terça-feira, 24 de abril de 2012

Como foi o fim do mundo... Ou nem tanto assim...




- Cara: eu tava lá! Nem vem falando de “que os livros de história dizem”. Os historiadores não estão interessados em perguntar a nós, os totens, o que aconteceu. Poisé, virei um totem, e do urso! É, na verdade, não tinha nenhum urso nativo aqui do Brasil, mas sabecomé, né? Eu era xamanista e este era o meu totem do coração. Isso de se tornar totem aconteceu muito naquele dia. No fim da rua você pode falar com uma Iemanjá, amiga minha de muito tempo. Se quiser conversar com ela, leva um espelho, Fikadika.

O que? Você quer saber como tudo aconteceu? Bom, teu problema até que é fácil de resolver, então temos tempo pra falar.

Foi uma época muito doida. O Plantão, um tipo de jornal que dava nuns aparelhos que agente chamava de televisão, tinha feito o aviso oficial: A terra ia ser atingida por um imenso meteoro. Cara, foi uma loucura! avisaram tipo, umas 10 horas antes do impacto. Foi uma comoção, o pessoal ia pra ruas e o pânico tomou conta da população.

Saques foram os pecados mais leves que aconteceram naqueles últimas horas, cara. Estupros, orgias, assaltos, bah... coisa horrível. Tudo isso motivado pelo medo!

O medo é a chave do caos já diria o Coringa... Quem é coringa? Bom... esquece. Ele não é do teu tempo, é um personagem fictício do século XX.

A coisa mais horrível que eu vi acontecer foi meu vizinho que comeu a própria filha de 4 anos! Nã-não... nada a ver com sexo... foi com a boca mesmo:  garfo e faca, tá ligado?

Eu? Não cheguei a fazer nada demais, sabe? Minha vizinha queria trepar comigo e eu não neguei. Mas confesso que achei muito engraçado tudo aquilo. Se fosse em outros momentos, onde o peso do olhar da sociedade ditava as formas como a gente tinha que agir, ela não teria sido tão... dada. Será que a gente sempre tem que esperar dar alguma merda séria acontecer pra deixar nossos desejos se tornarem realidade? Sei lá se isso não é até bom, sabe? Meu vizinho comeu a filha dele, era esse o desejo dele... Hoje eu penso bastante nessa questão do “viver o dia como se fosse o último”. Naquela época eu vi tantas pessoas vivendo seus desejos porque todos acreditavam aqueles eram as últimas horas da vida deles...

E até que ela era bonitinha...

A última hora foi pior... Bom... ta meio confuso, então vou tentar falar desde o momento da notícia, e o que aconteceu comigo:

Tava lá em casa, tava jogando meu WoW com meu Guerreiro Tauren.. o Pardo.  O Que é WoW? Era tipo um jogo eletrônico, um mundo virtual onde a gente jogava com personagens que nos representavam. Já visitou Arcádia? É parecido.

Bom... eu tinha o costume de deixar a TV ligada quando eu ouvi que um meteoro ia cair. Na hora pensei que fosse só um meteorosinho sem importância, mas quando o pessoal começou a correr pra rua, vi que a porra tinha ficado séria!

Corri até a minha sala para olhar a tv e só mostrava a imagem de um pedrão gigante no espaço e que os cientistas não sabiam onde ia ser o impacto.

Bom, a primeira coisa que pensei quando vi a notícia foi: f#d&u.

A segunda foi trancar as portas e janelas!. Eu ouvi gritos, e logo tratei de pegar minha arma, sabia que ia dar merda... e das grandes! Eu tenho costume de fazer rancho pro mês então pensei que pelo menos por um mês eu me garantia. Quer dizer, se o “pedrão” fosse o suficiente pequeno para tipo, só acabar com a civilização, ao invés da vida na terra...

Cara a primeira coisa que me veio a mente foi Resident Evil! Um jogo de vídeo game, muito massa da minha época, sabe? Poisé tinha um monte de zumbi pra gente matar, pois é... Só que a galera soube do impacto, ao invés de zumbis-de-vírus-mutante, foram saqueadores e gente maluca com medo da morte certa. Que doidera, que doidera...

Bom. Eu costumava fazer meditação e sentei no meu canto pra meditar... tentar por a cabeça no lugar e não me “abraçar no desespero”. Sentei e acho que fiquei um 10 minutos me concentrando quando de-repente ouvi umas batidas fortes na minha porta. Era a Mili, minha vizinha berrando pedindo pra entrar. Mas ouvi a voz de mais alguém mas não sabia quem era... Silenciou de-repente. Catei o revolver e fui abrir a porta: parecia que ela tava brigando com alguém...

