quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

O Diário de um Heroi - Capítulo XII




Não podia acreditar no que estava vendo. Sebastian estava no chão gemendo de dor e se contorcendo enquanto Kaer limpava o ferimento com água e o cobria com uma pasta verde que havia feito com ervas colhidas por Taruk na floresta. Já havia passado horas desde que Sebastian fora picado por uma aranha-de-casco, mas cada minuto que passava sua situação piorava. Não saí de seu lado nem por um minuto, conversava com ele sempre que não estava gritando de dor, lembrava de como era tranquila a vida na fazenda e de como nos metemos nessa enrascada, mas não consegui terminar uma única conversa, sempre era interrompido por gemidos de dor cada vez piores.
Cada vez que Kaer passava a pasta de ervas em seu ferimento era evidente a melhora, mas em pouco tempo ele voltava a gemer e se contorcer de dor. A carne em volta do ferimento já estava ficando vermelha e o local da picada estava se abrindo.
Por mais uma vez Kaer limpou o ferimento, tirando a pasta verde que estava misturada por um líquido amarelo e pegajoso de cheiro muito ruim e logo em seguida cobrindo o ferimento novamente com mais daquelas ervas.
- Essas ervas deviam limpar o veneno do corpo de seu amigo – disse Kaer.
- Deviam?
- Sim, mas não estão. Acho que entrou mais veneno na carne de seu amigo que pensei.
- Você acha? Como assim você acha? Ele está morrendo e você...
- Acalme-se jovem humano – disse Taruk com sua voz de trovão colocando sua mão pesada sobre meu ombro – se ele pode ser curado Kaer achará a solução.
Kaer ficou calado enquanto examinava mais uma vez o corpo caído e inconsciente de Sebastian. As ervas estavam fazendo efeito mais uma vez, Sebastian estava calmo e parecia dormir um tranquilo sono, como se nada tivesse acontecido com ele.
Kaer levantou apoiando em seu próprio joelho. Toda a confiança em seus olhos que havia visto nesses dois dias não estava mais lá, via apenas incerteza e desconfiança.
- Não tenha tanta certeza, Taruk – disse Kaer – esse ferimento está além das minhas habilidades curativ...
- Como assim? – Interrompi kaer de forma enérgica - Quer dizer que ele vai mesmo morrer? Você não pode fazer nada? – eu disse desesperado.
Taruk e Kaer trocaram olhares em silêncio. Tinha certeza que eles sabiam de alguma coisa, alguma coisa que poderia salvar Sebastian.
- Vamos, respondam! – gritei desesperado, e então uma única lágrima escorreu pelo meu rosto. Uma lágrima de dor e tristeza. Não suportava ver Sebastian naquele estado, queria meu amigo de volta
- Talvez tenha uma solução – disse Kaer, e logo meu coração se encheu de esperança e curiosidade.
- E qual seria?
- Só uma pessoa é capaz de parar o envenenamento no corpo de seu amigo.
- E quem é?
- Ketua Apuã – disse Taruk antes mesmo que Kaer abrisse a boca.
- Então vamos levá-lo até Ketua Apuã para que...
- Não é tão fácil assim – disse Kaer com certa precaução na voz, estava muito claro que ele escolhia muito bem as palavras que iria usar– são quase dois dias de caminhada, é pouco provável que alguém na situação de seu amigo fique vivo por dois dias.
- Mas temos que tentar, não é mesmo? Se existe uma chance temos que acreditar nela – eu disse e Kaer concordou com a cabeça.
- Mas mesmo que conseguíssemos chegar até a aldeia com seu amigo vivo, não podemos garantir que Ketua Apuã use suas habilidades para curar um humano.
- Mas Ketua Apuã é bom, foi ele quem nos salvou a vida, nos protegeu de sermos mortos por... – não pude continuar a frase. Kaer queria nos matar quando nos encontrou perto da aldeia, mas nesses dois dias que estava conosco ele se mostrou de certa forma gentil e não queria magoá-lo com algum insulto.
- Ketua Apuã só fez o que fez de bom grado porque vocês não sabiam onde estavam e nem o que estavam fazendo, ele teve pena de vocês e os ajudou. Mas levar um humano para dentro de nossa aldeia é uma história completamente diferente, seria como se vocês convidassem um orc para o jantar.
- E seu pai? – disse Taruk se dirigindo a mim – você pretende abandoná-lo?
- Claro que não! – respondi de forma enérgica.
- Então o que você pretende fazer?
Fiquei em silêncio por um tempo analisando a situação. Meu pai estava nas mãos daqueles orcs nojentos e Sebastian a beira da morte. Sebastian precisava de mim, precisava do meu apoio. Eu sabia que Sebastian nunca me abandonaria, seja qual fosse a situação, seria injusto se eu o fizesse. Mas por outro lado se os orcs conseguissem chegar com meu pai dentro da montanha Parbat nunca mais o veria.
Caro leitor, se coloque na minha posição e você perceberá o quão difícil é tomar uma decisão dessas. O que você faria em meu lugar? Ficaria com seu leal amigo lhe apoiando? Ou o abandonaria quando ele mais precisou de você?
Virei-me para encarar os curupiras, tinha tomado uma decisão e estava disposto a pagar qualquer preço por ela.
- Irei atrás de meu pai!
- Mas são muitos orcs, você não conseguirá salvá-lo sozinho – disse Kaer.
- Não, não vou! Eu sei disso, mas preciso tentar. Não conseguiria conviver comigo mesmo se não tentasse.
