segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

O Diário de um Heroi - Capítulo X

           

Acompanhem também em: http://odiariodeumheroi.blogspot.com


 Naquela noite fria e mais escura que de costume foram poucas as vezes que consegui pegar no sono de verdade. Acordei várias vezes durante a noite, rolava de um lado para o outro, me sentava e olhava em volta. Via apenas um dos curupiras de vigília em pé no escuro longe das luzes da alta fogueira, por fim acabava deitando de novo na tentativa de dormir. Foi assim a noite toda.

         Meu pensamento estava em minha família, meu pai e dois de meus irmãos estavam nas mãos de orcs sujos e inescrupulosos, sendo maltratados e passando fome. No dia seguinte iria encontrá-los e a ansiedade tomava todo meu corpo e minha mente. Estava inquieto e querendo que o dia seguinte chegasse logo.
         Durante a noite, quando acordei por falta de sono talvez pela milésima vez, me levantei para beber um pouco de água em meu cantil. Sebastian estava em um sono profundo, o cansaço da longa caminhada que demos o esgotou, mesmo sendo muito forte sua força tinha limite e ele já havia alcançado o seu, mas tinha certeza que quando acordasse estaria pronto para mais uma caminhada daquelas.
         Quando procurei pelo curupira me surpreendi a não ver nenhum deles fazendo a vigília. Taruk estava deitado perto da fogueira abraçando o cabo de seu longo machado e resmungando palavras incompreensíveis. “Esse caso de amor de Taruk com o machado é mais sério do que pensava” pensei rindo mentalmente. Mas onde estava Kaer?
         Fui até o limite da luz da fogueira, não queria me arriscar indo para a escuridão, as chances de pisar em algum animal peçonhento era grande demais. Ouvia as calmas águas do rio Bruin bater nas margens enquanto corria lentamente, estava muito escuro e me esforçava tentando enxergar algo na penumbra, mas não havia nada lá. “Kaer deve estar olhando em volta” pensei. Mas quando me virei para voltar a dormir uma voz emerge exatamente de onde havia acabado de olhar.
         - Melhor voltar a dormir se quer enfrentar orcs amanhã.
         A voz era de Kaer, dessa vez consegui enxergar sua silhueta, se ele não tivesse falado comigo nunca o teria visto.
         - Não consigo – eu disse caminhando para perto de Kaer – só consigo pensar em como minha família está, preciso salvá-los Kaer, não tenho mais ninguém nesse mundo.
         - Eu sei como se sente, já passei por isso uma vez e não gostaria de ter que passar novamente.
         - Sabe? – disse surpreso – e como foi isso?
         - Foi há muito tempo atrás, meu filho ainda era um bebê. Eu estava patrulhando os limites da aldeia quando um grupo de orcs passou por mim, eram oito ou nove, não me lembro bem, mas me lembro que eram mais do que eu conseguiria enfrentar sozinho, eles estavam indo na direção da nossa aldeia. Taruk e mais alguns guerreiros haviam saído da aldeia para enfrentar um pequeno grupo de orcs ao pé da montanha.
         - Mas vocês não tinham mais guerreiros na aldeia?
         - Não muitos, sempre fomos um povo pacífico, nossa maior arma sempre foi o segredo e o silêncio, mantínhamos poucos guerreiros, algo entre doze, mas Taruk havia saído com mais da metade. Então me lembrei que durante a noite um patrulheiro havia me dito que um grupo de orcs havia sido visto saindo a leste das montanhas. Taruk estava indo enfrentar um grupo a oeste, que cortava as árvores e caçava os animais indiscriminadamente, e esse grupo que eu vigiava não era o mesmo que o patrulheiro havia visto durante a noite.
         - Eles estavam planejando um ataque?
         - Sim, um ataque em duas frentes. Eles sabiam que mais cedo ou mais tarde um grupo de guerreiros iria sair para acabar com o corte de árvores que eles mesmos estavam fazendo, com isso nossa aldeia estaria desprotegida. Um ataque em duas frentes nos forçaria a dividir o restante dos guerreiros em duas partes. Seria o fim da nossa aldeia.
