quarta-feira, 2 de novembro de 2011

O Diário de um Heroi - Capítulo V

Acompanhem também em: http://odiariodeumheroi.blogspot.com


Caro leitor, o destino não estava do meu lado dessa vez. Quando pensava que as coisas não poderiam ficar piores eis que me aparece uma família de lobos famintos, sedentos de sangue e com mania de proteção ao lar. Não, com certeza aquele não era o melhor dia da minha vida.
A chuva caía torrencialmente, os raios cruzavam o céu iluminando toda a floresta com seus clarões e os lobos estavam em nossa frente rosnando e latindo. Sebastian estava ao meu lado, ele me olhava sem saber o que fazer. Dei um passo para trás inconsciente na tentativa de fugir desses animais, mas um dos lobos percebeu e latiu de forma mais agressiva.
Levei minha mão até a espada, mesmo sendo melhor com o arco sabia que não poderia usá-lo já que os lobos estavam muito perto. Sebastian sacou lentamente sua espada e posicionou seu escudo em sua frente.
Mais um raio cruza o céu, mas esse caiu muito perto de onde estávamos. Os lobos se assustaram com o barulho ensurdecedor que o relâmpago fizera, e com o clarão iluminando toda a parte da floresta onde estávamos foi possível vê-los correndo para nos atacar.
Um deles veio em minha direção, com seus dentes a mostra pulou sobre mim, me joguei no chão a tempo de evitar a mordida do lobo, ainda de joelhos saquei minha espada. Um lobo saltou sobre Sebastian visando sua garganta, mas Sebastian o viu a tempo de pará-lo com seu escudo, o lobo bate com o focinho no escudo e cai de costas no solo barrento da floresta. Com o outro Sebastian não teve tanta sorte. O lobo correu e agarrou seu braço direito, aquele que ele segurava a espada.
Talvez fosse o medo ou a coragem de Sebastian, não sei ao certo, mas ele não deu um grito de dor mesmo com o lobo travando seus afiados dentes em seu braço. Sebastian bateu com seu escudo de madeira na cabeça do lobo, mas ele não o largou.
Então o lobo veio mais uma vez correndo em minha direção, como não tinha um escudo para me proteger coloquei a espada em minha frente. O lobo a agarrou com força e, balançando sua cabeça de um lado para o outro ele a arrancou de minha mão.
Sebastian bateu mais vezes com seu escudo na cabeça do lobo até que ele largasse, mas o outro lobo já estava recuperado da queda e pulava em suas costas. Sebastian sentiu o lobo agarrando e mordendo seu pescoço, ele não teve outra opção senão largar sua espada e agarrar o lobo. Ele o tirou de suas costas o jogando a alguns passos de distância.
Depois de arrancar a espada de minhas mãos o lobo saltou sobre mim, batendo suas patas em meus peitos e me derrubando, ele tentava morder qualquer coisa em meu rosto, mas eu segurava fortemente sua cabeça. Ele latia, rosnava e babava. Mesmo com toda aquela chuva era possível sentir sua saliva quente caindo em meu rosto e seu hálito podre entrando em minhas narinas.
Sebastian pulou em cima do lobo caído. Foram quatro, cinco, seis golpes na cabeça do lobo com seu escudo antes que o outro lobo cravasse sua mandíbula em seu pescoço.
Usando a força do meu corpo rolei para o lado, ficando por cima do lobo. Ele se mexia tentando escapar, mas consegui imobilizá-lo colocando minha perna sobre ele. Com meu antebraço esquerdo pressionava sua garganta enquanto buscava a faca em minha cintura com a mão livre.
Enfiei a faca em suas costelas o mais fundo que consegui, sentia seu sangue quente escorrer pelas minhas mãos enquanto girava a faca ainda cravada em seu corpo. Aos poucos percebi seu corpo mole e sem vida.
Apanhei minha espada no chão e corri até Sebastian. Segurei a espada com as duas mãos e golpeei, de baixo para cima, a barriga do lobo. A criatura largou Sebastian e se afastou lentamente, ele estava ferido e sabia que não poderia lutar mais. Ele ficou ali rosnando por mais um tempo e então correu para a escuridão da floresta.
Sebastian levantou com a mão no pescoço e corremos para nos abrigar da tempestade, vi que um pouco de sangue escorria entre seus dedos. Mesmo estando debaixo da árvore sentíamos as gotas geladas da chuva nos atingir, mas apenas aquelas que atravessavam toda a sua densa copa.
