quarta-feira, 12 de outubro de 2011

O Diário de um Heroi - Capítulo III

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O que você faria em meu lugar: ficaria e faria um funeral digno para seus familiares ou abandonaria os corpos de sua família e iria à busca de algum familiar, por menor que fosse a chance de encontrá-lo vivo? Não pense que foi fácil decidir, porque não foi. Durante muitos anos me senti culpado pelo fato de não honrar minha família com um funeral digno.
                Depois de abandonar-mos a fazenda Ovelha Branca finalmente chegamos a floresta Verde-Escuro. Já era noite e então decidimos acampar.
                - Vamos ficar aqui, faremos uma fogueira e comeremos um pouco. Amanhã partimos com os primeiros raios de sol – Sebastian dizia enquanto se sentava em uma pedra.
                - Não acho uma boa idéia fazer uma fogueira, tem orcs na floresta, pode chamar a atenção deles – eu disse – e não precisamos de fogueira para comer, podemos comer pão e beber água.
                - Você está certo, nessa escuridão qualquer luz poderia ser vista de muito longe.
                Nós ficamos ali parados, sem saber o que fazer e pela primeira vez na vida não tinha um lugar pra onde voltar, não tinha um lugar pra onde ir. Tente-se colocar em meu lugar, amigo leitor, se você não tivesse a sua casa, para onde você iria? Se você tivesse perdido tudo aquilo que lhe mantinha em pé, como se sustentaria? Como já disse nunca acreditei em superstições, mas algo de muito estranho estava acontecendo.
             - Diga-me Sebastian, você acredita em destino? - perguntei despreocupadamente enquanto tirava os pães da sacola.
- Destino como os deuses nos manipulando ou destino como que tudo já está predestinado a acontecer?
- Apenas destino, você acha que foi destino isso tudo que aconteceu? Quero dizer, eu não estar na fazenda naquele momento e você estar perto de meu pai durante o ataque. Pode parecer loucura, mas esse dia foi tudo muito estranho.
- Estranho?
- Sim, estranho. Minha mãe estava diferente hoje, preocupada além do normal, depois o sol nasceu vermelho, os guardas me mandaram voltar pra casa e aqui na floresta tive uma sensação que minha família corria perigo.
- Entendo o que você quer dizer, mas não acho que seja obra do destino nossa família estar morta. Isso é obra daqueles malditos monstros que invadiram nossa cidade, roubaram nossa comida, mataram nossa gente e pra que? Você acha mesmo que isso foi obra do destino?
Naquele momento não soube o que dizer. A dor da perda que Sebastian sentia fora substituída por ódio. Via em seus olhos uma mescla de tristeza e raiva. Eu não sabia o que se passava em mim, era óbvio que sentia a dor da perda, mas apenas pensava em encontrar meu pai vivo, a esperança me motivava e guiava meus pés.   
                E então nos aconchegamos por ali, usando minha sacola como travesseiro e a terra como colchão tive a pior noite da minha vida até aquele dia. Apesar de estar deitado e de olhos fechados não estava dormindo. A imagem de minha família morta estava viva em minha mente e apenas conseguia pensar em como foram seus últimos momentos. Com certeza não tive uma boa noite de sono.
                Mas no meio da noite fui acordado por Sebastian, com empurrões leves em meu ombro acordei com ele perto de mim, tanto a escuridão quanto meus olhos embaçados não me permitiram ver com nitidez, mas percebi que ele pedia silêncio.
                Procurei a minha volta em desespero por orcs, mas não havia nada por lá. Então olhei para Sebastian erguendo meus ombros, estava confuso e sem entender o motivo de ter me acordado. Ele indicava com o dedo algum ponto escuro na floresta, não tinha nada lá além de árvores e arbustos, mas mesmo sem entender continuei olhando.
                Então alguma coisa se mexeu, era grande demais para um lobo e pequeno demais para um orc, não consegui distinguir o que era, vi apenas sua sombra correndo floresta adentro.  Ainda confuso esfreguei meus olhos e tentei procurar a criatura, mas já era tarde e aquela coisa havia desaparecido em meio à escuridão, quando parecia não haver mais sinal daquela coisa um assobio agudo e longo ecoou pela floresta.
                - O que foi aquilo? – perguntei assustado ao Sebastian.
                - Não tenho certeza, mas acho que era um curupira!
                - Um curupira? Pelo amor dos deuses Sebastian, você ainda acredita nessas histórias infantis?
                - Isso não são apenas histórias infantis, eles são reais, muitas pessoas dizem terem visto eles nessa floresta.
                - Tudo bem, tudo bem... não importa o que tenha sido aquilo, não quero que nada nos surpreenda de novo. Vamos dividir o restante da noite, você fica acordado um tempo e depois eu.
                Sebastian concordou e assim o fizemos, ele ficou acordado, sentado em uma pedra abraçado em sua espada até que não conseguisse mais mandar o sono para longe. Eu fiquei na mesma pedra o restante da madrugada, ao meu lado minha espada e meu arco, não sabia o que era aquela coisa, mas seja lá o que fosse eu queria estar preparado.
