terça-feira, 15 de novembro de 2011

O Diário de um Heroi - Capítulo VIII

             

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- Vamos parar um pouco – disse Kaer após me derrubar com um empurrão.
         A tarde estava no começo quando paramos. Eu e Sebastian andamos por quase toda a manhã sem saber para onde íamos e sempre que eu um de nós perguntávamos alguma coisa recebíamos como resposta um tapa na nuca ou um empurrão. Nem uma palavra saiu da boca dos curupiras durante todo o caminho, ouvíamos apenas o som de nossos passos na grama molhada e de pássaros cantando. Cheguei algumas vezes a pensar ter ouvido conversas, algum tipo de ruído de roda de carroça ou de um martelo batendo em uma bigorna, mas acreditava que era apenas minha imaginação. “Nossos ouvidos e mentes são tão habituados com o barulho que a falta dele faz com que imaginemos coisas” disse-me Filelus uma vez.
O som do fluir de águas calmas finalmente chegava aos meus ouvidos, logo imaginei que estávamos perto de um rio.
         Kaer tirou minha roupa do rosto com violência, jogando-a em cima de mim logo em seguida.
         - Comam, bebam e descansem – disse Kaer apontando para uma árvore frutífera.
         Eu estava certo sobre o rio, logo ao nosso lado lá estava ele, fluindo calmamente em meio à mata. “Suas margens tinham mais de trinta passos de distância” pensei comigo. Suas águas eram escuras e até um pouco barrenta, imaginei que a chuva do dia anterior deveria ter causado aquilo, carregando para o rio o barro das margens, mas não, o rio Bruim sempre teve essa cor castanha.
         A árvore que Kaer apontou era uma Teoflorun, uma árvore não muito alta e com folhas verdes e grossas. Escondido entre suas folhas estavam os curaçus, uma fruta marrom que mal cabe em uma mão espalmada. Peguei um fruto do pé e com a faca o abri, sua polpa era branca e cremosa, entreguei uma metade a Sebastian e comi a outra, tinha um gosto doce forte, bem característico dessa fruta.
         Sentados em um tronco a beira do rio estavam Kaer e o outro curupira que ainda não sabia o nome. Kaer fingia comer a fruta despreocupadamente enquanto nos vigiava olhando disfarçadamente, mas o outro fazia questão de nos olhar fixamente, vez ou outra se apoiava em seu enorme machado querendo nos intimidar.
         Não conseguia parar de olhá-los, sua pele tinha um tom diferente, não era branco como eu e Sebastian, mas também não era uma pele escurecida pelo sol, tinha um tom vermelho, mesmo que fosse quase imperceptível. Seus cabelos eram de um marrom quase vermelho e seus pés eram virados para trás. Não conseguia imaginar como aquilo era possível, andar pra frente como se fosse para trás, era mínimo estranho.
         Kaer me pegou olhando para seus pés, mas não disse nada, apenas me encarou por algum tempo.
         - É ruim? – perguntei sem me dirigir a ninguém em especial.
         Os curupiras me olharam e depois se entreolharam, mas não disseram nada. Pegaram mais um pouco da polpa doce da fruta e comeram, mas não disseram uma única palavra.
         - É ruim ter os pés virados para trás? – perguntei olhando para Kaer.
         Seus olhos se encontraram com o meu, ele tinha algo de ameaçador nos olhos que não sabia explicar.
         - É ruim ter os pés virados para frente? - respondeu sem hesitar e logo após voltou a comer sua fruta.
Ele estava certo. Como aquilo seria estranho para ele se estava habituado desde que nasceu a ter os pés virados para trás? Ele nasceu e cresceu num ambiente que todos eram assim, o estranho para eles seria ter os pés virados para frente. Isso me fez ficar em silêncio e pensar sobre o assunto, mas não a Sebastian.
         - Mas senhor curupira – começou Sebastian em um tom explicativo - todos os outros seres vivos tem os pés para frente, estranho seria ter os pés para trás, assim como vocês.
         Kaer espremeu os olhos, estava claro para mim que ele não estava satisfeito com a conversa, quando ele se preparava para dizer algo foi Taruk quem disse primeiro.
         - Se quiser, jovem humano, posso virar seus pés para trás antes mesmo que você diga “Socorro!” – disse Taruk com sua voz rouca e se apoiando mais uma vez em seu machado duplo.
         Kaer esboçou um pequeno sorriso para Taruk.
         - Acho que não será necessário, Taruk – disse Kaer se levantando – já estamos de partida, ele precisará de seus pés se quiser nos acompanhar.
         - Que pena! – disse Taruk encarando Sebastian enquanto se levantava e apoiava seu machado em seu ombro direito.
         - Vamos deixar para fazer isso quando chegarmos à Ponte de Pedra – disse Kaer sem esboçar um único sorriso.
         Não acreditava de verdade que eles iriam nos matar apenas por fazermos perguntas ou tentarmos uma conversa, mas não era bom duvidar, afinal eles já haviam assassinado seres-humanos por descobrirem onde estava sua aldeia. Mas Sebastian não teve a mesma percepção que eu.
         - Senhor curupira... – Kaer olhou para cima, sinal que sua paciência estava se esgotando. Consegui tampar a boca de Sebastian rápido o suficiente para evitar que falasse mais alguma coisa.
         - Não acho que seja hora para conversas Sebastian – minhas palavras saíram pouco mais que um cochicho de canto de boca, mas Kaer tinha ótima audição.
         - Escute seu amigo, Sebastian. Ele parece usar o cérebro mais que os músculos.