         - E o que aconteceu?
         - Eu corri o mais rápido que pude para encontrar minha companheira e meu filho. Na aldeia eles já sabiam de um dos grupos de orcs, e já se preparavam para combatê-los, mas a notícia de outro grupo nos deixou com pouca esperança. Mandei Anauá fugir com meu filho para fora da aldeia e se esconder na floresta.
         - Mas os orcs poderiam encontrá-la antes, você não pensou nisso?
         - Pensei, mas deixá-la na aldeia seria pior. O relâmpago cairia na aldeia, ela teria mais chances fora de lá. Quando os orcs finalmente chegaram estávamos preparados, flechas voaram, machados giraram e muitos orcs foram mortos, eles eram mais de vinte e não mais que oito conseguiram fugir ao ver que a batalha estava perdida. Nós também perdemos alguns amigos e companheiros, mas a aldeia estava salva.
         - E o que aconteceu com Anauá e seu filho?
         - Se perderam na floresta. Procurei por três dias e duas noites inteiras sem parar para descansar até encontrá-los com um caçador humano.
         - Humano? – disse surpreso – e como você reagiu?
         - Fiquei espantado, logo imaginei que aquele caçador estava machucando Anauá e me preparei para disparar uma flecha, mas Anauá se colocou na frente dizendo que aquele homem era bom e que a estava ajudando, que havia até mesmo caçado para ela comer.
         - Interessante, mas não me lembro de uma história assim em Dorem.
         - Essa história há muito tempo já foi esquecida. Ela foi a mais de cem invernos.
         - Cem invernos? – disse assustado – mas você não parece ter mais que trinta.
         E realmente, Kaer tinha um corpo jovem e um rosto sem rugas, não era possível ele ser tão velho assim.
         - Talvez não aparente tanta idade para vocês humanos, mas nós curupiras temos longas vidas, um presente de Caateo para protegermos aquilo que ele criou. Um presente em troca de uma obrigação.
         - Caateo? Vocês são adoradores do deus das matas?
         Kaer concordou com a cabeça - E digo mais, os curupiras são criaturas de Caateo, ele mesmo nos criou, nos deu vida e longevidade conforme seus planos. Esses pés para trás que você achou engraçado, estranho e diferente é muito útil para enganarmos aqueles que tentam nos seguir.
         - Eu também sou devoto de Caateo, minha mãe me disse que ele me protegeu quando fiquei perdido na floresta.
         - Eu sei. Ketúa Apuã ouviu suas orações a Caateo, a oração primordial, aquela oração que deve ser dita quando acordar,...
         - ... antes de dormir e sempre que entrar na floresta – concluí a fala de Kaer antes que ele terminasse, minha mãe sempre me dizia isso.
         Kaer esboçou um tímido sorriso - Essa mesma – ele disse.
Conversei por mais algum tempo com Kaer, quanto mais ele falava mais me surpreendia sobre os curupiras. Suas histórias fizeram-me esquecer um pouco aquela ansiedade que não me deixava dormir e logo o sono voltou. Deitei novamente e dormi como uma pedra até que fui acordado por Sebastian.
- Acorde Gabriel, ou você ficará para trás – ele dizia enquanto me empurrava com o pé.
Ainda tinha muito sono e minha visão estava embaçada, mas consegui ver claramente Kaer e Taruk se preparando para continuar a caminhada.
- Levante logo – disse Sebastian me empurrando mais uma vez com o pé.
- Pare de me chutar – reclamei enquanto me sentava – já estou acordado.
- Vamos logo, eles já estão indo.
Então rapidamente vesti minha camisa. Ela estava suja e um pouco rasgada, mas ainda dava para usar mais alguns dias. A fogueira estava apagada, nem um pouco de fumaça subia dela, eles tinham o máximo de cuidado para não causar incêndios. Algumas frutas estavam amontoadas em um canto, os curupiras haviam colhido para o café da manhã.
