sábado, 12 de novembro de 2011

O Diário de um Heroi - Capítulo VII


              

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Meus olhos viam, mas minha mente não acreditava. Curupiras, criaturas que pensava existir apenas em histórias para amedrontar crianças estavam na minha frente diante de meus olhos. Sebastian se debatia tentando se livrar das plantas que o agarrava e ainda não havia os visto.
- Sebastian! – gritei o mais alto que pude, mas a voz saiu desgrenhada e assustada, pouco mais de um sussurro na verdade, mas foi o suficiente para que ele ouvisse – curupiras!
Não consegui dizer mais nada, meu coração parecia que sairia do meu peito pela garganta a qualquer momento e meu estômago estava gelado como nunca antes, senti um frio na espinha que subia até o pescoço e fiquei completamente sem reação.
Sebastian se virou rapidamente para olhar na mesma direção que eu olhava, mas antes que pudesse distinguir qualquer coisa um pé o acertou bem no meio da testa, fazendo sua cabeça voltar violentamente de onde viera. O curupira que estava com o machado ria com sua voz rouca de trovão enquanto apoiava seu pé em meu amigo.
O outro curupira parou há uma distância considerável com uma flecha preparada em seu arco. Aquele arco era diferente de todos que já havia visto, os arcos a que era acostumado formavam uma curva única e comprida, como o que eu usava, mas aquele que o curupira empunhava tinha as pontas curvadas para fora e era bem mais curto que o meu.
O velho não parou e continuou até chegar bem perto de mim, ele era um pouco mais baixo que os outros dois e precisava olhar um pouco para cima para me encarar nos olhos. Tinha consigo um crânio humano com pinturas em vermelho e verde de animais, árvores e símbolos místicos que não tinha conhecimento na época, ele o segurava na palma de sua mão direita.
O curupira ficou ali parado me olhando, aquilo me pareceu uma eternidade mesmo que tenha sido por pouco tempo. Enquanto me olhava resmungava palavras sem mesmo abrir a boca. Então se virou para o curupira que usava o arco e lhe deu alguma ordem. As palavras eram curtas e fortes aos meus ouvidos. O curupira balançou a cabeça em concordância. 
- Quem é você, humano? - O curupira disse enquanto se aproximava de mim guardando o arco.
Estava muito assustado. Minha boca mexia, mas as palavras não saíam.
Com um único movimento o curupira tira uma faca de sua cintura e a coloca em baixo de meu queixo. Sentia a ponta afiada furar a pele da minha garganta e uma gota de sangue quente escorrer por meu pescoço.
- Melhor começar a falar humano, se dá valor a sua vida miserável! – ele dizia olhando dentro dos meus olhos com seu rosto a menos de um palmo do meu.
Eu não era muito mais alto que ele e por isso conseguia me encarar face a face. Respirei fundo tentando me acalmar.
- Gabriel – eu disse, mas não saiu mais que um resmungo.
Ele lentamente deu um passo para trás e tirou a faca do meu pescoço, mas ainda a segurava de forma ameaçadora.
- Diga-me Gabriel, o que você faz aqui?
- Estamos seguindo um grupo de orcs! – sem a faca no pescoço e um pouco mais calmo consegui juntar as palavras em uma frase.
- Orcs! Seguindo um grupo de orcs, você diz, pois está mentindo!
- Não é mentira! – disse assustado – estamos seguindo seus rastros há dois dias.
- Sabe por que eu sei que você está mentindo, Gabriel? Não vi nenhum orcs por aqui nas últimas luas. Então me explique como você pode ter seguido rastros de orcs até um lugar em que eles não estiveram?
- Posso lhe garantir que não sou mentiroso, senhor, nós...
- NÃO SOU SEU SENHOR – ele gritou ameaçadoramente enquanto levantava sua faca até meu pescoço. Fechei os olhos e virei o rosto instintivamente, mas não senti o toque gelado da lâmina.
Abri primeiro o olho direito, e quando vi o curupira andando de um lado para o outro abri o olho esquerdo.
O velho dizia alguma coisa em sua língua para o nervoso curupira e ele respondia de forma enérgica, estava claro que eles estavam discutindo, deduzi que o motivo éramos nós, me parecia o mais óbvio.
- Escute – comecei a falar com a voz tímida – não queremos incomodar, mas o que eu disse é a pura verdade. Há dois dias seguimos rastros de um grupo de orcs, mas a tempestade da noite passada apagou os rastros e chegamos até aqui por engano. Não sei onde estou, eu e meu amigo Sebastian estamos perdidos, se...
- CALE-SE HUMANO! – gritou o curupira apontando a faca em minha direção – Não quero saber de suas mentiras.
O velho levantou sua mão livre pedindo silêncio e veio até bem perto de mim. Apesar da idade avançada seus passos eram firmes e aparentava ótima saúde. Me olhou com ternura nos olhos, com certeza não queria meu mal.
- Kaer jovem... nervoso... esquecer Kaer – o velho não falava bem a língua comum, mas era compreensível. Concordei com a cabeça e ele continuou – Você perseguir orc... por quê?
- Os orcs invadiram a fazenda que minha família trabalhava, mataram quase todos, aqueles que sobreviveram foram levados como prisioneiros.
O velho coçava um pouco de barba que tinha no queixo enquanto resmungava alguma coisa em sua língua.
- Você bom... coração bom... eu ver... não olhos, mas ver.
Kaer, que estava logo atrás dele, se enfureceu. Ele gritava e apontava a faca para mim em forma de ameaças, ele não concordava com as atitudes do velho. E mais uma vez o velho pediu silêncio erguendo sua mão livre e Kaer obedeceu sem hesitar.
