segunda-feira, 16 de abril de 2012

Cinco dias de guerra - Parte 1


Olá, amigos. Hoje inicio uma nova saga aqui no blog. Será curta - apenas quatro partes.

Espero que apreciem e comentem.

Cinco dias de guerra - Parte 1

"A guerra havia começado.

O reino de Daarag defendia-se como podia. As tropas do reino de Khurin lançaram o primeiro ataque às regiões fronteiriças naquela manhã, fazendo os limites geográficos dos reinos serem demarcados pelos corpos sem vida – não mais pelas linhas demarcatórias.
O ataque tinha começado cedo, visando ter o fator surpresa como aliado. Mas a estratégia não logrou êxito. Os exércitos de Daarag já sabiam que seriam atacados e já tinham preparado uma contra-ofensiva. Acampamentos haviam sido montados às pressas em toda a extensão da região fronteiriça. Soldados armados revezaram-se em um patrulhamento improvisado ao longo dos quilômetros que margeavam a divisa entre os reinos. Foi o melhor que o reino pôde fazer, face a urgência da situação.
O exército de Khurin iniciou o ataque também às pressas, a decisão intempestiva do Rei antecipando tudo. Há semana já havia um grande número de soldados preparando-se para o inevitável confronto, mas ainda restava muito a ser planejado e discutido quando chegaram as ordens de atacar. Sem escolha, um considerável contingente de combatentes partiu, dividindo-se em pequenos destacamentos ao longo do trajeto. Marcharam resolutos em direção às áreas fronteiriças até serem interceptados por guerreiros do exército rival.

E houve sangue.

Ambos os lados atacavam com pequenos grupos que atacavam e recuavam conforme a necessidade, minimizando perdas e tornando efêmeras as conquistas de território. Tudo isso para ganhar o tempo necessário para que a força principal de cada um dos exércitos se aprontasse.
Mesmo estando sob ataque quase incessante, os comandantes de Daarag estavam lúcidos o suficiente para entender porque seus inimigos marcharam justamente para aquela área. O Palácio de Daarag, os principais centros populacionais, as mais poderosas tropas, tudo estava a dezenas de quilômetros a leste do local dos confrontos. Se Khurin avançava justamente naquele ponto da fronteira, seu alvo só podia ser um: o rio Haarlat.
Ele era a única fonte de água potável de todo o reino de Daarag. Ficava claro que a intenção das tropas de Khurin era envenenar o rio, apressando uma eventual rendição dos inimigos. Talvez por isso, o povo daaraguiano lutava fervorosamente. Naquele momento, não apenas as vidas dos soldados estavam em jogo: mulheres, crianças e civis também corriam perigo.

***

O primeiro dia de guerra seguiu violento, mas sem grandes baixas. Nenhuma faixa de território significativa foi conquistada por nenhum dos lados, nenhuma tropa conseguiu avançar muito no reino inimigo. Os primeiros confrontos pareceram ter sido um mero aquecimento.
Ao cair da noite, os principais combatentes recuaram um pouco mais e montaram acampamento. Ambos os lados, no fundo, queriam retardar a seqüência dos combates para que reforços chegassem. Sobretudo, cada lado sabia que seus rivais pensavam da mesma forma. Logo, houve quase que uma trégua após o pôr-do-sol. As tropas continuaram de prontidão, montando guarda em turnos, preparadas para se defender caso fossem atacadas. Mas, durante aquela noite, a paz reinou.

***

O amanhecer foi sangrento.

Reforços chegaram em quantidade considerável para os dois exércitos. Os soldados de Khurin trouxeram um destacamento de arqueiros e atiradores à distância, visando fazer os inimigos recuarem. Flechas e setas começaram a voar às primeiras luzes da aurora. A precisão dos atiradores era impressionante. Os daaraguianos tentavam recuar, mas eram cravejados pelos projéteis.
Antes que o contingente de soldados de Daarag sofresse perdas significativas, o reino contra-atacou com uma ousada tática: o uso de máquinas de guerra. Catapultas e balestras disparavam óleo fervente, ácido e substâncias incendiárias. O recurso surpreendeu os inimigos, fazendo-os recuar e ter perdas consideráveis.
Os combates corpo-a-corpo foram diminuindo um pouco, o que também foi positivo para que ambos os lados ganhassem tempo para a chegada de mais reforços. Khurin ainda não tinha conseguido aprontar sua temida tropa de cavalaria – uma das mais intimidadoras do continente. Daarag era um reino famoso pela brutalidade de sua infantaria, que era formada por descendentes de povos bárbaros da região.
Os disparos à distância vindos de ambos os lados fez com que os combatentes se dispersassem, abandonando suas formações. Desagrupados, eles acabaram se tornando alvos fáceis para o poder de fogo dos inimigos. O número de mortes começou a aumentar rapidamente.