- Peguem suas coisas e vamos – disse Taruk com sua voz rouca.
- Mas eu ainda não comi nada – eu disse.
- Da próxima vez durma menos – respondeu Taruk.
- Pegue algumas frutas e vá comendo, não podemos ficar mais tempo aqui – disse Kaer apontando para as frutas ao lado da fogueira apagada.
Não tinha escolha, apertei meu cinto com a espada, coloquei o arco em minhas costas e a faca na minha cintura, peguei duas frutas e comi enquanto andava atrás dos curupiras, mesmo se ficasse com fome ainda tinha em minha sacola muitas Uruçás, não tinha por que me preocupar.
Caminhamos sem parar margeando o rio, pulando árvores caídas e evitando animais peçonhentos. O sol já estava sobre nossas cabeças quando chegamos a um lugar incomum.
Era uma clareira com dúzias de ruínas de casas feitas de pedra, não havia uma única estrutura totalmente em pé, apenas muros baixos, outros altos e outros que ainda mantinham os formatos de onde um dia já tiveram portas. A grama e o musgo já cobriam boa parte do que sobrou das estruturas e grandes árvores já estavam em pé onde um dia foi a casa de alguém.
- Que lugar é esse? – perguntei aos curupiras.
- Essa é a antiga cidade de Verlat, uma cidade que foi habitada há muito tempo por aqueles que buscavam riquezas nas montanhas – respondeu Kaer.
- E por que a cidade está abandonada? – perguntou Sebastian à Kaer.
O curupira olhou para cima, era possível ver entre as copas das árvores a montanha Parbat, não era muito alta, mas era íngreme e seu topo formava uma ponta que lembrava a ponta de uma lança.
- Os humanos são ambiciosos, jovem Sebastian. Muitos humanos perderam suas vidas dentro da montanha procurando riquezas durante dias e noites sem parar, então eles enterravam os corpos ali – explicou Kaer apontando para um terreno sem construções, também não havia sinais de árvores nem arbustos, apenas gramas baixas.
- Eles não queriam parar a escavação para levar os corpos até Hipônia para enterrá-los – completou Taruk.
Kaer concordou com a cabeça e continuou a explicação.
- As covas eram rasas e os corpos contaminaram as águas e o terreno. Com o aumento de mortos a situação foi piorando, cada vez mais pessoas morriam pelos perigos da montanha Parbat ou pelas doenças disseminadas pelas águas e pelas comidas contaminadas. O que era apenas casos isolados se tornou uma praga que matou boa parte da população de Verlat. Depois disso as pessoas não tiveram mais interesse em voltar a Parbat.
- E foi aí que os orcs se aproveitaram? – perguntei à Kaer.
- Sim, eles viram um lugar nas montanhas que humanos evitavam e fizeram daquele lugar seu lar, mas eles nunca foram grande problema já que a tribo de orcs que vive em Parbat é pequena.
- Mas se é pequena por que nunca ninguém acabou com eles? – perguntou Sebastian, mas quem respondeu foi Taruk.
- Não é possível se orientar dentro da Parbat, os humanos fizeram um verdadeiro labirinto de corredores e salões dentro da montanha, qualquer um que arriscasse entrar ficaria perdido, e pelo tempo que os orcs estão lá eles conhecem Parbat como ninguém.
- Mas alguém já tentou? – eu perguntei.
- Já, na verdade foram inúmeras tentativas e todas fracassaram, as perdas de soldados foram tantas que os humanos resolveram patrulhar as estradas e cercar as cidades como melhor forma de se protegerem dos orcs – Kaer respondeu – Mas chega de conversa, a Ponte de Pedra está logo ali.
Mas no exato momento que Kaer terminou de falar fomos surpreendidos.
- Aranhas! – Gritou Taruk. 

0 Blá blá blá!:

Postar um comentário

LinkWithin

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...
Twitter Delicious Facebook Digg Stumbleupon Favorites More

 
Design by Free WordPress Themes | Bloggerized by Lasantha - Premium Blogger Themes | Facebook Themes