quinta-feira, 13 de outubro de 2011

O Diário de um Heroi - Capítulo IV


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Caro leitor, ainda me lembro daquela floresta como se estivesse estado nela ainda ontem. O ar úmido, o vento suave, o cheiro das folhas verdes depois do orvalho da noite, o suave toque da grama, os sons dos pássaros cantando e dos animais que fugiam ao menor som que provocasse ainda eram vivos em minha memória. Realmente era uma linda floresta. Mas aquele era um momento que toda aquela beleza passava despercebida, a vontade de encontrar meu pai me cegava para todo o resto.

                Segui pegadas, rastros, cheiros e o menor galho quebrado que encontrasse por horas a fio, não parando nem mesmo para o almoço. Não sabia onde exatamente estava indo, e já tinha quase certeza que não sabia onde estava. Logo me lembrei dos contos infantis, de lenhadores e caçadores que entraram no coração da floresta e nunca retornaram. Não eram as histórias que me preocupava, mas a possibilidade de encontrar um puma marrom, um grande felino que habita o centro da floresta Verde-Escuro. Dizem que o puma é tão grande quanto um cavalo, que suas garras têm um palmo de comprimento e seus dentes são afiados como navalha. Acho que você concorda comigo, encontrar um puma marrom era mais preocupante que um ser mágico da floresta, se é que ele existisse mesmo.
                Sebastian me seguia sem questionar. Não sabia se ele era ingênuo demais para não saber que estávamos perdidos ou se ele confiava demais nas minhas habilidades que ele julgava que eu tivesse. Eu me permiti guardar esse segredo um pouco mais e esperar para ver se os rastros nos levavam a algum lugar.
                Quando faltava pouco tempo para a luz do dia nos deixar e a lua nos contemplar com seus fracos raios luminosos conseguimos alcançar um lugar interessante. Uma pequena clareira tinha sido lar de alguém por algum tempo. Restos de comida, ossos de animais e marcas de fogueira indicavam que eram mais que alguns que acamparam aqui.
                Sebastian e eu começamos a vasculhar o que sobrou do acampamento na tentativa de encontrar alguma pista que pudesse nos dar esperança em relação a nossos familiares. Ao empurrar um pedaço da madeira queimada onde foi a fogueira, um pouco de fumaça branca subiu e desapareceu rapidamente no ar, eles partiram há pouco tempo, duas horas, no máximo três.
                Sebastian me alertou para um pedaço de corda de cânhamo caída perto de uma árvore. Olhei mais atentamente, a árvore não era muito grossa, mas era firme. A parte de trás da árvore estava descascada perto de sua base, como se algo estivesse sido esfregado ali por muito tempo, como se alguém tentasse se livrar desesperadamente de uma corda em que estava amarrado.
                - Alguém foi amarrado nessa árvore, Sebastian – eu disse com bastante entusiasmo na voz – pode ter sido nossos familiares.
                Sebastian olhou as marcas na árvore com desconfiança, ele em momento algum tinha esperança de encontrar nossos familiares, aquele sentimento era apenas meu. Aquelas marcas na árvore aumentaram ainda mais minhas esperanças de encontrá-los vivo, pela primeira vez tínhamos conseguido alguma evidência de que eles eram prisioneiros dos orcs, mas saber que estavam nas mãos daqueles monstros me dava medo.
                Sebastian segurava o pedaço de corda com firmeza, mas eu estava entusiasmado demais para prestar atenção nas emoções de meu amigo.
                - Você realmente acha que meu irmão possa estar vivo? – me perguntou com lágrimas nos olhos.
                Sebastian era um homem alto, forte como um touro e com a determinação de um dragão, vê-lo quase chorar era estranho. Não tenho outras palavras para descrever aquela situação, era no mínimo estranho ver Sebastian daquele jeito.
                - Nunca acreditei tanto em uma coisa quanto acredito nisso – disse a Sebastian colocando minha mão em seus ombros – não sabemos ainda o motivo de estar levando nossos parentes vivos, mas eles estão vivos e isso é o que importa.
                Sebastian esboçou um pequeno sorriso, pela primeira vez a esperança invadira seu coração.
                - Você está certo, Gabriel. Então temos que nos apressar para encontrá-los.
                Concordei com a cabeça e dei dois tapas em seu braço. Era bom saber que ele estava do meu lado e que ele iria comigo até o final.
                - Acho que eles foram por ali – eu disse apontando com o dedo.
                - Você viu pegadas no chão? As marcas nas árvores lhe disseram? Eles deixaram algum sinal?
                - Sim, vi isso tudo, mas o cheiro é pior naquela direção – disse com um sorriso de satisfação no rosto – Sabe de uma coisa, Sebastian? Os orcs fedem muito.
                Ele sabia que eu não estava seguindo meu nariz, mas mesmo assim concordou com a cabeça.
                Seguimos os rastros até onde a luz nos permitiu, essa tarde escureceu mais cedo que de costume devido a nuvens negras que começavam a se formar. Iria chover a noite e essa era a pior notícia que um rastreador podia receber.
                - Péssimo sinal – disse a Sebastian apontando para as densas nuvens negras que se formavam.
                - A chuva irá atrapalhar. O que você pensa em fazer?
                - Não sei, podemos ficar aqui esta noite e esperar que ao amanhecer ainda tenha algum rastro a ser seguido ou acendermos uma tocha e continuarmos seguindo.
