domingo, 9 de outubro de 2011

O Diário de um Heroi - Capítulo II

 Acompanhem também em: http://odiariodeumheroi.blogspot.com
O monstro veio em minha direção. Não tive tempo de mirar, ou pelo menos pensei que não tivesse tempo. A flecha cortou o ar com um zunido atingindo sua coxa.
Aquele maldito monstro parecia mal ter sentido a flechada. Com sua mão livre ele arrancou a flecha, fazendo escorrer um sangue negro e pegajoso por sua perna. Enquanto ele retirava a flecha tive tempo de pegar outra e disparar. Mesmo sem mirar consegui acertar seu braço, justamente aquele que ele carregava a espada, mas dessa vez ele sentiu a flechada e deixou a espada cair.
Ele se agacha rapidamente para apanhá-la, então, com um só movimento, posiciono outra flecha e disparo, acertando logo abaixo de seu pescoço, fazendo o monstro cair para trás.
“Será que ele está morto?” pensei enquanto caminhava em sua direção com outra flecha pronta para disparar. Sangue escorria de seu pescoço, mas seus olhos ainda tinham um brilho que demonstrava que estava vivo. Seu peito subia e descia devagar, sua respiração estava começando a ficar fraca. Ele estava abatido.
Pendurei o arco em minhas costas e tirei a faca da minha cintura. Cheguei perto o bastante para sentir seu mau cheiro, me agachei colocando um dos meus joelhos sobre seu braço bom e o outro sobre seu peito. Ele virou seu rosto para me encarar e resmungou algo em sua língua. O fedor de seu hálito era forte, lembrava carne podre, tive que virar meu rosto de lado devido o mau cheiro.
A criatura não parava de me encarar. Ela tinha ódio nos olhos, mas um ódio não pela minha pessoa, não pelo seu assassino, mas sim por todos nós, humanos. Eu via em seus olhos desprezo pela minha raça. Algum tempo depois consegui entender aquele olhar, apesar dos orcs serem monstros eles se acham superiores a todas as outras raças.
Com minha mão livre agarrei seus cabelos em forma de trança e puxei fortemente para trás, e com a outra mão passei a faca em seu pescoço. Sangue começou a escorrer da abertura em seu pescoço e de sua boca, o monstro tentava respirar fundo, mas em vão. Estava morto.
Lembro-me perfeitamente daquele dia, minhas mãos sujas de sangue preto e viscoso, um sentimento que não sabia descrever tomava minha mente. Havia tirado uma vida inteligente, não importava que fosse a vida de um monstro, mas era uma vida.
Olhando o corpo do orc no chão sangrando me veio, então, a imagem de minha família. ”Será que os orcs haviam chegado à fazenda?”, minha mente viajou até lá, senti um nó no estômago, um pressentimento me dizia que algo de ruim estava acontecendo em Dorem.
Sem nem pensar corri por entre árvores e galhos, corri pulando por cima de pedras e árvores caídas, corri como nunca antes na minha vida.
Alcancei, finalmente, a estrada comercial. A estrada estava calma demais, não havia movimento de mercadores em pleno domingo. “Algo muito ruim está acontecendo”, pensei enquanto tomava fôlego para continuar correndo.
Minhas pernas já reclamavam do esforço intenso e meus pulmões não conseguiam manter a respiração necessária que meu corpo pedia, mas mesmo assim não podia parar de correr. Estava perto de onde encontrei aqueles guardas, então por que iria parar naquele momento? Apesar de egoístas e corruptos eles não negariam ajuda a alguém que estivesse indo enfrentar aqueles monstros.
Com as pernas bambas e corpo cambaleando consegui chegar onde estavam os guardas, mas preferia não ter chegado. Os três guardas estavam caídos, flechas de pena preta estavam cravadas por todo corpo. Quando cheguei mais perto percebi sinais de golpes de espadas. “Deviam ser muitos” pensei. A terra já havia engolido o sangue e apenas manchas escuras espalhadas pelo local estavam à mostra, os respingos de sangue espalhados por todo o local indicavam que houve luta, talvez no início da manhã.