E sim... ela tava...

Era o ex querendo uma última vez com ela... na soleira da minha porta! Mas tipo assim, ela não queria. Eu ouvi silenciar de súbito porque ele tapou a boca dela , derrubou a guria no chão enquanto metia a mão por debaixo da saia dela.

Bom, com a merda toda acontecendo não pensei duas vezes: catei o berro e dei um tiro na cabeça dele. Ela gritou, mas sinceramente: com todo mundo gritando na volta o grito dela era só mais um... Mas confesso, sabe, não me senti bem depois. Não é do meu feitio, mas sei lá... já diria um Rap da minha época:

Homem é homem, mulhé é mulhé

Estuprador é diferente, né?

 Tirei o presunto de cima dela e puxei ela pra dentro. Ela chorava mais que criança pequena, eu tentei acalmar ela, mas a guria tava inconsolável, quase histérica. Tentei acalmar ela do jeito que deu. Eu tinha uns calmantes a mão e dei pra ela. Dei três comprimidos, já pra ela dormir mesmo. Deitei ela no sofá... e fiquei pensando por um momento que eu podia acabar com o sofrimento dela ali mesmo... Não precisava ver todo o horror que tava acontecendo na volta. Uma só bala. Mas não...

Respirei fundo... ela tinha o que? Uns 19 anos... Lembrei do meu irmão mais novo. Tentei telefonar pra ele, mas não tinha sinal...

Olhei pra Mili e pensei que trancando ela na minha casa ela ficaria segura.  Eu precisava ver meu irmão, pelo menos se despedir...

Catei meu berro e um facão. Quem quisesse chegar perto ia levar ou bala ou um “talagasso”.
Saí e tranquei a porta. Na saída minha outra vizinha havia me chamado, pedindo ajuda pela janela. Ela me falou que tinha machucado a perna por causa de um maluco que tentou agarrar ela. Como ela já tinha ajudado minha família um tempo atrás, quando eu e minha mãe estávamos desempregados, não podia dizer não.

Entrei lá na casa dela, ela trancou a porta e estava bem... Ela queria eu, na verdade... Eu tinha meus 35 anos e ela uns 50... meteu a mão nas minhas calças, tão rápido que eu até tinha me assustado: mas “peguei o espírito da coisa” bem rápido. Bom, porque não, né? Ela era bonita, se cuidava... Dane-se! Fiz e pronto! Os anos de experiência lhe fizeram bem...

Depois de satisfeitos, eu larguei a chave da minha casa pra ela e disse pra ficar lá com a Mili e esperasse eu voltar.

Acompanhei ela até minha casa e disse pra ela se trancar e me esperar.

Na verdade... eu não tinha intenção de voltar.

Andei pela rua como se o apocalipse tivesse chegando. No céu, uma estrela aparecia em plena tarde de sol, na terra vi gente bebendo até cair, trepando ou correndo com uma bíblia de um lado para outro com alardeios de : Ele voltou!

Eu vi sim, mulheres e crianças sendo estupradas. Vi seu Pedro, meu vizinho de rua comendo a filha dele sentado na escada da casa dele, como quem saboreasse uma melancia.
Eu podia ligar meu ímpeto de justiça e sair sapecando... mas para manter qual sociedade coesa? Gastar as balas com estupradores e loucos iria me impedir de alcançar meu irmão. Dane-se... se eu saísse vivo daquilo tudo eles iam pagar... ah se iam...

Veio gente sim, me pedir ajuda...

... neguei.  Não tinha tempo.

Cheguei na casa do meu irmão e dei um tiro pro alto pra afastar uns maluco que estavam por ali.

Entrei na casa, barramos a porta com móveis e nos abraçamos.

Dali por diante eu lembro que conversamos muito sobre tudo o que havia para ser conversado. Falamos, bebemos e comemos tudo o que queríamos. Eu e ele éramos diabéticos, sabe? Mas como o amanhã era incerto, passar mal comendo uns doces e bebendo ia ser o de menos...

 Vimos as notícias até meia hora antes do impacto, conversamos, bebemos e acertamos tudo. Pedimos desculpas por muita coisa. Ele acabou dormindo e eu pensei: graças a Deus ele não vai ver nada, se morrermos...

