sexta-feira, 11 de novembro de 2011

O Diário de um Heroi - Capítulo VI

              

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               Sebastian lutava bravamente contra o galho enquanto era esganado. Rapidamente pendurei meu arco sobre meus ombros e corri sacando minha espada. Ergui-a alto sobre minha cabeça e cortei o galho com um único golpe.   Sebastian se sentiu aliviado colocando as mãos no pescoço.
                - O que foi aquilo? – me perguntou assustado.
                Eu não sabia responder, nunca em minha vida havia visto algo parecido. Estava assustado e sem saber o que fazer. Nunca havia acreditado em magia, seres mágicos ou coisas sobrenaturais e sempre procurava explicações para tudo, mas aquilo não tinha explicação.
                Ainda assustado não consegui responder a pergunta de meu amigo. Meus olhos estavam arregalados, a tensão sobre meu corpo era grande, estava esperando que outra daquela coisa voasse em nossa direção, mas dessa vez não veio do arbusto.
                Do chão sob nossos pés as gramas começaram a crescer de maneira inacreditável e enrolar em nossas pernas. As gramas não eram resistentes e conseguíamos arrancá-las com certa facilidade apenas erguendo o pé.
- Precisamos sair daqui rápido! – gritei com Sebastian.
 Mas a quantidade aumentou. As gramas, de poucas passaram a muitas e não conseguíamos mais nos livrar.
                Larguei a espada e puxei minha faca da cintura e cortei as gramas na base de meu pé direito, Sebastian tentava arrancá-las com as mãos. Mas de uma árvore outro galho voou em nossa direção, dessa vez agarrando fortemente meu braço com a faca. A força do galho era descomunal, não conseguiria me libertar, eu sabia.
                O galho me arrastou até a árvore de onde saíra. Palavras incompreensíveis saíam de minha boca aos berros enquanto era levado. Sebastian não conseguia se livrar da grama que já alcançava seus joelhos. Ele me olhava com olhar desesperado e confuso, ele queria se livrar para me salvar, mas não conseguia.
                Sebastian se desequilibrou numa tentativa frustrada de arrancar a grama presa em seu pé e caiu de costas no solo ainda barroso da floresta. Gramas e outras plantas enrolaram por todo seu corpo deixando apenas sua cabeça livre.
                O galho me arrastou até onde havia saído seu galho, me ergueu em seu tronco até que eu ficasse de pé e então galhos mais grossos se enrolaram por todo meu corpo num abraço sufocante. Olhava ao redor em busca de algo que pudesse me livrar daquela situação, mas não conseguia encontrar nada que me ajudasse.
                Olhava Sebastian preso no chão em resmungos de esforço na tentativa de se livrar das plantas que o prendiam, conseguia enxergar o céu azul com poucas nuvens brancas que passeavam preguiçosamente percorrendo toda a extensão celeste, enxergava também pássaros que voavam assustados pelos gritos a que eles não eram acostumados naquela calma floresta. Mas não enxergava nada que me livrasse do abraço mortal da árvore.
                Pela primeira vez vi minha vida escorrendo por entre meus dedos e, caro leitor, posso lhe garantir, é a pior sensação que alguém pode sentir. Total falta de controle sobre minha vida, isso quase descreve o que sentia, agora acrescente uma boa dose de medo e desespero e você terá uma ideia de como me sentia. Não foi a melhor coisa da minha vida, mas me ensinou a conhecer melhor meus medos e saber como agir diante deles.
Apesar de não acreditar em magias e misticismos sempre fui adorador do deus Caateo, o deus das matas. Diz a lenda que Caateo sempre vem a terra montado em seu gigantesco porco selvagem para proteger os animais, a floresta e também guiar pessoas perdidas nas matas, mas também é um deus vingativo, sempre agindo sem piedade contra aqueles que desrespeitam suas leis. Eu não havia desrespeitado nenhuma lei de Caateo, então esperava por sua ajuda.
Vi-me então repetindo a oração que aprendi com minha mãe, quando ainda era muito novo:
- Grande Caateo, senhor das matas e tudo o que há nelas, guia-me com sua imensa sabedoria por entre suas árvores, proteja-me de seus animais e forneça-me o que necessito para minha sobrevivência.
Caro leitor, dizem que quando vemos a morte de perto toda nossa vida passa diante de nossos olhos. Se isso é verdade ou não, não sei lhe responder, mas nesse momento me lembrei de um momento quando era muito jovem, quando tinha cinco ou seis invernos de idade. Certo dia, fui para a floresta com meu pai e meus irmãos, mas acabei me perdendo deles e desapareci em meio à mata. Levou quase toda tarde para que me encontrassem embaixo de uma árvore com filhotes de lobos-rubros que me lambiam e brincavam comigo. Minha mãe disse que Caateo me protegeu usando suas criaturas e, a partir daquele dia, antes de me colocar para dormir, ela repetia a oração do deus das matas e contava suas histórias de como era corajoso e enfrentava poderosos inimigos usando sua lança. Talvez tenha vindo daí minha paixão pela floresta Verde-Escuro.
Não sei ao certo se foi minha oração ou o que viria a acontecer, mas a árvore não me sufocava mais. Senti alívio, e o medo de morrer estava passando, “agora era apenas questão de tempo para conseguir me livrar e continuar meu caminho” pensava enquanto procurava algo em volta que pudesse me ajudar a escapar, mas um barulho me chamou a atenção.
Do meio de arbustos ouvia passos, galhos quebrando e folhas sendo amassadas. “Com certeza não é de animal”, estava claro pra mim, eram passos pesados e lentos. “Se forem orcs estaremos mortos” pensava enquanto olhava fixamente para a direção que vinha o barulho.
A minha frente havia uma enorme árvore com galhos que pendiam para baixo até a altura da cabeça de um homem e, por debaixo dos galhos, surgem três homens de baixa estatura, pelo menos foi o que pensei de início, deveriam ter a altura de um jovem ou um adulto pequeno.
O do meio possuía cabelos e pêlos brancos pelo corpo e pesadas rugas sobre seu rosto que indicavam sua idade avançada, carregava consigo um crânio humano com pinturas e desenhos, sobre sua cabeça e costas a pele de um lobo-rubro lhe dava uma clara importância entre eles. Os outros eram bem mais jovens e com cabelos de um vermelho quase marrom, um era muito forte, usava uma barba trançada até a altura do peito e levava consigo um machado de lâmina dupla apoiado em seu ombro, o outro era mais esguio, com uma magreza enganadora, já que seus músculos eram bem definidos, tinha em suas mãos um arco e carregava uma aljava carregada de flechas com penas coloridas. Todos vestiam apenas um tipo tanga vermelha e marrom feita de algodão que cobria a cintura e metade da coxa.
Não sabia o que sentia naquele momento, era uma mistura de alívio e medo. Alívio de não terem sido os orcs a nos encontrarem e medo de não saber quem eram essas pessoas.
Olhava atentamente para eles, o velho tinha uma feição tranquila e acolhedora em seu rosto, mas os outros dois possuíam ódio nos olhos. Tinha a impressão que levaria uma flechada entre os olhos a qualquer momento.
Não havia olhado para seus pés até aquele momento, afinal quantas pessoas você conhece que olhariam para os pés de pessoas armadas e mal encaradas? Não muitas, acredito.
Caminhavam de forma diferente para mim, talvez um pouco desengonçado, quando finalmente vi o motivo. Seus pés eram virados para trás.
- Curupiras! – exclamei para mim mesmo.

0 Blá blá blá!:

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