quarta-feira, 5 de outubro de 2011

O Diário de um Heroi - Capítulo I


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Por onde começar a história de uma vida inteira? Como colocar em um pedaço de papel as emoções que tive? Como levar você, caro leitor, a imaginar os lugares que passei, as pessoas que encontrei?
São tantas pessoas, fatos, imagens e segredos a contar que não sei por onde começar. Passei por muitos lugares, encontrei e reencontrei pessoas boas, pessoas que se tornaram meus amigos, mas também pessoas que não gostaria de sequer ter conhecido. Conheci segredos obscuros, que seria melhor, eu acho, não ter tido conhecimento. Estive com mulheres, muitas delas na verdade, mulheres diferentes desde sua cor de cabelo até sua cor de pele. Enfrentei inimigos poderosos, combati criaturas que pensava existir apenas em meus piores pesadelos.
De tantas pessoas que conheci posso dizer com toda certeza que o mais esperto deles foi o fabuloso Filelus. Dentre tantas coisas que me disse uma delas foi “sempre comece do começo”. Pode parecer simples demais, ou então estúpido demais, mas são poucos aqueles que sabem como começar do começo. Filelus foi um grande amigo e companheiro, falarei dele mais tarde.
                Então, começarei do começo. Nasci e cresci em Dorem, um vilarejo pequeno e afastado das grandes cidades. Dorem era governada pelo Barão Césio Carlos Humberto Cavalier III, ou simplesmente Barão Césio ou ainda Césio III, que recebeu o dever de proteger e governar Dorem diretamente do rei. Césio III governou a cidade até sua morte, que ocorreu durante uma invasão de Orcs.
                Minha infância foi simples e feliz, meu pai era trabalhador de uma das fazendas de Dorem, uma fazenda de criação de ovelhas chamada “Fazenda Ovelha Branca”, quando paro e tento me lembrar daquela época às vezes consigo até mesmo sentir o cheiro de terra molhada depois do orvalho da noite, consigo sentir a textura do pelo das ovelhas e ainda consigo ouvir o barulho de dezenas delas berrando.
Meu pai era um homem velho, pai de seis filhos homens, sendo eu o mais novo. Ele sempre me levava para a fazenda e eu sempre tentava ajudá-lo alimentando as ovelhas ou guardando os pelos no galpão durante a primavera. A primavera era minha época favorita, era quando acontecia a poda das ovelhas, já que com a chegada do calor elas não precisavam mais daqueles montes de pelos brancos. No galpão montes e montes de macios pelos brancos se amontoavam formando um brinquedo ideal para crianças. Lembro-me que eu e meu irmão subíamos até o alto do galpão e então pulávamos. Era como se por um instante pudéssemos voar. Bons tempos aqueles, e ótimas lembranças também.
Mas como tudo na vida o tempo também passa, e com ele leva nossa pureza e inocência.
Anos mais tarde notícias de ataques orcs a cidades vizinhas começaram a preocupar as pessoas em Dorem. Não era nada grandioso, apenas saques a fazendas ou assaltos nas estradas, mas infelizmente eram raras as vezes que alguém sobrevivia ao encontrar um orc em seu caminho. Preocupado, meu pai comprou armas, espadas velhas um pouco enferrujadas e arcos e flechas para caça de animais pequenos. Hoje posso dizer com toda certeza que aquelas armas não deteriam nem mesmo um orc fraco, doente e ferido, mas aquilo nos trouxe um pouco de esperança e sossego.
Nos fins de tarde, quando o trabalho na fazenda já havia terminado, nosso pai nos ensinava a manejar as espadas, como bloquear, atacar, como se posicionar em um combate e todos os truques que ele conhecia. Ele nunca nos disse onde aprendeu tais coisas, mas também nunca perguntamos. Eu era muito bom com a espada, diziam meus irmãos, mas minha especialidade era o arco. Meu pai disse uma vez que se continuasse treinando daquela maneira em pouco tempo poderia acertar as asas de uma abelha em pleno o vôo, exagero, é claro, mas saber que até mesmo meu pai via em mim um potencial grandioso me motivava ainda mais a continuar treinando.
Junto com a gente treinava um dos filhos de nosso vizinho, Sebastian. Ele tinha a minha idade, mas já era maior e mais forte do que eu. Sebastian e eu passávamos a maior parte do tempo juntos, trabalhando na fazenda ou treinando com espadas. Anos mais tarde ele provou ser meu maior amigo.
Algum tempo depois aconteceu o que todos imaginavam, e é aqui que começo a minha história.
