segunda-feira, 30 de abril de 2012

Cinco dias de guerra - Parte 2


Olá, amigos. Eu, Jacó Galtran, trago a vocês a continuação da saga "Cinco dias de guerra". Espero que apreciem e comentem.

CINCO DIAS DE GUERRA - PARTE 2


"O terceiro dia começou com um grande derramamento de sangue. Antes que o sol desse as boas-vindas ao amanhecer, já havia um número considerável de soldados, espada em punho, em batalha.
Pequenos destacamentos de vinte a trinta soldados confrontavam-se furiosamente. O aço chocava-se contra o aço, encobrindo a melodia que os pássaros cantavam ao saírem de seus ninhos. O clangor das lâminas golpeando armaduras rivalizava apenas com os gritos de dor dos guerreiros, quando suas carnes eram rasgadas por estocadas, talhos eram abertos por ataques cortantes ou amigos seus caíam sem vida. 
Passadas algumas horas – nas quais os soldados de Daarag estavam levando vantagem – chegaram as tropas mais temidas do exército de Khurin: a cavalaria. Um grupo imenso de guerreiros especialistas no combate montado, empunhando lanças e escudos. Quando adequadamente perfilados, avançariam em carga, causando uma onda de destruição irresistível. 
As tropas de Daarag contavam com a selvageria natural de uma parte de seus guerreiros. Alguns deles eram descendentes de bárbaros e tinham uma força física acima da média. A isso se somava um estilo de combate inusitado e uma ferocidade quase que animalesca. 
Mesmo assim, os daaraguianos sabiam que isso poderia não ser suficiente. A pouquíssima munição que restava nas máquinas de guerra seria usada em um ataque inicial, a fim de dispersar a cavalaria inimiga e desfazer sua formação. Apesar disso, não havia muita certeza se isso bastaria. Caso a derrota se mostrasse inevitável, uns poucos generais de Daarag já cogitavam a possibilidade de se renderem, pondo fim à guerra.


***


A manhã do terceiro dia ainda não havia chegado ao fim, quando a cavalaria marchou em direção às tropas de Daarag. Do outro lado, um contingente considerável, formado pelos mais bravos guerreiros do reino daaraguiano caminhava lentamente em direção ao inimigo. Restavam poucas dezenas de metros entre eles. Um guerreiro do reino Khurin pediu perdão à deusa Layse pelo que teria que fazer.


E a carnificina começou.


A cavalaria avançou em carga, mas foi surpreendida pelo arremesso de ácido vindo de uma catapulta. Doze cavaleiros foram atingidos, caindo e sendo pisoteados por seus animais descontrolados. Alguns conseguiram desviar-se do ataque, mas para tanto, tiveram que chocar-se contra seus pares que cavalgavam ao lado. Isso reduziu o poder da investida.
Do outro lado, vieram os bárbaros de Daarag, ferozes como leões, empunhando machados. As tropas se encontraram e os corpos começaram a cair. As armas dos daaraguianos chocavam-se com os escudos, sem grandes resultados. As lanças dos cavaleiros, por sua vez, perfuravam couro, carne e ossos, fazendo tombar muitos inimigos. Quando a cavalaria investiu em carga pela segunda vez, os bárbaros se abaixaram, para desviar das lanças dos rivais e para atingir os cavalos.
Foram poucos minutos de intensa batalha, cavaleiros contra bárbaros, khurinianos contra daaraguianos, invasores contra invadidos. Membros decepados, sangue escorrendo abundante, animais e homens caídos sem vida, armas quebradas. O confronto cessou quando os poucos bárbaros que restavam – menos de dez – recuaram. Ainda havia mais de cinqüenta cavaleiros em condições de continuar combatendo e, ao longe, se via mais de duzentos vindo unir-se a eles. 
Antes que um último daaraguiano pudesse fugir, dois cavaleiros o cercaram.




- Não há porque continuarem resistindo. Temos ordens de aceitar sua rendição, caso queiram poupar suas vidas – disse um deles.
- Daremos a vocês até o próximo amanhecer para se entregarem. Do contrário, arrasaremos vocês e tomaremos seu reino à força.


O bárbaro virou-se, tentando ignorar aquelas palavras, e correu. Movido pelo desespero, não teve dificuldade em alcançar seus companheiros, que já estavam a centenas de metros à frente.


A tarde nem havia começado e o terceiro dia de guerra já chegava ao fim.


***


Não era comum toda aquela balbúrdia no templo. Mônica estranhou a gritaria e a correria que tinha se iniciado, e fez o possível para concentrar-se em suas orações. Ela estava na capela, fazendo suas preces vespertinas. Lá, além de orar, podia deixar escapar uma ou outra lágrima de tristeza. Não paravam de chegar notícias sobre a intensificação dos confrontos de seu povo contra o reino de Daarag. 


- A paz vai triunfar – pensou em voz alta, sem notar que estava sendo observada.
- Que bom que você está aí. Desculpe incomodá-la, Mônica, mas sua presença está sendo solicitada na enfermaria. Chegaram nove soldados feridos e não estamos conseguindo curá-los. 