         O tempo que paramos foi muito curto, suficiente apenas para engolir uma fruta e nada mais, não deu para recuperar o fôlego que havíamos perdido na longa caminhada com os olhos vendados. E para piorar a floresta era úmida e tinha o ar pesado, isso fazia com que sentíssemos ainda mais o desgaste físico de caminhar a passos rápidos por entre galhos e arbustos.
Não paramos até o fim da tarde. Subimos margeando o rio Bruin, um rio de águas escuras e com muitos perigos. Diversas vezes Kaer e Taruk nos alertaram sobre animais peçonhentos em árvores ou camuflados em pedras e galhos durante o caminho, verdade que algumas vezes eles diziam quando já havíamos passado por eles e sempre completava depois de apontar para o animal “... da próxima vez tome mais cuidado, o veneno dele lhe mataria antes que anoitecesse”.
Ainda bem que animais de pequeno porte têm mais medo de nós que nós deles, caso contrário teríamos recebido pelo menos uma dúzia de picadas de cobras-cipó, ou mesmo de aranhas-ponta-de-flecha, uma aranha muito pequena, mas com um desenho de uma ponta de flecha vermelha em seu dorso. Sua picada não é mortal, mas causa a debilidade do membro onde a picada aconteceu. “.. não raro é necessário cortar a perna ou o braço onde ocorreu a picada” dizia Kaer após explicar como essa aranha era venenosa.
O sol estava quase nos deixando, teríamos uma hora de luz, talvez menos quando Kaer parou mais uma vez.
- Vamos parar aqui – disse Kaer - É perigoso andar perto do rio a noite, saber onde pisa na floresta é a diferença entre a vida e uma morte dolorosa.
Agradeci em silêncio por poder descansar, minhas pernas mal sustentavam o peso do meu corpo, minhas roupas estavam encharcadas de suor e por mais fundo que respirasse não era o suficiente para manter o ar em meus pulmões. Sebastian não parecia estar numa situação muito melhor que a minha, mas ele conseguia enganar muito bem. Seu rosto não demonstrava tanto cansaço quanto sentia realmente, seus passos eram firmes e sempre mantinha o corpo ereto como se estivesse em uma marcha. Não posso dizer com certeza o que me levava a acreditar que Sebastian estava cansado, mas ele estava, e eu sabia disso. Ele podia enganar os curupiras, mas não a mim.
- Procure galhos secos, alguns finos e outros mais grossos – disse Taruk a Sebastian e a mim– precisamos de uma fogueira para toda a noite.
- Fogueira? – disse em tom de surpresa – isso não alertaria os orcs?
- Os orcs não passam por aqui – disse Taruk com sua voz rouca – eles têm medo dos animais venenosos que vivem perto do rio.
- Mas o que mais lhes causa medo é Agnot – Kaer disse complentando a fala de Taruk.
- Agnot? – Sebastian disse surpreso.
- Não conhece a história de Agnot, jovem humano? – Taruk disse em um tom ameaçador – um puma marrom do tamanho de um cavalo e garras tão afiadas que seriam capazes de decapitar um humano com apenas um golpe?
- Isso é apenas uma lenda! – eu disse querendo livrar aquela imagem da minha cabeça.
- Lenda, você diz! – disse Kaer se virando e me encarando – pois eu lhes digo que eu mesmo vi Agnot. Seu tamanho era assustador, seu rugido parecia um trovão e suas garras cortavam o pequeno cervo como uma faca corta a água. Lembro-me bem daquele dia, era fim de tarde, como esse agora, estava patrulhando os limites da floresta quando vi a criatura, estava em posição de ataque, mas não para me atacar, mas sim para atacar o cervo que pastava despreocupadamente. Agnot rastejou até uma posição em que seu bote seria certeiro, apesar de todo seu tamanho a criatura era silenciosa como uma brisa, e então com um salto voou até o pescoço da criatura. O cervo caiu imobilizado pelas potentes presas do felino, suas garras agarraram o lombo do animal estraçalhando sua carne. Eu fiquei ali parado, observando aquela criatura magnífica devorar sua presa, tentava imaginar o poder daquele animal. Quando finalmente me mexi para ir embora a criatura me ouviu. Naquele momento imaginei que minha estava acabada, mas Agnot não se mexia, apenas me encarava. Ele tinha algo de diferente nos olhos, não soube dizer o que era naquele momento. Então ele rugiu, era alto o suficiente para ser ouvido em toda a floresta, pensei que ele quisesse me dizer alguma coisa, algo como “saia daqui, ou lhe devorarei logo após esse pequenino cervo”. Então me virei e nunca mais o vi. Por muitas noites vi em meus sonhos aquele olhar, estava viva em minha mente aquela imagem, foram muitas noites em claro pensando em Agnot, então finalmente pude entender aquele olhar: ausência de medo. Agnot não teme nada e nem ninguém, ele é a criatura mais poderosa da floresta e ele sabe disso. Não são as criaturas venenosas que os assustam os orcs, eles não vêm até o rio sabendo que podem encontrar Agnot, por isso podemos acender nossa fogueira sem medo de sermos surpreendidos.
Fiquei em silêncio, sem saber exatamente o que dizer. Minha mente viajava nas lendas contatas pelos caçadores e lenhadores de Dorem quando ainda era uma criança. “Será que era tudo verdade?” pensava comigo mesmo. Não sabia dizer se Kaer dizia a verdade ou tentava apenas nos assustar. Mas meu pensamento foi interrompido por Taruk.
- Chega de histórias. Agora vão buscar os galhos para a fogueira. Olhem para o chão e para os galhos das árvores, as cobras-cipós são ótimas em camuflagem.
 Sebastian e eu saímos de perto dos curupiras para pegar lenha para a fogueira.
- Detestaria pisar em uma cobra-cipó – eu disse a Sebastian virando as costas para os curupiras.
- Eu detestaria encontrar Agnot – respondeu Sebastian.

0 Blá blá blá!:

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