Era impossível acender uma fogueira, qualquer galho que encontrássemos estaria encharcado, iríamos ter que passar a noite na chuva. Olhei o ferimento de Sebastian, não era nada grave nem profundo, mas aquela ferida devia ser limpa e cuidada.
Com minha túnica limpei as ferida e pressionei os ferimentos até que parassem de jorrar sangue e depois amarrei pedaços da minha túnica em seu pescoço e sem seu braço.
- Lá se vai a minha túnica – gritei em seu ouvido.
- Não se preocupe Gabriel, eu lhe comprarei uma túnica nova assim que voltarmos – ele gritou de volta.
Eu realmente acreditei naquela frase, eu realmente esperava encontrar meu pai, voltar para Dorem e viver minha vida normalmente como qualquer homem deseja, mas nem sempre as coisas acontecem como a gente deseja. Aquela cidadezinha, de pessoas simpáticas e de autoridades corruptas, nunca mais estivera ao alcance de meus olhos.
A chuva caía de forma nunca vista antes, os ventos eram tão fortes que tínhamos a impressão de que seríamos arremessados a qualquer momento, raios e mais raios caíam e cruzavam o céu constantemente. Provavelmente os deuses não estavam felizes naquela noite.
Levou algumas horas até que a tempestade passasse e conseguíssemos cochilar um pouco ao pé da árvore. Para não termos outras surpresas, resolvemos revezar os turnos acordados durante o restante da noite. Não queríamos que orcs, lobos ou seres mágicos nos surpreendessem enquanto dormíamos.
Quando estava no último turno da noite ouvi sons de pássaros cantando um pouco antes que os primeiros raios de sol alcançassem o solo barrento da floresta. Vasculhei minha bolsa a procura de comida, mas o restante do pão estava molhado e impossível de ser consumido, o pó de café estava encharcado, talvez o deixando no sol por algum tempo poderíamos usá-lo, mas não nessa manhã. Para o arroz e o feijão precisaríamos de um fogo alto, e não acreditava que tivessem galhos secos suficientes para uma fogueira desse tipo.
Deixei minha bolsa e meu arco ao lado de Sebastian e então saí para procurar por alguma árvore frutífera. Não demorou muito até encontrar uma árvore típica da floresta Verde-Escuro, a Oleracea, uma árvore de tronco comprido e fino, com galhos finos apenas em seu topo e com folhas compridas e rígidas. Essa árvore era muito alta, tinha a altura de uns dez homens, mas sabia que em seus finos galhos continha o uruça, uma fruta nutritiva e saborosa que nos sustentaria.
Deixei minha espada no pé da árvore e tirei minha camisa, uma árvore desse tipo, fina e sem galhos, só podia ser escalada de uma única maneira. Amarrei as extremidades da camisa uma na outra e coloquei em meus pés, isso me daria à sustentação necessária para alcançar o topo da árvore.
Não levei muito tempo para chegar ao topo, com a faca cortei galhos inteiros, os jogando no chão para serem apanhados quando descesse. As bolinhas negras ficavam agarradas aos galhos, eram pequenas, mas em quantidade suficiente sustentaria até o maior dos homens. Cortei muitos galhos, daria para comer durante todo aquele dia, fiz o cálculo mentalmente.
Voltei para onde havíamos passado a noite com muitos galhos abarrotados em frutos e folhas. Sebastian já havia acordado e estava sentado olhando para um dos lobos mortos. Joguei os galhos em seus pés e pendurei minha camisa num galho da árvore para secar.
- O que é isso? – me perguntou Sebastian
- Uruça, fruto muito nutritivo, vai nos dar a disposição necessária para passarmos o dia.
Ele retirou um fruto do galho e comeu. Seu rosto de satisfação mostrou que havia gostado da fruta. Retirei alguns e comi também. Mas Sebastian mostrava pelos olhos que tinha alguma ideia.
- Será que podemos comê-los? – perguntou Sebastian apontando para um dos lobos.
- Acho melhor não pensarmos nisso, precisaríamos tirar sua pele, fatiar sua carne, armazenar em um lugar apropriado e salgá-los para que não estraguem. Não temos nem tempo e nem condições para isso agora.
Sebastian concordou com uma clara decepção nos olhos. 
- Pena, um pouco de carne para o almoço não seria nada mal.