A chuva, por mais fraca que fosse, iria apagar rastros deixados e sinais importantes para a perseguição aos orcs. Por outro lado, acender uma tocha iria chamar muita atenção para nós, se não fosse a atenção dos orcs seria daquela criatura que nos observara durante a noite passada.
- Vamos comer um pouco e descansar, sempre penso melhor de barriga cheia – disse Sebastian baixando suas coisas.
- Podemos aproveitar a pouca luz e acender o fogo para fazermos arroz e carne, a chama fraca não chamará atenção de ninguém nesse fim de terde.
Em uma pequena panela sobre o fogo coloquei um pouco de tempero e um pouco de carne seca. A gordura da carne derreteu e fritou o tempero, misturei o arroz e logo em seguida completei com água. Não levou muito tempo para que o cheiro enchesse toda a floresta.
Comemos como nunca antes em nossas vidas. Aproveitamos o pouco tempo que paramos para comer e discutimos o que faríamos.
Teríamos que arriscar. Mesmo com a possibilidade de orcs, criaturas mágicas e animais selvagens nos encontrarem essa era nossa melhor chance. Procurei uma árvore muito comum nessa floresta, a Guandaraçá, uma árvore que é rica em óleo que atrasa a queima de qualquer material. Não foi difícil de encontrá-la, com minha faca fiz riscos em seu casco e um óleo verde começou a escapar. Em uma madeira enrolei um pedaço de pano que cortei de minha túnica e o embebedei naquele óleo.
- Pronto – disse a Sebastian – isso nos dará luz por aproximadamente duas horas, talvez três. Façamos mais duas dessas por garantia.
A luz da tocha feita com óleo de Guandaraçá era fraca, mas era constante e duraria mais tempo, era exatamente o que precisávamos naquela situação. Acendemos uma tocha e seguimos as pegadas e outros sinais que os orcs haviam deixado antes que a chuva chegasse.
A primeira tocha durou cerca de duas horas e conseguimos avançar muito para dentro da floresta. Verdade que durante o dia era bem mais fácil ver os rastros dos orcs e ,para piorar, a luz fraca da tocha não ajudava muito. Mas mesmo assim continuamos.
As noites de primavera em Dorem eram normalmente quentes e, não raro, chovia no fim dos dias e no início das noites com uma leve brisa fresca que deixava a noite muito agradável. Mas a noite estava ficando mais fria, os ventos mais fortes e o céu apresentava uma coloração alaranjada.
- Vem chuva forte por aí – disse a Sebastian com certa preocupação na voz.
Olhando pro céu ele concordou com balanço de cabeça.
- Talvez fosse melhor nos abrigar, procurar um lugar seguro e esperar a chuva passar.
Sebastian estava certo, a chuva que viria era forte e procurar um abrigo seria a coisa a certa a se fazer. Mas minha vontade de encontrar meus familiares me deixara cego.
- Não estamos longe dos orcs, Sebastian, eles estão viajando com prisioneiros, é noite e vai chover. Com certeza eles irão parar e será nossa chance de alcançá-los.
- E quando finalmente alcançarmos, o que faremos? Você já pensou nisso, Gabriel? Afinal eles não devem ser mais do que oito orcs, não é mesmo?
- Quero vê-los, Sebastian, preciso saber como eles estão.
- Escute Gabriel, quero ver meu irmão de novo tanto quanto você deseja ver seu pai, mas está vindo uma tempestade, e parece que é das grandes, se lançar no meio dela seguindo rastros que você nem sabe se é capaz de seguir me parece muito arriscado. Se você se perder nessa floresta agora, você estará colocando não só nossas vidas em risco, mas a de seu pai, de seus irmãos e de meu irmão.
Sebastian mais uma vez estava certo e eu mais vez uma cego pela vontade de encontrar o que restou da minha família não dei ouvidos. Pensava que se encontrasse os orcs antes que a chuva chegasse talvez poderia salvá-los no meio da confusão entre os trovões e relâmpagos, não era uma idéia brilhante, hoje eu posso admitir, mas era a única que tinha.
E então o pior aconteceu, pelo menos o pior até aquele momento.
A chuva desabou sobre nossas cabeças de uma forma inimaginável, mesmo depois de anos e anos de vida não cheguei a ver uma chuva como aquela. Raios riscavam o céu constantemente, os barulhos dos trovões eram quase ensurdecedores, o barulho das grossas gotas que caíam sobre nós permitia que conversássemos apenas com gritos ao pé do ouvido. Realmente as coisas não estavam favoráveis para nós.
Corremos procurando uma árvore com uma densa copa que permitisse qualquer proteção da chuva, por menor que fosse a proteção já seria melhor que estar ao completo relento. A tocha já havia sido apagada e estávamos nos guiando com a luz dos relâmpagos que cruzavam o céu constantemente.
Avistamos, graças a um clarão de um relâmpago, uma árvore não muito alta e de uma espécie com muitas folhas em sua copa, não iria ajudar muito, mas também não iria atrapalhar. Corremos na escuridão da floresta para nos protegermos da forte chuva, mas então o pior daquela noite ainda estava por vir.
Quando estávamos pertos o suficiente da árvore mais um relâmpago cruzou o céu e seu clarão de luz nos mostrou, deitados e encolhidos na base do tronco da árvore, animais enrolados uns aos outros, se protegendo da chuva. Um deles, aquele que tinha sua face voltada para nossa direção, rosnou mostrando seus dentes afiados. Os animais começaram a rosnar e a se levantar, seus olhos brilhavam na escuridão. Eram lobos-rubros, três deles na verdade, e não estavam felizes de dividirem a proteção da árvore com a gente.

0 Blá blá blá!:

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