Mônica assentiu com a cabeça para a sua colega sacerdotisa. Murmurou as palavras necessárias para concluir sua oração e seguiu sua amiga. Antes de cruzarem o corredor que as levaria ao aposento onde repousavam os feridos, era preciso que algumas coisas fossem ditas.


- Como está a guerra? – Mônica perguntou – Há muitos feridos?
- Não sei dizer, Mônica. O que ficamos sabendo é que os confrontos ficaram mais violentos hoje cedo. 
- Até agora não entendi porque estamos atacando o reino de Daarag – a sacerdotisa se lamentou.
- São ordens do Rei, Mônica. E ordens do Rei não devem ser entendidas. Devem ser obedecidas. 


As duas continuaram caminhando. Mônica continuava exibindo um semblante que misturava tristeza com revolta. 


- Antes de ir para a guerra, ninguém se lembrou de pedir nossa opinião. Agora que há soldados feridos, eles lembram de nós e pedem nossa ajuda.  


***


Nove soldados. De acordo com informações que Mônica não fez nenhuma questão de ter acesso, eram membros da cavalaria que foram postos fora de combate, mas sobreviveram. Repousavam em camas bastante próximas umas das outras, e não pareciam ter força nem para falarem. As pernas, tórax e braços de muitos deles estavam cobertos de sangue. Havia marcas de cortes e de perfurações. Dois dos soldados pareciam inconscientes.
Outras sacerdotisas tinham colocado um pano úmido nas testas de alguns dos feridos, pois eles tinham febre alta – o que provavelmente significava que os ferimentos pudessem estar infeccionados. Ungüentos foram postos sobre as regiões cortadas, a fim de apressar a cicatrização. 


Mas isso parecia apenas evitar um agravamento da situação. 


Mônica chegou e não pôde deixar de praguejar contra aqueles que eram favoráveis àquela guerra estúpida. Diante dela, apenas uma parte das trágicas conseqüências do confronto sem sentido.
Ela caminhou lentamente pelo quarto, tentando identificar qual soldado era o mais gravemente ferido. Não conseguiu descobrir e acabou seguindo a seqüência natural do posicionamento das camas. 
O primeiro homem ferido tinha escoriações por todo o corpo. Destacava-se o corte profundo no joelho direito, que partiu ao meio seu osso – e por pouco não decepou sua perna. 


- Um machado – com a pouca força que tinha, o homem apontou para o corte e explicou.
- Por que você luta? Você aprecia a guerra e as matanças? Ou só está lá porque é obrigado?


O homem contorceu os lábios, mas não teve forças para responder. Mônica segurou as mãos ásperas do soldado e fechou os olhos. Orou. Com fervor, abalada pela gravidade daqueles ferimentos e com desejo sincero de que aquela carnificina cessasse. Pediu a deusa Layse que a paz sobrepujasse a sede de sangue dos tiranos que atiram seus soldados à guerra movidos por ambições mesquinhas. 


Abriu os olhos. O homem continuava terrivelmente ferido. 
   
Será que, como no dia anterior, seria necessário que ela chorasse para ser capaz de curar? Ou seria o ato carinhoso de beijar a testa que promovia a cura? Mônica sentiu o desespero tomar conta de si e pediu ajuda à deusa Layse. Tornou a orar e beijou a testa do homem. Que a deusa da paz a abençoasse, pois Mônica não se sentia capaz de chorar naquele momento.


A prece foi atendida. 


Uma estranha aura semi-translúcida circundou o corpo repleto de ferimentos, curando um a um. Cicatrizes foram se fechando, sangramentos foram se estancando, ossos foram se reconstruindo. A febre baixou. O poder da deusa da cura sobrepujou tudo. 


- Você foi curado pela deusa da paz. Em respeito a isso, abandone a guerra – disse Mônica, já se dirigindo para o próximo soldado.




  
Ela foi passando pelos feridos, um a um, repetindo os mesmos procedimentos. Orava sem sucesso e, em seguida, beijava-os carinhosamente na testa, para só então vê-los curados. Isso foi desagradável quando teve que beijar dois deles que tinham a testa bastante ensangüentada. 
Logo, todos estavam em condições de voltarem a seus lares, mas foram orientados por outras sacerdotisas a repousarem mais um pouco. Os lençóis, empapados de sangue e suor, foram trocados. Todos eles acabaram adormecendo por algumas horas. 
Mônica voltou à capela, onde fez mais preces a sua deusa. Perguntava-se quando a guerra terminaria e até quando teria que ver pessoas inocentes com aqueles ferimentos horríveis. Ela não sabia, mas a resposta não tardaria a chegar.


Pois, embora não soubesse, Mônica havia curado o mais graduado comandante das tropas de cavalaria do reino Khurin."

CONTINUA...

Mais sobre o trabalho do Jacó clicando aqui.



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