Ele devia estar pensando nisso desde a hora que acordou, imaginei comigo mesmo e dei uma pequena risada que passou despercebido por ele. Retirei os frutos dos galhos e as guardei na bolsa, e então nos preparamos para continuar a busca.
Pense comigo, caro leitor, o que eu poderia fazer naquela situação? Estávamos perdidos na floresta, os rastros deixados pelos orcs estavam apagados e não tínhamos por onde recomeçar nossa busca por nossos familiares. O que você faria?
- Para onde vamos? – me perguntou Sebastian apertando o cinto de sua bainha.
Olhei para o céu, estava azul e límpido como nunca, se não tivesse passado por tudo aquilo na noite anterior não acreditaria que havia tido uma tempestade.
- Humn, não sei ao certo- respondi 
- Como assim não sabe? – Sebastian perguntou em tom de surpresa.
- A tempestade foi muito forte, Sebastian, apagaram os rastros deixados pelos orcs e realmente não posso dizer com certeza em que parte da floresta nós estamos.
Sebastian estava nervoso, e com razão. Por várias vezes me alertou sobre o perigo de seguir os rastros a noite ou de não pararmos quando a chuva estava para cair, mas estávamos muito perto dos orcs, estávamos muito perto de meu pai, não poderia perder aquela oportunidade. Minha ansiedade me cegou para todo o resto e meu erro colocou, não só a minha vida em risco, mas de Sebastian e de nossos familiares.
- Tudo que eu quero agora é salvar nossa família. Cometi erros, eu sei disso, mas não cometerei mais, não posso errar de novo – estava triste e sem saber exatamente o que fazer, mas tinha que começar a fazer algo.
Então pensei em voltar para onde estávamos antes da chuva cair. Filelus disse uma vez, “quando não souber para onde ir, volte para onde começou”. Ainda não conhecia Filelus, mas algo me dizia que era o melhor a ser feito.
A tempestade havia mudado um pouco a paisagem, galhos haviam caídos, folhas estavam espalhadas no chão se misturando ao barro e pequenas poças de água se formaram, seria bem difícil saber onde estávamos na noite passada antes da tempestade, mas procurava por qualquer sinal que me indicasse o local.   
Caminhamos de volta pela floresta, procurei em cada árvore, em cada galho caído no chão, mas nada poderia me indicar o caminho tomado pelos orcs.
- Nada ainda? – me perguntou Sebastian.
- Nada, mas não posso parar de procurar. - respondi com um meio sorriso no rosto
Então um barulho entre arbustos, um barulho de galho se retorcendo. Peguei meu arco e posicionei uma flecha, Sebastian preparou o escudo e sacou sua espada. Com a cabeça dei sinal para que ele olhasse de onde veio o barulho. Logo me passou pela cabeça que orcs poderiam estar a nossa espreita e esperava o momento certo para atacar. A medida que Sebastian se aproximava do arbusto mais rápido meu coração batia, estava nervoso, mas preparado para enfrentar o que saísse de lá.
Sebastian estava perto, o barulho da madeira sendo retorcida ainda chegava aos meus ouvidos. Sebastian deu mais dois passos para alcançar o arbusto, com sua espada empurrou alguns galhos para poder enxergar.
Ele se virou para mim erguendo os ombros em sinal de confusão. Não havia nada lá, ele me disse sem dizer uma palavra. Ele embainhou sua espada e voltava ao meu encontro quando um galho do arbusto voou com velocidade em sua direção enrolando em seu pescoço.

4 Blá blá blá!:

Igor disse...

uma coisa que aprendi com textos que escrevi: o cenário é mais importante do que os detalhes menores e as conversas, que geralmente nem são originais.

A não ser que os detalhes menores sejam o cenário. Como exemplo em livros de investigação policial, ou de tramas profundas e bem orquestradas.

o contexto de diário também não vai provocar alvoroço.

enfim, resolvi comentar pq já perdi muito tempo sem que lessem o que eu escrevia.

Igor disse...

adendo: rpgista é um bixo que lê livros.

acostumados com textos surpreendentes.

Não é facil se inserir nos minutos diários de leitura desse ser.

uma primeira má impressão e você terá que "sumir" por um tempo.

Mateus Soares disse...

Então vc não tá gostando? A primeira impressão que vc teve foi muito ruim?

Dragões do sol Negro disse...

Eu gostei!

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