terça-feira, 20 de março de 2012

FUBAR: Vietnã





Todo maldito dia...

Recordo...

Embarcando em um Huey, a vida como um breve solo de guitarra, veloz e distorcido.

Em terras “orientais” tatuei no braço esquerdo a grande águia, o mesmo braço que segurava a M-14, na cabeça o convencimento, democracia, eu era seu servo, um jovem soldado pronto pra matar em nome da liberdade.

Tento esquecer...

Acordo, Wisconsin? Meio da noite? Tanto faz...

Guerra, meu ofício, 6:43 PM, próximo ao paralelo 17 Pleyku  parecia um sonho, selva fechada, calor e insetos eram os menores problemas, perímetro resguardado, mais uma noite em meio aos malditos comunas sem a companhia do bom Jack Daniels.

Procedimento básico ao amanhecer, verifico o equipamento, contagem da tropa, somos 12.

Próximo ponto da rota uma vila vietnamita, passamos por tantas nos últimos dias que eles parecem não mais notar nossa presença, aproveito para encher o cantil, um breve momento que me separo da tropa, um jovem me observa, mais um china curioso eu penso, puta engano.

Um estrondo, corro em direção a tropa, o barulho das dragunovs Vietcongs vindo da mata me faz instintivamente entrar em um galpão de arroz azedo procurando cobertura. Preparo a M-14, olho pela fresta da janela, três companheiros gravemente feridos, dois mortos, saio atirando, vejo uma granada voando de uma das casas em direção à mata, muitos chinas caídos, vejo o capitão e me junto a ele atrás de uma barricada improvisada.

Ele tenta reagrupar o pelotão aos berros, Michael que tentava vir em nossa direção correndo é atingido nas pernas, grita por socorro, porém ninguém segue em seu auxílio, os malditos Vietcongs não o matam esperando que algum herói vá até ele, três companheiros conseguem chegar até nós.

Uma Hotchkiss no flanco esquerdo não nos deixava respirar, onde estávamos ela não tinha ângulo para nos acertar, mas era só questão de tempo.

Um bom tiro de M-79 resolveria nosso problema, porém a cuspideira estava no meio do fogo cruzado, próxima ao corpo de nosso melhor artilheiro.

Penso em Marie, nas crianças, logo a imagem é substituída em minha mente pelos rostos desfigurados de agricultores vietnamitas caídos ao meu lado.

Acordo novamente com o barulho de uma m-14 ao pé do ouvido, hoje minha audição é falha e costumo ouvir um zumbido várias vezes ao dia, o Governo me deu o melhor aparelho auditivo do mercado, santo Estado.

Quando o som das três pás de um Huey se aproxima do campo é como uma chuva curativa, ouço uma Thompsom descarregando, os tiros voam em direção à mata, quase um sinal divino, porém um frenesi costuma se apoderar dos soldados, senhor da morte abençoado por sangue, sim, o treinamento foi bem feito.

Partimos em carga, aproveitamos a cobertura para nos posicionarmos de forma a flanquear o inimigo, atirando em tudo que é amarelo, gritos são abafados pela saraivada da infernal metralhadora, a M-14 quente em minha mão não perdoa.

Acho que o capitão gritava a ordem de cessar fogo há alguns minutos, o inimigo já estava abatido mas não importava, aquela era só mais uma vila de comunas e nos estávamos lá defendendo um bem maior, aquele dia exterminamos todos aqueles "piolhos humanos" asiáticos - em defesa da liberdade e da democracia - até hoje tento me convencer disso, maldita contra cultura e sua ignorância que me atormentam diante de mais um jogo dos Knicks em um sábado a noite.

Enquanto nos combatíamos o inimigo com todos os recursos que a guerra exigia esses hipiies idiotas enfrentavam a guarda nacional em seus invioláveis campus, enquanto fumavam a sua doce erva nós sentíamos o cheiro detestável do agente laranja nos campos de arroz, o santo Estado paga pelo meu tratamento de câncer sem questionar.

Mas porque tento me convencer? Eu era apenas um soldado cumprindo ordens, não à toa a grande indústria do cinema fatura milhões com o meu heroísmo, sem dúvida aqueles distantes senhores que realizaram a Convenção de Genebra nunca ficaram no meio de um fogo cruzado com seu companheiro de armas engasgado no próprio sangue!

Vou dormir tranquilo.

Acordo, Da Nang? Fim da tarde? Tanto faz...

Texto: P.D. CAVA

2 Blá blá blá!:

Rogério"Monge da Dungeon" disse...

Um verdadeiro Show de Bolice, este texto.

Falado na forma de um relato, dá um tom diferente aos textos, não sei.
O único "contra" é algo que parte de mim mesmo: não conheço boa parte dos termos usados (como os nomes das armas).

E convenhamos: a parte do lucro de Hollywood sobre a desgraça da gerra tem dois lados: por um lado mostra o horror e pelo outro banaliza e lucra com algo extremamente sério, principalmente para quem viveu (ou seria sobreviveu) em uma...

Flws

Dragões do sol Negro disse...

Que bom que gostou. Eu procurei imagens sobre as armas mas não encontrei imagens livres, aí... só olhando no google mesmo.
Cara concordo com você, e como diz um amigo meu:
"A guerra é muito legal, pena que morre gente."

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