O ano era de 1321, tinha dezoito invernos de vida e era o melhor arqueiro de Dorem. Deixei de ser fazendeiro com meu pai para ser caçador de animais. A floresta Verde-Escuro era cheia de animais para caça, como felinos selvagens, lobos e cervos. Tanto a pele desses animais quanto a carne eram de grande valor em boa parte do mundo. Os negócios iam bem, todo mês um mercador simpático de nome Zarbo chegava com sua carroça vazia e bolsos cheios e partia com a carroça cheia e bolsos vazios.
Com o dinheiro extra consegui dar uma vida um pouco melhor para minha família, comprei calçados e roupas para todos. Minha mãe ganhou também panelas de ferro para cozinhar e meu pai um cavalo, que ele deu o nome de “Caçador” em minha homenagem. Pra mim comprei um arco realmente bom, uma espada afiada e uma faca de corte com a lâmina de um palmo de comprimento. A vida seguia bem, sem maiores problemas ou confusões em Dorem.
Era uma manhã de domingo, o sol ainda não havia aparecido e já estava de pé tomando uma caneca cheia de café e comendo um pedaço de pão que minha mãe havia feito, na mesa meus irmãos e meu pai já prontos para mais um dia na fazenda de ovelhas. Normalmente não ia caçar aos domingos, preferindo passar esse tempo na fazenda ou em casa com minha mãe, ou mesmo organizando as peles dos animais, mas Zarbo iria passar em breve e queria ter mais peles para vender.
Bati a caneca vazia na mesa e comecei a andar ainda com um pedaço de pão na boca.
- Gabriel – disse minha mãe para mim – tome cuidado!
Minha mãe estava especialmente preocupada naquele dia, talvez fossem as notícias cada vez mais frequentes de orcs na região ou talvez seu pressentimento materno.
- Não se preocupe mãe, dizem por aí que tenho olhos nas costas – disse despreocupado.
Ela então agarrou minha mão com suas duas mãos. Estavam geladas e seus olhos tinham um brilho diferente, um olhar de tristeza estava estampado em seu rosto. Um calafrio percorreu todo meu corpo e por um instante não soube o que dizer.
- Que os deuses lhe acompanhem.
Essas foram as últimas palavras que ouvi de minha mãe.
Tantas coisas a serem ditas, tantas coisas que nunca disse a minha mãe e a única coisa que pude dizer foi:
- Os deuses sempre estarão conosco!
            Mesmo que sua boca não dissesse nada, seus olhos me disseram mais coisas que mil palavras pudessem explicar. Percebi alí o quanto era amado e querido e que ninguém mais no mundo se preocuparia comigo daquele jeito.
“Eu te amo, minha mãe”, palavras que deveriam ter saído de minha boca naquele momento e não saíram. Inúmeras vezes repeti isso durante toda minha vida pensando que em algum lugar ela pudesse ouvir. Como conviver com o arrependimento de não ter feito algo? Será que alguém é capaz de descrever tal dor?
Então virei as costas e fui em direção a floresta Verde-Escuro. Nem por um instante olhei para trás, mas eu sabia que minha mãe estava a porta com as mãos juntas embaixo de seu queixo, rezando para que nada de ruim acontecesse comigo. Mesmo sabendo disso não olhei para trás.
Sempre que ia para a floresta caçar pegava a estrada comercial, uma estrada comumente usada por mercadores de Dorem para levar as mercadorias da fazenda para a cidade. Era uma estrada larga de terra batida com árvores espaçadas a volta. A guarda da cidade sempre cuidava da segurança dessa estrada, por um preço bem camarada, é claro.
E lá estavam eles, três deles na verdade, com suas armaduras de metal e espadas bem afiadas, em seu peito o tabardo com o símbolo de Dorem, um pássaro negro de asas abertas em um fundo amarelo. O sorriso estava estampado no rosto dos três:
- Uma moeda de cobre, caro viajante.
- Uma moeda de cobre, certo? Deixe-me ver se tenho – disse mais para mim mesmo do que para os guardas enquanto procurava a moeda em meus bolsos.
- É bom que tenha.
- Se quiser passar – disse o guarda ainda com o sorriso largo em sua boca de dentes amarelos.
Essa era a guarda da cidade, ou pelo menos três de seus soldados. A guarda era em sua maioria corrupta, o dinheiro arrecadado de pedágios das estradas dificilmente chegava aos caixas do barão Césio. A grande maioria dos guardas era destinada a proteção do barão sendo o restante, normalmente aqueles corruptos e de péssima índole, usados para a nossa proteção. Proteção essa que não víamos, já que comerciantes eram constantemente alvos de assaltos nas estradas. Aqueles que podiam contratavam mercenários para proteger as mercadorias, mas a maioria dos comerciantes não tinha condição de usar esse artifício.
- Aqui está senhor – disse entregando uma moeda de cobre na mão calejada do guarda.