A estrada comercial levava a muitos lugares, inclusive a cidade. “Para ter havido luta contra três guardas eles não deviam ser mais que sete, talvez oito orcs. Número pequeno para uma invasão a cidade”, a medida que raciocinava sobre o caminho que os orcs poderiam ter tomado me convencia cada vez mais de que haviam ido para a fazenda Ovelha Branca, onde estava minha família.
Novamente me pus a correr, mas não demorou muito para que encontrasse indo na direção contrária meu grande amigo Sebastian.
- Ainda bem que lhe encontrei – disse Sebastian quase sem fôlego.
- Sebastian, o que faz aqui? Meus pais estão bem?
Enquanto falava percebi que Sebastian estava com sua espada na cintura e um ferimento no braço.
- O que houve Sebastian, me diga!
Ele estava claramente abalado, com certeza ele tinha algo a me dizer e estava escolhendo as palavras certas enquanto fingia recuperar o fôlego.
- Você não me dirá, então descobrirei sozinho!
 Com passos firmes comecei a ir em direção a fazenda, determinado a enfrentar qualquer um que cruzasse meu caminho, orc ou não. Mas Sebastian segurou firme em meu braço, tentei escapar, mas ele era mais forte e com um puxão me virou para que eu o encarasse.
- Estão mortos!
- O que? De quem você está falando? – disse isso sem nem pensar nas minhas palavras. Estava abalado e cansado.
- Nossos pais estão mortos Gabriel, nossa família, toda ela.
Talvez fosse o sangue que não estivesse chegando bem ao meu cérebro, talvez não quisesse acreditar naquilo que meu amigo havia dito, mas ignorei a notícia e continuei andando. Sebastian não me segurava mais, ele estava parado na estrada me vendo ir para a fazenda.
- Gabriel – gritou meu amigo, mas nem sequer olhei para trás.
Não podia acreditar naquilo, como meus pais estavam mortos? Ainda a pouco estava tomando um delicioso café da manhã com eles. Com certeza era alguma brincadeira de Sebastian, quando chegasse à fazenda iria encontrá-los trabalhando, podando o pelo das ovelhas. Era o que eu queria acreditar, mas bem no fundo sabia que meu amigo estava certo.
Quando cheguei à fazenda já era quase meio-dia, Sebastian estava comigo, ele disse que apesar de não querer ele precisava ver com os próprios olhos.
Rastros de destruição eram visíveis desde muito longe. A casa principal estava em chamas e parte da cerca estava quebrada. Então corri para alcançar a fazenda.
Não podia acreditar no que estava vendo, corpos queimados pelo chão, alguns pendurados pelo pescoço em árvores, outros simplesmente com cortes de espadas pelo corpo.
Vendo aquilo Sebastian começou a chorar, as lágrimas caíam pelo rosto sujo de meu amigo e então lágrimas começaram a escorrer dos meus olhos também. Sebastian colocou seu braço em volta do meu ombro em sinal de consolo, mas ninguém ali podia ser consolado naquele momento.
- Como isso aconteceu? Por que você não ficou aqui? – Perguntei a Sebastian tentando achar um culpado para aquilo tudo.
- Não foi idéia minha sair daqui correndo, se você quer saber. Quando a primeira flecha voou em nossas direções e os primeiros orcs começaram a aparecer eu estava ao lado de seu pai. Queria ficar e lutar ao lado dele, mas ele me agarrou pela camisa e me fez prometer que lhe encontraria e ficaria ao seu lado caso o pior acontecesse. Eu prometi a seu pai que sempre ficaria ao seu lado – Sebastian era um ótimo amigo, forte, corajoso e determinado, com certeza ele ficaria e lutaria mesmo sabendo que seria uma batalha perdida.  