- O que ele disse? O que eu fiz para ele ficar assim? – perguntei ao velho.
- Kaer bom... defender família de Kaer... achar você matar família.
- Não quero fazer mal a nenhum de vocês, só quero a chance de salvar o que restou da minha família.
- Kaer não entender... Kaer achar você voltar... você saber onde Kaer morar agora.
Não sabia o que responder, se ele realmente sabia que os humanos eram capazes de caçá-los e matá-los pelos assassinatos de outros que chegaram até aqui antes de mim, ele estaria fazendo a coisa certa. Eliminar qualquer um que soubesse onde eles se escondiam era a única maneira de manter a salvo sua família.
Caro leitor, e se fosse com você? Tente imaginar uma situação em que nós humanos fôssemos uma raça reprimida pela violência de uma raça numericamente superior, e que essa raça caçasse qualquer um que fosse diferente apenas por prazer, pensemos nos orcs como exemplo. Imagine então que você morasse escondido de tudo, um lugar perfeito que ninguém antes havia encontrado, mas um belo dia aparece a sua porta um orc, o que você faria? Acho que já sabemos a resposta. Pode não parecer para você agora, mas se você parar para pensar é exatamente o que nós humanos fazemos com qualquer um que possa causar algum mal a nossa raça, rapidamente arrumamos uma boa desculpa para eliminá-lo e fazer com que sua existência nunca seja lembrada. Tem inúmeros casos assim por aí, basta você buscar em sua mente.
Não culpo Kaer por querer me matar, mas culpo alguns humanos por serem tão repressores e criadores de maus costumes que se espalharam por todos os humanos do mundo. Nossa fama não é boa nem mesmo dentro da nossa própria raça, tente conviver com essa realidade, amigo leitor.
- Deixe-me matar logo esse aqui, Ketúa Apuã – gritou com voz rouca de trovão o curupira que, logo em seguida chutou as costelas de Sebastian, ele tinha um nítido sorriso em seu rosto.
O velho Ketúa Apuã levantou a mão e o sorriso logo abandonou sua face, apesar da idade avançada era muito respeitado.
- Não morrer... livrar vocês... – disse o velho.
Kaer não estava satisfeito, ele sentia ódio dos humanos e não fazia questão de esconder. Ketúa Apuã  pronunciou palavras incompreensíveis aos meus ouvidos e fez um gesto de mão, parecia dar alguma ordem a árvore. A madeira que me envolvia reclamava do esforço rangendo enquanto era retorcida e, aos poucos, a árvore me largou.
Ainda estava sentado quando Kaer posicionou uma flecha em seu arco e apontou para mim, eu levantei os braços em forma de rendição. Não queria lutar, já tinha visto o que essas criaturas eram capazes de fazer e entrar em combate direto com eles seria burrice.
O outro curupira trouxe Sebastian pelo braço e o jogou para perto de mim com um chute, ele parecia se divertir com isso. Ketúa Apuã falou com Kaer durante algum tempo enquanto o curupira olhava para nós dois com um sorriso no rosto e balançando seu machado de forma intimidadora.
O nervosismo do curupira era óbvio, mas o velho parecia ter tudo sobre controle e Kaer foi se acalmando à medida que a conversa progredia. Não entendi uma única palavra que os dois trocaram, mas imaginei que se quisessem me matar já teriam feito.
Levou bastante tempo para que a conversa terminasse. Ketúa Apuã tinha um tímido sorriso no rosto quando veio falar comigo.
- Conversar com Kaer... ele dizer matar vocês... eu dizer que vocês ser igual ele, apenar proteger família – concordei com a cabeça, mas ele ainda não havia terminado – Orc ir montanha, levar pessoas...
- Você sabe onde estão os orcs? Precisamos encon....
Mais uma vez Ketúa Apuã levantou sua mão livre pedindo que eu parasse de falar. Então ele começou a falar pausadamente, como se quisesse me dizer que ele iria falar tudo que eu queria ouvir e que tivesse paciência.
- Orc ir montanha... caminho logo orc ir... dois sois... Kaer saber caminho um sol... Kaer levar vocês.
- Vocês sabem para onde os orcs estão levando nossa família e Kaer vai nos levar por um caminho mais curto? É isso?
Ketúa Apuã concordou com a cabeça e um largo sorriso preencheu meu rosto. Quando me levantava para agradecer, Kaer ergueu seu arco apontando-o para mim, aquilo me fez acreditar que ficar sentado ainda era a melhor opção.
- Não pense que faço isso por você ou sua raça, faço por Ketúa Apuã. Ele pensa que todos os seres vivos merecem respeito e devem ter a chance proteger aqueles a quem ama – Kaer dizia enquanto se aproximava.
- Ketúa Apuã é muito sábio – disse Sebastian com a voz tímida.
Kaer olhou para Sebastian e concordou com a cabeça - O caminho é difícil e deixarei vocês para trás se não puderem me acompanhar.
Acreditei que não teria dificuldades em acompanhar um ser com os pés virados para trás, afinal quão rápido ele poderia ser?
- Peguem suas coisas – disse Kaer apontando para as nossas armas – e lembrem-se disso, vocês seguirão minhas ordens sem questionar e qualquer coisa que acontecer comigo vocês serão os responsáveis. Aqui na floresta as árvores têm olhos e ouvidos, não se esqueçam.
Nós concordamos com a cabeça e corremos para pegar nossas coisas.
- Ah, já ia me esquecendo – disse Kaer – amarrem suas roupas na cabeça, vocês não poderão ver para onde vamos.

0 Blá blá blá!:

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