Quando me aproximei foi possível ver claramente o brilho de seus capacetes que reluzia a luz do sol que nascia no horizonte. O dia estava nascendo avermelhado.
- Vê o sol? Isso é mau presságio – disse um deles.
- Sinal de derramamento de sangue – completou o outro.
Nunca acreditei em superstições tolas como aquela. Já havia visto várias vezes o sol nascer vermelho e nem sempre houve morte. Outras tantas vezes houve mortes sem o sol vermelho. Não, realmente não acreditava em superstições.
- Prefiro me arriscar – disse com tom de superioridade. Afinal, o que aqueles guardas estúpidos sabiam? As únicas coisas que conheciam eram a corrupção e a ganância, e nada mais.
- Tudo bem, arrisque-se. Talvez seja o seu sangue a ser derramado neste dia.
           “Guardas estúpidos, o que mais querem de mim além de meu dinheiro? Pegam meu dinheiro e depois me pedem para voltar, quem eles pensam que são?” Eu pensava enquanto caminhava pela estrada comercial. Era comum todos desconfiarem dos guardas, afinal eles eram corruptos e egoístas.
                Aos poucos os pensamentos ruins foram abandonando minha mente e alcancei a floresta Verde-Escuro. Ela recebeu esse nome pela cor de suas folhagens, era de um verde mais escuro que o normal.
E lá estava eu, mais uma vez com meu arco na mão e uma flecha pronta para ser disparada. Aos poucos entrei na floresta, sempre tomando cuidado para não pisar em folhas secas ou galhos no chão. Animais selvagens têm ótima audição, se houvesse algum animal por alí, por menor que fosse o barulho que eu fizesse ele se assustaria e eu nunca mais o veria. Tinha que ter cuidado.
Com passos lentos e cuidadosos progredi na floresta, as vastas folhagens das árvores quase cobriam o céu por completo, poucos raios solares conseguiam atravessar a densa camada de folhas e atingir o solo. Poucos raios, mas suficientes para uma boa iluminação.
De repente ouço um barulho de galhos quebrando, me agacho lentamente sem mesmo olhar para direção de onde veio. “Foi rápido”, pensei comigo. Normalmente demora bem mais para achar um animal na floresta. Então me virei lentamente, e vi um animal, um cervo pastava despreocupadamente ao lado de uma pedra.
Com a mão direita puxei a flecha. A corda e a madeira do arco fizeram um barulho pelo esforço, reclamando de tanta força que estava colocando nesse disparo. O cervo estava ali, a minha frente apenas aguardando pela flechada que o mataria.
Uma flecha atravessa o pescoço do cervo. O animal ainda dá dois saltos tentando fugir da dor que ele sentia, mas cai morto. Eu olho assustado a volta, a minha flecha ainda estava em meu arco, eu não havia disparado.
De algum lugar que ainda hoje não sei bem aparece uma criatura monstruosa. Ele era maior que um homem adulto, seu rosto lembrava um animal com dois dentes afiados de baixo quase alcançando seu nariz largo e disforme. Tinha pernas menores que de homens normais e seu andar era desengonçado. Pêlos grossos e pretos cobriam quase todo seu corpo. Em sua mão um arco de caça e em sua cintura uma espada muito grande e pesada. “Orcs, eles estão em Dorem”.
Instintivamente levei a mão até a cintura para pegar minha espada, mas desta vez a havia deixado em casa. “Logo hoje fui esquecer essa maldita espada” pensei enquanto tentava me esconder atrás de uma enorme árvore. O monstro retira a flecha do cervo abatido com pouco cuidado, enrola uma corda em suas patas e o joga em suas costas.
Ao ver que o monstro estava indo embora, toda aquela tensão começou a deixar meu corpo, mas por pouco tempo. Ele se vira na direção que estava me escondendo, seu nariz começa a fungar como se procurasse por algo, como se sentisse meu cheiro. Meu coração disparou, comecei a suar frio. O orc sabia que eu estava ali, o que eu poderia fazer?
Eu tinha duas escolhas: ficar quieto e esperar que ele fosse embora, ou lutar com ele. Com certeza não queria lutar, mas quando ouvi o barulho do cervo caindo no chão e a espada sendo desembainhada minhas escolhas foram reduzidas para apenas uma.
Puxei novamente a corda do meu arco, respirei fundo e decidi que iria enfrentá-lo.
Dessa vez não estava enfrentando um cervo, se errasse a flecha ele não iria sair pulando floresta adentro, se eu errasse essa flecha perderia minha cabeça.
Com a flecha posicionada e o arco esticado saí de trás da árvore. O monstro me viu e antes de correr para cima de mim disse algo em uma linguagem que mais parecia uma mistura de latidos e grunhidos.
Então, disparei a flecha.
Mateus Soares

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