E ainda estavam apenas na metade do segundo dia da guerra.

***

Bellinan era uma das mais importantes cidades do reino de Khurin. Banhada pelo rio Yanjose, ela vivia basicamente da pesca e da agricultura – já que o solo da região era um dos mais férteis de todo aquele lado do continente. Ali viviam pessoas de hábitos simples, valores familiares fortes, avessas à violência e de grande fé nos deuses. Em particular, fé em Layse, a deusa da paz.
E era no templo dela que havia a maior movimentação de pessoas na cidade. Os confrontos recém-iniciados da guerra ainda não haviam chegado perto de Bellinan, o que permitia ao povo sair pelas ruas com tranqüilidade. Muitas pessoas iam ao templo orar, outras apenas aprender com as pregações dos sacerdotes. Havia apenas uma pessoa que estava ingressando lá com outro propósito.
Mônica era uma sacerdotisa. Linda, vinte e uma primaveras de idade, dona de um sorriso capaz de fazer o mais incrédulo dos homens acreditar na existência dos deuses. Seus longos cabelos negros escorriam ao lado do rosto sublime, combinando com o negro dos profundos olhos castanhos. Tinha um tom de voz suave, musical, mas ao mesmo tempo decidido. Não à toa, era uma das pessoas mais importantes daquele lugar.
A jovem havia decidido dedicar sua vida a auxiliar os necessitados, combater injustiças e promover a paz. Naquela região belicosa em que vivia, essa maneira de pensar era rara, fazendo com que ela fosse uma das poucas sacerdotisas do reino de Bellinan. Muito mais numerosos eram os seguidores de Arkiron, o deus da guerra, ou mesmo de Hudorn, o cruel deus da morte.
Mas o que fazia Mônica diferir das demais era outra coisa. Em um mundo mágico repleto de poderes sobrenaturais, a capacidade de curar ferimentos era relativamente comum, principalmente para sacerdotisas de Layse. No entanto, essa habilidade era bastante limitada e pouco efetiva contra ferimentos mais graves. Por sua vez, Mônica tinha um poder de cura muito acima da média. Comentava-se que ela era capaz de fechar cicatrizes profundas, fortalecer guerreiros que haviam perdido muito sangue e até remover doenças e envenenamentos apenas com o toque de suas mãos.

E era por isso que ela estava, naquele momento, no Templo da deusa Layse.

- Disseram para mim que algumas crianças estão com enjôo e vômitos freqüentes – ela disse, conversando com uma curandeira do templo – Quantas são?
- São três – a velha senhora respondeu – Não conseguimos descobrir a origem dessas doenças. Mas é algo recente. Os pais das crianças confirmaram que todas elas se sentiam bem até poucas horas atrás.
- Melhor não perder tempo, então.

A curandeira acompanhou Mônica a um quarto com várias camas colocadas lado a lado. Em um canto do aposento havia uma pequena pia, na parede oposta aos leitos dos doentes uma mesinha com jarros de água e ervas sobre ela, e no final do quarto uma porta que dava acesso a um banheiro.
Sobre as camas, repousavam dois garotos e uma garota. Todos pálidos, febris, com panos úmidos sobre suas testas. No chão, ao lado deles, bacias nas quais eles vomitavam a quase todo instante. Pelo cheiro, Mônica deduziu que algum deles devia ter urinado nas calças também.

- A senhorita pode curá-los? – perguntou a velha senhora.
- Eu talvez não. Mas a deusa Layse pode.