Eu olhei, da janela da sala, pro céu e não vi estrela nenhuma.  Tava grogue de tanta cerveja, mas lembro de ver o céu vermelho. Eu só vi que as nuvens correram muito rápido como se um gigante colossal assoprasse, assim: fuuuu! Deu um vento muito forte que arrancou parte do nosso telhado...
Seguiu um silencio e de súbito a terra tremeu e eu desmaiei acho.

Quando eu acordei, saí debaixo de uma parede que tinha caído sobre mim e vi muitas casas derrubadas, muitas mesmo. Eu vi também fadinhas na volta do limoeiro no pátio do meu irmão. Nem dei bola, sabe? Achei que tava aluciando por efeito do trago ainda. Olhei na volta e vi dragões, centauros, mais fadinhas... E o vizinho do meu irmão com um par de chifres... Ainda meio grogue eu disse:

- Fala corno!

Ele tava tão grogue quanto eu e disse alguma coisa sobre pêlos que eu não entendi...
Cara. Eu tava olhando na volta e tava achando tudo muito engraçado... Eu, que sempre gostei de RPG tava achando o máximo a minha viagem etílica baseada em D&D. O que é D&D? Ah, depois te explico.

Resolvi acordar daquilo, peguei uma pedra, usei de travesseiro e dormi... Acordei são... e desta vez eu vi claramente que eu tava mudado. Tipo eu sempre fui gordo, cara, mas eu tava mais... minhas calças tinham rebentado! Eu tava com uma enorme pança peluda! E eu tinha um focinho, cara! Um focinho! É esse que tu ta vendo... Ah! Vá! Tu não acha nada demais porque tá acostumado já... na minha época só tinha gente... am, quero dizer, humanos.

Mas pois é, descobri que tinha me tornado um urso-pardo, ou melhor o totem do urso pardo. Um espírito encarnado.

Como?

Bom cara, o que aconteceu naquele dia foi a mesma coisa que aconteceu na época dos dinossauros. A vida tinha evoluído apenas no campo físico até aquele ponto. Quando o primeiro pedrão caiu e extinguiu os dinos, na verdade, não extinguiu muita coisa não. Os dinos foram mudados! Eles viraram as várias espécies de dragões que você vê hoje em dia e que quase todos os povos do passado entraram em contato. A própria humanidade é fruto dos efeitos do meteoro sobre um grupo raro de gorilas.

Tudo aquilo que chamávamos de mitos e lendas e que hoje, dois séculos depois, tão aí andando na rua, depois do “fim do mundo”.  Espere um pouco, eu to ouvindo um cacarejar na volta do pátio. Aff véio, o vizinho esqueceu de trancar o Cocatrix dele de novo. Se ele vier petrificar um cliente meu denovo vou fazer ele pagar cada centavo da despetrificação... ow merda...

Bom, fica tranquilo que eu tiro ele de lá quando tu for embora. Voltando e resumindo a coisa, véi: O meteoro era um tipo especial de rocha com um poder arcano único. A energia do impacto simplesmente funde a nossa realidade a uma outra paralela: onde as “potências são infinitas e todas estão em ato”. Aristóteles teria um infarte, hahaha!

Claro que nem tudo foi uma maravilha: ter seres míticos andando pelas ruas implica também em você encontrar vampiros e outras coisas nocivas por aí. Quando o meteoro caiu morreu tipo 1/3 da população mundial. Mais uns tantos tentando sobreviver aos mitos e chegamos onde estamos.

O que houve com os outros? Bom... a Mili e aquela vizinha que eu comi, a dona Ana, tão bem eu acho. A Mili era cristã e foi arrebatada, virou um anjo que eu saiba e fica lá na igreja da Boa Esperança. Já a dona Ana traiu o marido dela comigo, era cristã e foi pro inferno se tornou uma succubus que tá atendendo numa cidade em Santa Catarina. Já meu irmão, eu não sei onde esta. Eu-eu fiquei com medo de levantar os escombros da casa e encontrar ele lá, morto, sabe? Espero que esteja bem em espírito. Se é que ta morto.

Bom chega de papo, teu problema é câncer de próstata certo? Bom, eu sou um totem do urso e represento a cura no ventre da mãe terra. Você me dá uns 2 Kg de mel do bom e me paga um churrasco com ceva de oferenda que eu te curo do teu mal aew. Deixa o mel na praça da Alfândega,  num matinho, numa vazinha marrom com um pentagrama no meio que eu vou lá e pego depois. Vai pra casa dormir e amanhã faça o churrasco em minha honra: carne de primeira blz? Se for de segunda juro que tiro o câncer da tua próstata e coloco no teu nariz!

