sábado, 3 de dezembro de 2011

O Diário de um Heroi - Capítulo IX

          Caro leitor, naquele momento não sabia o que pensar a respeito dos curupiras. Por um lado eles eram assassinos que se mantinham escondidos em meio às matas, mas por outro eram protetores de sua família e, até agora, se mostraram até mesmo "educados". Realmente não sabia o que pensar, mas esperava ansiosamente para descobrir mais sobre essas criaturas.
         Taruk jogou mais um pouco de lenha na fogueira que já estava alta, não entendi o porquê, afinal uma fogueira daquele tamanho seria mais que o suficiente para fazer comida e nos aquecer durante a noite.
         - Não acha que já está bom? – eu disse a Taruk, mais para puxar assunto do que qualquer outra coisa.
         - Ainda não – ele disse com calma – preciso de mais um pouco de fogo, talvez você nos faça um favor e se jogue nessa fogueira, o que acha?
         Engoli seco depois da resposta de Taruk. Já havia entendido que ele não era um curupira de muitas conversas, mas mais uma vez Sebastian não havia entendido o recado.
         - Senhor curupira, eu tenho uma dúvida – Taruk não queria conversas, mas me pareceu aceitar responder uma pergunta de Sebastian – como vocês falam tão bem a língua do Sul?
         Taruk se apoiou no próximo pedaço de lenha que iria jogar e com a mão livre enxugou o suor da testa.
         - Simples. Antes de matarmos os humanos, aqueles que iam bisbilhotar nossa aldeia, os torturávamos até que ele nos ensinasse tudo sobre sua cultura, inclusive a língua sulista – Sebastian arregalou os olhos, ele não esperava ouvir uma resposta daquela.
         - Não acredito! – eu disse sem pensar.
         - E não acredita por quê?
         - Não acho que vocês torturariam os humanos. Apesar de você, Taruk, tentar demonstrar raiva pelos humanos, eu acho que isso não passa de um teatro. Talvez você não tenha simpatia pela nossa raça, afinal nem eu tenho, mas não acredito que essa antipatia chegue a tal ponto.
         Realmente não acreditava que eles seriam capazes de tais coisas. No dia anterior a bondade do velho Ketúa Apuã nos livrou do que seria nossa morte, depois a boa vontade de Kaer estava nos levando até nosso destino e Taruk, apesar de não demonstrar claramente, se preocupava com a gente, sempre apontando os animais peçonhentos. Esses curupiras não eram ruins.
         - Não tenha tanta certeza disso! – disse Kaer ao sair de trás de algumas árvores com dois coelhos na ponta de suas flechas.
         Ele deixou seu arco e aljava perto de uma árvore ao lado do grande machado de Taruk, então arrancou os coelhos das flechas e os jogou para perto de mim.
         - Tire a pele e limpe-os.
         O tom de voz de Kaer era de ordem, mas ao mesmo tempo soava como se fosse algo corriqueiro, como se já fosse esperado que fizéssemos isso, como se fosse nossa obrigação.
         - Não sou seu escravo – disse com raiva.
         - Não! Não são. Vocês estão livres para partir quando bem entenderem – disse Kaer voltando até a árvore para retirar a corda de seu arco - mas se quiser que levemos vocês até a Ponte de Pedra vocês farão aquilo que ordenarmos.
         Realmente não tinha escolha, estávamos em um lugar na floresta que nunca havia estado antes e simplesmente voltar sozinho não era uma opção. Ainda com raiva peguei minha faca de caça e comecei a tirar a pele do coelho, “Pelo menos teremos coelho para o jantar, dos males o pior” pensei comigo tentando afastar qualquer pensamento ruim.
         Não levou muito tempo para que tirasse a pele de ambos os coelhos, tinha muita prática com esse tipo de coisa e minha faca estava muito bem afiada.
         - Aqui estão, Kaer – eu disse segurando os coelhos sem pele pelas patas – limpos e prontos para comermos.
         - Comermos? – disse Taruk – esses coelhos são apenas para mim e Kaer.
         - Mas eu limpei.
         - Sim, você limpou - disse Kaer levantando os coelhos - e fez um ótimo trabalho. Na beira do rio tem algumas árvores frutíferas, aproveite, mas cuidado com os animais.
         A minha dúvida sobre os curupiras estava começando a ser sanada, eles não eram tão bons quanto pensei que fossem, eles até tinham um ar de crueldade no tom de voz.
Então voltei para perto de Sebastian, ele estava sentado em uma pedra perto do rio, ao redor muita grama, arbustos e árvores, caminhei com cuidado sempre olhando para as árvores para não ser surpreendido por alguma cobra-cipó.
- Não se preocupe Gabriel, não tem nenhuma cobra, aranha ou qualquer outro animal aqui – Sebastian disse sem desviar o olhar fixo nas águas do rio Bruim.
- Está tudo bem? – perguntei enquanto me sentava ao seu lado.
- Não sei. Esses curupiras são estranhos, não dá pra saber o que eles querem da gente. Às vezes chego a imaginar que estão nos levando para a aldeia deles.