Mônica tentou puxar conversa com as crianças, mas elas estavam fracas demais para responder com palavras. Apenas sorriam e acenavam de leve com a cabeça a cada frase de ânimo da sacerdotisa. Mônica ajoelhou-se ao lado de uma cama e segurou as mãos do primeiro garotinho.

- Você sabe o que é paz, meu anjo? – ela perguntou.
- Sim – ele respondeu – Paz é quando não existe guerra.
- Não. Paz não é ausência de guerra. Paz é presença de amor.

Mônica fez uma prece fervorosa à deusa Layse. Segurou com mais firmeza as mãos suadas e frias do menino doente e fechou os olhos. O garoto imitou o gesto e também fechou os seus. Senão o tivesse feito, teria visto uma pequena luz dourada sair das mãos da sacerdotisa. O brilho se espalhou por todo o corpo do menino, que tremeu por um instante da cabeça aos pés.

Quando ambos abriram os olhos, o garoto já não sentia mais nada.

Mônica repetiu o processo com a garotinha que estava deitada na cama do meio. Disse a ela palavras bonitas sobre a paz, o amor, a justiça, fez uma prece sincera, segurou a mão dela e um rútilo dourado surgiu. A menina foi curada também. Mônica e a velha curandeira sorriram.

Então, a jovem sacerdotisa colocou-se ao lado do terceiro garoto. Ele parecia mais pálido e mais enfraquecido que os demais. Mônica segurou as mãos dele e sorriu, mas não foi retribuída. Fechou os olhos e orou com a mesma fé, com o mesmo fervor e com o mesmo desejo sincero de curar o menino.

Mas não teve o mesmo resultado.

Quando ela terminou, abriu os olhos. O garoto, que também tinha fechado os olhos, abriu os dele também. Percebeu que Mônica já tinha feito o que podia, mas não sentiu nenhuma melhora. Os olhos da sacerdotisa se encheram de água.

- Você não consegue me curar como curou os outros, moça? Isso quer dizer que eu vou morrer?

Mônica olhou para a esquerda e viu, chorando copiosamente, um casal encostado na porta. Deviam ser os pais do menino. Lágrimas amargas escorreram no rosto sublime da sacerdotisa, que tornou a fechar os olhos e tornou a orar. Ao terminar, antes de soltar as mãos do garoto, beijou carinhosamente sua testa.

E o milagre aconteceu.

Durante as duas horas seguintes, o ambiente foi tomado de alegria. Os familiares das crianças agradeceram efusivamente a sacerdotisa e abraçaram com força seus filhos. Juntos, todos se dirigiram até a capela, a poucos corredores dali e fizeram um pequeno culto de agradecimento à deusa Layse. Cantaram hinos, fizeram preces e receberam bênçãos em uma linda cerimônia.
As três famílias voltaram a seus lares com a fé e a esperança renovada. Mônica foi deitar-se em um dos aposentos destinados a sacerdotisas com uma dúvida: o que terá curado o terceiro garoto? Teria sido o poder de suas lágrimas? Ou foi o fato de tê-lo beijado? Ela não soube dizer.
Mais tarde, antes do anoitecer, outra sacerdotisa do templo aconselhou-a a dormir lá mesmo. Com o início da guerra, não era mais seguro sair desprotegida pelas ruas. Além disso, existia a possibilidade de que soldados feridos fossem enviados ao templo, precisando do poder de cura de Mônica. Ela concordou e ficou.

Enquanto isso, no campo de batalha, os dois exércitos insistiram ao longo de todo o resto do dia com a estratégia de atacar à distância. Já havia um número considerável de mortos, mas os soldados mais poderosos de ambos os lados estavam apenas chegando à zona de confronto. A munição dos dois exércitos estava acabando, o que significava que no próximo amanhecer as batalhas corpo-a-corpo recomeçariam.

A noite caiu, encerrando informalmente os confrontos. Chegava ao fim o segundo dia da guerra."

Continua... Mais sobre o trabalho do Jacó aqui.

3 Blá blá blá!:

Dragões do sol Negro disse...

'O.O'

Paulo disse...

Quero saber mais!

Astreya disse...

Eu também! Adorei a Mônica! Parabéns nobre Jaco!

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