                Como já disse anteriormente não acreditava em superstições e nem em histórias para assustar criancinhas desobedientes, mas os relatos sobre curupiras na floresta eram constantes. Verdade que algumas pessoas entraram no coração da floresta e nunca mais retornaram, mas sempre imaginei ataques de lobos ou de felinos selvagens e nunca seres mágicos protetores da floresta.
                Para você, caro leitor, que não conhece a lenda saiba que o curupira é uma criatura de estatura baixa que protege as florestas, normalmente possui cabelos vermelhos e tem os pés virados para trás para que caçadores não consigam seguir seus rastros, usam machados e enfrentam qualquer um que cause qualquer tipo de mal a floresta. Mas claro que isso é apenas história para assustar crianças.
                Antes mesmo de o sol dar as caras acendi uma pequena fogueira, o suficiente para esquentar a caneca com água, coloquei um pouco do pó de café junto da água e o pão perto da fogueira. Sebastian acordou com o cheiro delicioso de café.
                - Não podemos demorar, coma rápido e logo em seguida partiremos – disse sem mesmo olhar para ele.
                Sebastian pegou o pão e a caneca de café, estavam quentes, mas ele comeu bem depressa e logo em seguida estávamos caminhando floresta adentro.
                - Estava delicioso, onde aprendeu a fazer café dessa maneira? – ele me perguntou
                - Minha mãe me ensinou, ela dizia que tomar café de manhã nos torna mais alerta durante o dia e estar alerta é o que precisamos, não é mesmo? – tentei esboçar um sorriso, mas aquilo em meu rosto parecia qualquer outra coisa.
                Não estávamos longe de onde havia enfrentado o orc e em pouco tempo chegamos ao local. O corpo estava lá, o sangue em seu corpo havia secado e seu cheiro era ainda pior.
                - Foi você mesmo que fez isso?
                Respondi apenas com um balanço de cabeça em confirmação.
                - O que precisamos saber é onde eles estão. Como faremos isso? – me perguntou Sebastian.
                Caro leitor, imagine minha situação. Como procurar orcs em uma floresta? Se fossem cervos ou lobos eu saberia como fazê-lo, mas nunca na minha vida havia perseguido orcs. Mas mesmo não acreditando, o destino mais uma vez me sorriu.
            Ouvi barulhos de galhos quebrando e talvez alguma conversa vindo em nossa direção. Rapidamente corremos e nos escondemos atrás da mesma grande árvore que havia escondido no dia anterior. E então dois monstros surgem entre as árvores, muito parecidos com o que havia matado, possuíam pernas curtas, braços longos, grossos pêlos negros em todo o corpo e um rosto que mais lembrava animais. Um deles carregava um enorme machado que repousava em seu ombro e o outro empunhava um arco e tinha uma faca em sua cintura.
        Eles ficaram ali olhando o corpo do orc, examinando as flechas e recolhendo suas armas. Eles conversavam o tempo todo um com o outro, sua língua lembrava rosnados e latidos, era algo incomum e bem amedrontador.
          Talvez nunca na minha vida sentisse tanto medo. Eles eram duas criaturas grandes, armadas e com ódio terrível de humanos, nós éramos dois jovens escondidos atrás de uma árvore. Meu medo aumentou quando lembrei que eles talvez pudessem sentir nosso cheiro a metros de distancia.
Olhava para Sebastian constantemente, suas mãos agarravam sua espada como um faminto agarra um pão, seus olhos estavam arregalados e sua respiração ofegante. Ele estava com medo, tanto quanto eu, mas ele estava preparado para o combate. Se aqueles monstros tentassem nos matar ele estaria pronto para enfrentá-los.
Depois de examinar e recolher os pertences do orc morto eles foram embora. No momento fiquei confuso, como eles não sentiram nosso cheiro?
Minha pergunta foi respondida quando me aproximei novamente do orc morto, o cheiro de morte que ele exalava era muito forte, com certeza aquilo não permitiu aos orcs sentirem nosso cheiro.
- Você viu aquilo? Você viu o tamanho deles? Você viu o tamanho daquele machado?
Sebastian estava claramente abalado pela visão que tivera, afinal mais cedo ou mais tarde teríamos que encontrá-los novamente, e da próxima vez poderíamos não ter tanta sorte. Era natural que Sebastian estivesse assim, porque eu também estava.
- Como pude não ver, eu estava aqui também, não estava? Sebastian, fique a vontade em voltar para Dorem, eu nunca pedi que viesse comigo.
Era óbvio que estava com medo, mas ele nunca quebraria uma promessa.
- Você não me pediu para vir com você, Gabriel, seu pai me pediu. O que me preocupa, além daquelas armas que eles carregavam, é como os encontraremos.
- Posso tentar seguir seus rastros – eu disse enquanto me abaixava procurando por sinais de seus pés no chão macio.
- E você pode fazer isso?
- Na verdade não tenho certeza. Costumo seguir rastros de cervos e de lobos pela floresta, procurando suas pegadas e marcas em árvores e arbustos, como galhos quebrados e manchas em pedras. Seguir um animal três vezes maior não deve ser tão difícil.
Sebastian olhou pelo caminho por onde os orcs foram, ele não estava feliz em ter a chance de revê-los.
- Assim espero – ele disse, mas com um tom de voz que queria dizer exatamente o contrário.

0 Blá blá blá!:

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