Tamos combinado? O que? O sr tem problema com dinheiro? Pega aqui um endereço de um buda amigo meu, personificação de Shambala. Mulher? Nossa o sr ta cheio de problema ein? Na outra quadra tem um pomba gira, irmã de uma succubus gente boa. O nome dela é Janine, vai te ajudar neste caso.
Flws parceria, até a próxima! Fica tranquilo que eu seguro o cocatrix pro senhor.

E não te esquece: de 1ª ein?

Rogério “Monge da Dungeon” Freitas Filósofo espancador e com aidéia louca de um mundo insano na cabeça... e sem tempo pra fazer quase nada =/


5 Blá blá blá!:

Dragões do sol Negro disse...

CARA MUITO BOM!
HAHAHA

Diego disse...

Cara..
Ficou massa o texto.

Parece uma introdução ao shadowrun,com elementos brasileiros, só que mais alternativo, se é que é possível.

Eu curto pacas shadowrun, não sei se você pegou alguma inspiração de lá, se não pegou tem umas coincidências fortes.

Mestrar em Seatle, com a cultura americana como cenário é a parte chata do jogo, sou preguiçoso pra adaptar o cenário, esse texto me deu algumas idéias bacanas para a próxima aventura, na Bahia!!!

Flw.

Rogério "Monge da Dungeon" disse...

Oi Diego!

O cenário do texto segue a seguinte formula: Shadowrun + Fallout + Platão + Aristóteles + Os Mutantes + Estudo de religiões + Alguns Elementos de Ocultismo + Um livro que ainda quero escrever = o Cenário onde se passa o texto!

Sim! Shadowrun tem uma idéia conceitual muito massa! Adaptar algo pro território tupiniquim quando sempre os nossos materiais não levam em consideração nossa cultura fica mais difícil.Eu o conheci lá pelos idos de 1995, através de uma velha Dragão Brasil e da Extinta "Só Aventuras" Onde havia uma daptação da raça Goblim para Jogador.

O cenário em si esta mais pro Fallout do que pro Shadowru, pois trata-se de um cenário pós-apocaliptico. Cidades como Porto Alegre, Curitiba e Salvador seriam cidades estados e as áreas pro interior se tornaram muito perigosas com a presença constante dos mitos que, em muitos casos, eliminaram as populações locais. As cidades estados são dominadas pelo exército controlado por seres sobrenaturais, tornando a vida dos seres humanos normais um arremedo do inferno! Mas bastaria substituir o exército por uma mega corporação e voilá. Ah: aqui não haveria a matriz nem biônicos, mas você poderia colocar esses elementos pra "shadowrrunizar" mais o cenário.
Pessoas com muita fé em um determinado caminho espiritual acabam se transformando nos seres que pertencem a mitologia daquele caminho, mas que são chamados coletivamente de totens ou daemons. Quando o meteoro caiu várias pessoas haviam se transformado, como o narrador do conto. Não sei como isso se daria no cenário de Shadowrun, talvez um xamã poderia ser a personificação de um orixá e passaria a se chamar de Babalorixá ou Pai-de-Santo.

Mas é isso aew, boa sorte na adaptação e nos mantenha informado do progresso!

Rogério "Monge da Dungeon" disse...

Ah só complementando:

Existe um game pra Windows baseado em Shadowrun e se passa em Santos: olha o treiler, talvez possa ajudar:

http://www.youtube.com/watch?v=iyWAh1Jqevs

Diego disse...

Valeu pelas dicas.

Fallout e Os mutantes curto muito também.

O que eu acho muito legal no Shadowrun é a ascensão dos povos "indígenas" com essa materialização explícita das forças arcanas ou divinas a amazonia poderia ser uma potência em um cenário nacional. A matriz, sempre tive problemas com ela na mesa, quem não tem cyber implantes praticamente só assiste a parte da aventura que se passa na matriz, até prefiro deixar ela de lado, mas que é bem colocada no jogo, sem dúvida.

Alguma coisa de Aleister Crowley e religiões de origem africana -como você bem colocou - são minhas pedidas para apimentar o cenário.

Foda é tempo pra desenvolver e escrever, as coisas acabam acontecendo na mesa mesmo, então vamos em frente e mando pro Mnar as impressões da próxima jogatina.

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