- Entendo sua decisão – disse Kaer.
- Mas não conseguirei me concentrar se souber que Sebastian está morrendo sem qualquer cuidado.
Kaer se aproximou e apoiou sua mão em meu ombro.
- Farei o possível para que nosso Ketua salve a vida de seu amigo.
- Mas você disse que acha difícil ele curar Sebastian.
- Disse sim, e é verdade. Ketua Apuã não aceita o fato de humanos andarem por nossas terras.
- Mas como voc...
- Mas a palavra de seu único filho deve ter algum valor para ele, não acha?
Sim, caro leitor. Fiquei tão surpreso quanto você deve estar nesse momento. Kaer era filho de Ketua Apuã, aquele velho que fez truques de magia. Mesmo que Ketua Apuã não aceitasse humanos em sua aldeia alguma coisa me dizia que Kaer conseguiria convencê-lo a salvar Sebastian.
- Você é filho daquele vel... quer dizer de Ketua Apuã?
- Sim, aquele velho esquisito é meu pai – disse Kaer com um pequeno sorriso no rosto - Ele conhece segredos que poucos conhecem, mágicas que até os maiores mágicos nem imaginam que existam, ele é muito poderoso e ele saberá como salvar seu amigo, só preciso convencê-lo disso.
- Maravilha – eu disse entusiasmado – mas como vocês levarão ele até a aldeia?
- Meus músculos farão o serviço – disse Taruk – e se encontrarmos um tapir pelo caminho posso convencê-lo a nos ajudar.
- Eles são bem gentis e prestativos quando tratados com respeito – completou Kaer.
Caro leitor, nunca vi um tapir como um animal gentil e prestativo, eu o via apenas como uma caça. Caçava na floresta a mais de três anos e já cacei pelo menos meia centena de tapires, sua carne é muito apreciada e sua pele dá ótimas roupas. Sempre que Zarbo chegava à cidade procurava por mais peles e carnes de tapires e eu nunca tinha o suficiente.
Sabendo que Sebastian estava em boas mãos fui me preparar para enfrentar os orcs e libertar meu pai. Em minha sacola ainda tinha algumas frutas, o suficiente para dois dias se eu racionasse, mas o que mais me preocupava eram as minhas flechas, havia apenas oito delas.
- Pegue – disse Kaer.
Virei-me para ver de que o curupira estava falando e me surpreendi quando o vi tirando sua aljava das costas e me entregando.
- Não posso aceitar, são suas.
- Acho que você precisará mais do que eu, você concorda? E o veneno de Bás Tapa está ativo na flecha, tenho certeza que será de grande ajuda.
Apenas balancei a cabeça concordando. Não estava em condições de rejeitar qualquer ajuda. Mas me surpreendi ainda mais quando ele tirou seu arco de suas costas e o me entregou.
- Esse seu arco não tem força para perfurar a armadura de um capitão orc, use o meu.
- Mas... – não sabia o que dizer e mais uma vez apenas aceitei em silêncio.
- Esse arco é meu, e o quero de volta. Não vá perdê-lo por aí.
- Não senhor Kaer, não o perderei.
Estava feliz em ter tido alguma ajuda, mas a idéia de enfrentar um grupo de oito orcs, talvez até mais, não me deixava relaxar. Estava tenso e sem saber o que fazer.
Ajoelhei-me perto de Sebastian, ele estava em um sono profundo, talvez fosse o efeito das ervas ou seu corpo estava começando a aceitar o que parecia inevitável.
- Sebastian, amigo - minhas palavras eram pouco mais que sussurros - me perdoe por abandoná-lo quando você mais precisa de mim, mas acho que não sou mais útil aqui, Kaer e Taruk farão o possível para salvá-lo, já eu não posso fazer nada. Irei atrás daqueles orcs, salvarei nossa família e tudo voltará a ser como antes, você se lembra? Ovelhas com pelo branco e macio, o orvalho da manhã, o cheiro de café, tudo voltará a ser como antes. Peço apenas que fique vivo, que seja forte e resista...
Fui interrompido por uma mão em meu ombro.
- Precisamos ir – disse Kaer em tom consolador.
Enxuguei as lágrimas dos meus olhos com meu antebraço e me levantei, mas não antes de olhar mais uma vez para Sebastian. E com meu pensamento me despedi de Sebastian, não tinha certeza se o encontraria novamente, por isso era tão difícil para eu deixá-lo com os curupiras.
- A ponte de pedra fica a uma hora daqui, siga o rio e chegará – me explicou Taruk – depois continue por mais uma hora em direção a montanha e você encontrará uma trilha com mais ou menos dois passos de largura em meio as árvores, é essa a trilha que os orcs usam.
Concordei com a cabeça, apertei meu cinto e respirei fundo esperando que outra coisa além de ar entrasse em meu corpo, outra coisa como coragem, astúcia, força e inteligência. Iria precisar mais que algumas flechas para resgatar meu pai, sabia disso, mas mesmo assim não podia deixá-lo nas mãos de orcs, se eu não pudesse salvá-lo eu morreria tentando.
- Vejo vocês por aí – disse aos curupiras me virando para encarar o caminho até os orcs.
- Espero que sim, você está com meu arco – disse Kaer com um pequeno sorriso em seu rosto.
Não consegui sorrir de volta. Meu pensamento estava em meu pai e, principalmente, como enfrentaria oito orcs.

2 Blá blá blá!:

Odin disse...

Muito bom! E parabéns pelo novo layout do blog.

Aproveito para convidar-vos para conhecer nosso novo espaço:

http://asgardlegends.blogspot.com

Paulo disse...

Bom.

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