- E por que eles nos levariam para a aldeia?
- Você se lembra de Ketúa Apuã?
- Claro, o velho. O que tem ele?
- Ele estava usando magia, Gabriel. Ele controlava as plantas, as árvores, quem sabe do que ele é capaz?
- Não havia pensado nisso - eu disse levando minha mão até o queixo - mas se ele queria algo com a gente, por que não usar seus poderes e fazer, seja lá o que for, lá mesmo?
- Não sei Gabriel. Só o que sei é que as lendas sobre essas criaturas não são apenas lendas. Certa vez ouvi dizer que os curupiras transformavam pessoas em animais para proteger a floresta.
- Isso não passa de lenda Seba.... - Sebastian me interrompeu com certo rigor na voz.
- Até ontem pensávamos que curupiras eram lendas, e olhe para o lado, ali estão eles, o que impede que isso também seja verdade?
Sebastian estava certo, não sabíamos nada a respeito dos curupiras, talvez estivessem nos levando para uma armadilha.
- E o que você pensa em fazer Sebastian?
- Não sei, achei que você pudesse pensar em alguma coisa!
- Pensarei – mas naquele instante um sapo minúsculo parecia boiar na água, deixando a fraca correnteza o levar para a margem onde estávamos.
Ele não era maior que o comprimento de um dedo, quase em sua totalidade preto, mas em suas costas tinham cores vivas, ora parecia ser verde, ora azul e ora amarelo.
Aquele sapo era realmente bonito, sua combinação de cores e seu pequeno tamanho lhes davam um charme especial totalmente diferente dos outros sapos, que normalmente eram grandes, feios e com berrugas.
- Veja Gabriel, ele anda ao invés de pular – disse Sebastian se aproximando de onde estava o sapo.
Sebastian pegou um galho de árvore e se agachou. Com a vara ele cutucou o pequeno sapo que parecia não se sentir incomodado com a presença de Sebastian.
- Não brincaria com Bás Tapa se fosse você.
Foi Kaer quem havia dito. Ele caminhava com passos rápidos até a margem do rio onde estávamos sentados.
- E por que não? – perguntou Sebastian.
- Bás Tapa é um sapo extremamente venenoso, na verdade muito raro aqui na floresta Verde-Escuro.
Quando Sebastian ouviu a palavra “venenoso” logo se afastou do pequeno Bás Tapa com rapidez. Kaer arrancou da árvore uma grande folha verde e, com muito cuidado, enrolou o pequeno sapo.
- O veneno do Bás Tapa é o mais poderoso dessa floresta, ótimo para passar em flechas – Kaer disse com certa animação na voz, poderia dizer até que estava feliz com seu achado.
- Era mesmo um Bás Tapa? – perguntou Taruk ao se juntar a nós.
- Sim – respondeu Kaer – e me parece bastante jovem, seu veneno deve estar muito fresco. Pegue minha aljava Taruk.
Rapidamente Taruk trouxe a aljava de Kaer, deviam ter umas vinte flechas, talvez um pouco menos e todas tinham penas coloridas em suas pontas. Kaer tirou o sapo da folha com cuidado enquanto Taruk se preparava para segurar nas patas do pequeno Bás Tapa. Eu e Sebastian chegamos bem perto para poder ver.
- Se ele tem veneno, por que você está segurando em suas patas? Não tem medo de se envenenar? – perguntou Sebastian.
- Ssshhh – resmungou Kaer – façam silêncio.
Kaer estava concentrado, ele passava com muito cuidado a ponta de suas flechas nas costas do sapo.
- O veneno de Bás Tapa fica em suas costas, nessa parte colorida – cochichou Taruk tentando apontar com os olhos de onde ele falava.
Já havia escurecido quando Kaer havia terminado de envenenar suas flechas e a única luz que tínhamos era a da fogueira. O céu estava encoberto por nuvens, mas não tinha sinais de chuva nessa noite, ela seria bastante agradável. Os curupiras, depois de enrolarem o pequeno Bás Tapa na mesma folha verde de antes voltaram para a margem do rio e o soltaram.
Sebastian acompanhava tudo de perto e mais uma vez sua curiosidade foi maior que seu bom senso.
- Senhor curupira, se esse sapo é tão venenoso assim, por que você não fica com ele para passar em mais flechas? Assim suas flechas sempre teriam um poderoso veneno, não é mesmo?
O curupira foi na direção de Sebastian, tinha um pouco de decepção nos olhos, pelo menos foi essa a impressão que tive.
- Você disse que Ketúa Apuã é sábio, mas não aproveitou nada de sua sabedoria. – disse Kaer.
Sebastian estava confuso, não entendeu em que Ketúa Apuã e o sapo estavam ligados, então Kaer continuou.
- Vocês, humanos, se acham tão superiores a outras raças que não enxergam a vida em outros seres vivos, aquele sapo tem tanto direito de viver quanto eu ou você. Ele também tem o direito de proteger aqueles que amam. Não acha?
Sebastian permaneceu em silêncio, olhando para o rio enquanto os curupiras voltavam para perto da fogueira. E pela primeira vez Sebastian não teve nenhuma outra pergunta a fazer.

0 Blá blá blá!:

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