garad e sua insolência contra o amado e respeitado thas. Soava meio como vingança e, conhecendo bem a natureza masculina, a garota tinha certeza que havia chifre na história. Estava na moda entre as mulheres anãs preferirem parceiros que tinham barbas curtas ou ausentes.
Ela poderia colaborar com aquela vingança, ou poderia avisar Garad da arapuca em que ia cair. Não fez nem uma coisa nem outra. Ambas estavam fora da sua lista de obrigações.
No dia seguinte vestiu sua armadura desconfortável, colocou uma palmilha de palha dentro da bota para amortecer a dor no dedinho e foi para o pátio central exercitar-se na companhia dos outros latru. Na hora de se enfileirar ficou o mais próximo possível das outras poucas mulheres da tropa, elas fediam menos.
Rodou o pescoço o máximo que o duro gorjal permitia e não viu nem Garad nem Balur. Teve um vislumbre da onde os dois provavelmente deveriam estar quando viu o thas chegar com uma expressão mais feia e irritada que o normal.
– Kazadah! – gritou o homem.
– Bhoro kaza! – responderam os latru em uníssono.
– Antes de começarmos com as ordens do dia, devo avisar de um acontecimento extremamente desagradável que aconteceu ontem à noite. – a voz do thas tinha o tom calmo de quem está louco para estrangular alguém. – Cinco de vocês foram pegos na armoraria roubando equipamentos. Devo lembrar à todos que roubo é um crime geralmente leve ou mediano em terras humanas, aonde todos vocês viviam até o ano passado. Mas sob a lei dos anões é um dos mais graves! Principalmente quando não se trata de roubar um indivíduo, mas sim toda a comuna! Os equipamentos dos latru de Bazaduh são para sevir à todos, portanto este roubo feriu todos nós! – o anão fez uma pausa e empunhou o machado em tom ameaçador. – Nunca mais nem pensem em fazer isto! Dos cinco criminosos dois foram mortos e os outros três estão nas celas. Latru como vocês! Uma vergonha para todos nós! Portanto hoje à noite eles receberão a punição pelas nossas mãos!
Palavras como “linchamento” (e seu equivalente na língua dos anões, “Glarwdunn”) ecoavam por entre os presentes. Todos pareciam felizes em saber que iriam matar pela primeira vez desde que se alistaram nas tropas. Aliana estava perdida em seus pensamentos, pensando se Garad e Balur estavam entre os vivos e se “latru” era uma palavra plural ou singular.
Depois de quebrar mais algumas pedras naquela manhã, ela teve permissão para ver os prisioneiros. Os três estavam em celas separadas. Em uma delas estava Balur, com o peito e cabeça enfaixados com ataduras brancas manchadas de vermelho, combinando com seus cabelos ruivos. Na outra havia um anão que ela não conhecia e, na terceira, estava Garad. O rapaz era o menos ferido e foi o primeiro a reagir ao ver a moça.
– Alinara! – ele exclamou, agarrando-se às barras. – Graças aos deuses você está aqui!
– Aliana. – corrigiu a moça. – E os anões veneram os ancestrais, não os deuses.
– Oh. Desculpe. – o rapaz baixou a cabeça e pigarreou, reformulando a frase. – Aliana, graças aos ancestrais você está aqui! Eu preciso de ajuda. Estes... – ele se virou para os outros dois na cela. – Estes canalhas fizeram uma armadilha para mim! Queriam em incriminar de estar roubando a armoraria e me matar por isto!
– E você estava roubando! – gritou Balur, apoiando-se nas barras da cela com dificuldade. – Estava... roubando! Tinha uma arma com você... ilegal! Seu criminoso! Matou os outros dois...
– Eu apenas me defendi, seu queijo fedorento ambulante!
– ... criminoso... ladrão... ladrão de mulher...!
– Corno! Fica quieto aí! – o rapaz se virou para a anã. – Por favor, Aliana! Sou inocente! E você sabe disso! Tenho quase certeza que este merda deve ter soltado alguma informação sobre esta arapuca, pois eu o vi conversando com você ontem pela manhã. Ele disse algo, não disse? Você tem que testemunhar a meu favor e me tirar daqui!
– Por que eu faria isso?
A impassividade cortante da voz da moça o atordoou.
– Hã? Como assim? Por que você não me ajudaria?
– O que eu ganho com isto?
O rosto da rapaz ficou corado.
–Pfff, é bom ter amigos nestas horas! – rosnou Garad. – Quando a gente tá por baixo vocês aproveitam e limpam os pés! Está bem, colega...
– Latru. – disse a moça.
– Tá... latru, que seja! Diga o seu preço e me ajude a sair daqui!
...................................................................
Bazaduh possui uma longa fila de espera de anões honrados e trabalhadores que querem deixar de ser “superficiais” e voltar a ter contato com a Pedra. E foi com muita alegria que as sete novas vagas foram recebidas por quem esperava esta chance.
Balur foi linchado pelos outros latru. Seu comparsa, ao confessar, recebeu uma morte rápida. Aliana e Garad foram expulsos da comuna. Penas severas demais. Arbitrárias demais. Mas a lei dos anões, tal qual a rocha, era dura e inflexível. Palavras gravadas em minério e escritas com (e "por") picaretas (cuja palavra “picareta” tinha também sentido conotativo).
– Vai sentir saudades? – perguntou o rapaz recém-exilado, olhando para trás e observando a longa estrada que levava até a entrada da montanha.
– Talvez dos meus pais, mas do resto... – ela esticou os dedos dentro da sandália aberta. – Estou feliz em me ver livre daquele maldito machado.
– Armas leves são as melhores. – disse Garad, jogando sua faca para o ar. – Posso lhe ensinar tudo o que precisa saber de combate, bem mais do que o arremedo de treino que recebíamos daquele cuzão. Ou melhor, do nosso “Thas”, hehe! – ele lançou um olhar ferino para a jovem. – Falando nisso, vamos manter aqueles estúpidos tratamentos em ardwka? Quer que eu continue a chamando de “latru”?
– Não é mais necessário. – a moça sorriu enquanto tirava as sandálias. Deu-se ao luxo de ficar descalça na grama fina que ladeava a estrada. – Aqui na superfície você vai me chamar apenas por Aliana. – deu um sorriso. – Ou por “gostosa”, também atendo por este nome!

3 Blá blá blá!:

Dragões do sol Negro disse...

Achei muito bom, mas esperava mais no final hauhauah
Mas gostei!

lich disse...

ou por gostosa ahauhauahuahuahua, muito bom

Paulo disse...

rsrsrs.
Ótimo texto, Parabéns.

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