quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

O Deserto


Areia.

Uma rocha ínfima. Tem o aspecto do diamante bruto, uma pequena estilha de cristal. Reluzente, este pequeno pedaço de rocha tem uma beleza que se abstém de aparecer, exceto ao olhar dos que se reservam a observá-la atentamente. Mas o fragmento de rocha não está sozinho. A beleza cristalina deste se perde quando a sua individualidade não se manifesta e, em conjunto com outras tantas iguais, acaba por formar um oceano de desolação, pois este pequeno diamante é um grão de areia do deserto.

No mar de aridez não cabe a poesia da lembrança de que a areia é a matéria prima do vidro. Não, aqui seu papel é outro…

Aquele que vive no deserto sabe a magia maléfica que areia desempenha. Durante o dia, ela se alimenta do calor emanado pelo Deus Sol, em todo o seu esplendor, e faz com que o solo torne-se um enorme espelho do céu – um espelho cruel, todavia. Pois nada da beleza  azul celeste se encontra nele; exceto o calor causticante e a fúria da luz que cega e embaça a visão.

O físico não é único que sofre de tal agrura; a areia destrói o espírito igualmente.  Adentra as roupas e todos os pertences, se faz onipresente. Está na água da qual se bebe, penetra na algibeira e  se apresenta em todos os momentos, um dura constante. O sopro do vento lança a areia aos olhos e fere a vista, atinge a montaria e as carroças, e se deposita mesmo na parca comida de um viajante…

A areia, esta senhora do Deserto, é austera e implacável, mesmo à noite, quando o sol não mais a aquece, ela ainda invade os sonhos de viajantes e nômades, semeia dúvidas na determinação e a certeza de que o deserto será a última viagem, a última estrada das almas desafortunadas que se aventuram a atravessá-lo.

Mas o dia ainda é a real plenitude do desafio que o deserto representa, pois fora a areia, aqui outra força mostra uma face que não é vista em outros lugares. O Sol, na vastidão do deserto, atinge como um açoite os que vagam pelo oceano árido. Cada minúsculo raio de luz emanada por esta entidade atinge a paisagem de maneira quase vingativa,  sem o mínimo de docilidade, e cada manifestação sua é tal qual um estalido seco de um açoite, tanto para corpo quanto para a alma. E nem mesmo quando um vento sopra, parecendo movido por alguma forma de piedade, o sol desfaz seu amargo encanto, que queima, destrói e desola inexoravelmente. Assim, o sol no deserto não é uma entidade que provê a vida, mas fornece a morte.

No entanto, por mais que se possa adaptar a maioria das intempéries, o deserto não é uma intempérie só física; ele toma a alma, e se torna um estado de espírito.

Alguns precisam exalar seu ultimo suspiro de vida para compreender isso, outros nascem com essa compreensão, mas a maioria resseca o corpo, corrói seu âmago, até adentrar no reino da morte sem perceber tal verdade.

Então, o caminhante pára. Incólume. Ele observa, através de olhos fracos e cansados, pontos distantes no horizonte. Crê sem duvida nenhuma que se trata de uma miragem – o mais doce e belo artifício dos encantos mortais que o deserto fornece à alma – uma peça pregada feita do sofrimento do corpo e das esperanças despedaçadas das almas, costuradas em doces ilusões, que sempre acaba por zombeteiramente revelar a cruel verdade.

E, no entanto, o que o caminhante avista pode ser verdadeiro, a imagem indistinta pode se revelar verdade, e se mostrar como sendo uma caravana cruzando a areia. De longe o caminhante vê, enquanto a caravana passa, pessoas amarradas nas ultimas carroças, outras presas em jaulas espremidas, com as feições preenchidas do misto de vazio e mágoa que caracteriza as expressões do que foram escravizados.

E sobre o som do açoite dos homens, é que se realiza a mais cruel face do deserto, o monstro que vive dentro da natureza de cada homem. A mais cruel de todas as ameaças do deserto…

“Cedido pelo domusdraconis.net

0 Blá blá blá!:

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