As lágrimas escorriam dos meus olhos marcando sua passagem em meio à poeira que tomava todo meu rosto. Sebastian ficou ali, do meu lado chorando em silêncio.
Ainda abalados começamos a andar pela fazenda em meio aos corpos procurando cada um de nossos pais e irmãos, para depois colocá-los embaixo da grande árvore que ficava em frente à casa principal da fazenda. Eles mereciam um funeral digno e teríamos que dar isso a eles.
Enrolados em lençóis embaixo da grande árvore estavam dezesseis corpos, mas havia uma coisa estranha.
- Sebastian, não encontro o corpo de meu pai e de dois dos meus irmãos – eu disse para meu amigo enquanto ele enrolava com cautela em um lençol um dos corpos de seus familiares.
- Ainda não encontrei um dos meus irmãos também – respondeu ele enxugando suas lágrimas com seu antebraço. Ele estava claramente abalado, mas estava controlando muito bem suas emoções. Sebastian não era apenas forte fisicamente, ele era como uma fortaleza mental, sua vontade era inabalável.
Naquele momento uma ponta de esperança tomou meu coração e minha mente.
- Os orcs Sebastian, eles levaram nossos familiares.
- O que... o que você disse? - Sebastian parecia não ter ouvido o que eu disse, ou então não queria ter ouvido.
- Sim Sebastian, qual outra explicação você pode dar para não encontrarmos nossos familiares? Os orcs os levaram.
Sebastian veio em minha direção enquanto dizia.
- Muitas delas, talvez estivessem na casa atrás de você que está pegando fogo, ou então seus corpos estão jogados em algum canto da fazenda que ainda não procuramos.
- Eu sei que parece imposs....
- Gabriel – Sebastian me interrompeu de forma enérgica – não vamos alimentar falsas esperanças, vamos apenas aceitar que nossos familiares estão mortos.
Então eu olhei a minha volta, a fazenda que havia sido criado estava destruída, minha família morta e meu pai e meus irmãos desaparecidos. Alguma coisa me dizia que eu estava certo, meu coração dizia que eles estavam vivos.
Comecei a andar em direção a minha casa com passos largos. Em uma sacola coloquei alguns pães, duas canecas de metal, pó de café, uma pequena panela, uma colher, um pouco de arroz, feijão e carne seca. “Comida suficiente para quatro dias se eu racionar”, tentei calcular mentalmente. Fui até o quarto e peguei minha espada, não era grande, é verdade, mas era afiada, seu peso era concentrado em seu cabo e isso dava um ótimo balanço a ela.
Quando voltei Sebastian havia desaparecido. Todos os corpos estavam enfileirados e enrolados em lençóis ou cobertores debaixo da grande árvore, mas ele não estava lá. Apertei o cinto da bainha que segurava minha espada, joguei a túnica preta sobre minha cabeça e comecei a andar em direção floresta Verde-Escuro mais uma vez nesse dia.
Virei-me pela última vez para olhar a fazenda, contemplar a beleza daquilo que ainda hoje cedo era belo, era meu lar. Pela última vez então eu vi a fazenda Ovelha Branca.
- GABRIEL, eu vou com você.
Era Sebastian. Mesmo com toda a dor em seu peito e com pouca esperança em sua mente ele iria comigo. Ele carregava consigo uma espada e um escudo de madeira pendurado em suas costas.
- Prometi a seu pai que nunca lhe abandonaria, lembra?
Sebastian disse com um pequeno sorriso em seu rosto, o único sorriso que foi dado naquele dia por qualquer um de nós dois.

2 Blá blá blá!:

Paulo disse...

Gostei vou acompanhar.

Mateus Soares disse...

Obrigado Paulo... pode acompanhar que essa história vai ficar muito boa!

Postar um comentário

LinkWithin

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...
Twitter Delicious Facebook Digg Stumbleupon Favorites More

 
Design by Free WordPress Themes | Bloggerized by Lasantha - Premium Blogger Themes | Facebook Themes