segunda-feira, 13 de junho de 2011

Os quatro reinos - Parte 7

Olá, amigos amantes de boas histórias. Hoje nosso amigo Jacó Galtran nos traz a continuação da saga "Os quatro reinos". Espero que apreciem e comentem.

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Os quatro reinos - Parte 7

"Capital do reino de Aqua-Mare.


O Palácio era um local de não-vida. Profundamente abalados pela morte do príncipe Ector, servos, nobres e membros da família real não conseguiam mais sorrir. Vegetavam, perdidos em obrigações que cumpriam mecanicamente, as olheiras acusando a ausência de sono e a constante presença de lágrimas.
A notícia de que o General Milar tinha viajado às terras élficas foi recebida pela Rainha Marla com um leve movimento vertical da cabeça. Os poucos membros da corte nos quais a lucidez era maior que a dor ficaram preocupados com o que aquela viagem poderia significar, ainda que não fosse difícil supor que isso tivesse relação com a guerra que se avizinhava.
Sentada em seu trono, sem se alimentar há dias, semblante vazio olhando para o nada, a Rainha Marla recebeu uma visita. Era um emissário do reino Solu.

- Majestade, o jovem diplomata se identifica como um enviado do Rei Gaia, soberano do reino Solu. O selo real que ele trouxe já foi examinado e é autêntico. O visitante solicita uma audiência com Vossa Majestade, alegando tratar-se de um assunto importantíssimo para a sobrevivência de ambos os reinos.

A Rainha não se moveu. Resmungou algo e seguiu com o olhar focado no vazio. Lágrimas surgiam na face pálida. O servo gesticulou ao emissário para que adentrasse o recinto. Sem saber o que fazer ao certo, o viajante colocou-se diante do trono e fez uma mesura, tentando ser notado. Sua Majestade continuava robótica, olhando para o nada.

- Com sua licença, Rainha Marla. Vossa Majestade me autoriza a lhe dirigir a palavra?

Não houve resposta. O emissário preparava-se para balbuciar alguma coisa, quando a monarca fez um leve movimento, assentindo com a cabeça.

- Rainha Marla, chego neste a momento à sua augusta presença em missão real, designada a mim pelo soberano do reino Solu, o monarca Rei Gaia. Peço-lhe que ouça com atenção o que lhe direi, pois disso pode depender a sobrevivência de nossos reinos – o emissário aguardou um instante antes de prosseguir – O Rei Gaia solicita uma audiência com Vossa Majestade, contando ainda com a presença dos demais monarcas que compõe os quatro reinos. O intuito de tal reunião é elaborar um plano de ação conjunto para conter o crescente exército de banidos, cogitar a possibilidade de um contato com o povo élfico e decifrar o motivo da misteriosa aparição dos dragões.

Nada. Silêncio sepulcral. Não houve movimento com a cabeça, nem nenhum gesto ou reação que indicasse resposta. Apenas lágrimas, discretas, quase imperceptíveis escorrendo.

- Imploro que perdoe minha ousadia, Rainha Marla, mas preciso perguntar: devo entender seu silêncio como um “não”?

A monarca balançou levemente a cabeça em um movimento vertical.

- Volto a implorar que perdoe minha insolência ao insistir, Majestade, mas não vai tomar parte na reunião que definirá os rumos dos quatro reinos de agora em diante?

Nada. Silêncio. A monarca limitou-se a fazer um gesto com a mão esquerda, em um claro sinal de “retire-se”. O emissário fez uma sutil mesura e caminhou lentamente em direção à saída da Sala do Trono.

- Com sua licença, Rainha Marla. Partirei, então, dizendo ao Rei Gaia que Vossa Majestade não tem interesse em vingar-se dos assassinos covardes que mataram o príncipe Ector.

Um brilho repentino faiscou nos olhos reais. Uma Rainha resoluta levantou-se do trono. Um emissário sorriu satisfeito com o cumprimento de sua missão. Uma união de forças surgia.

***

Emissários foram enviados aos demais reinos. O que foi para Wyndh não foi sequer autorizado a entrar no reino. Ante as ameaças de agressão, optou por não insistir e regressou. O que foi às Montanhas Ignis conseguir ter um breve momento de diálogo com o rei Phyro, mas recebeu uma negativa como resposta e também voltou frustrado.
Rainha Marla e Rei Gaia seriam os únicos a participarem da reunião.

***

Jardins suspensos de Daryadalynthajalan. Um dos locais mais sagrados e carregados de magia do reino dos ventos. Era um tipo de estufa gigantesca, repleta de plantas, flores e uma cachoeira que ninguém sabia onde começava, tampouco onde acabava. Lá, através da natureza, fazia-se a ponte entre o povo de Wyndh e os deuses. Era possível sentir um certo misticismo no ar, causado pela combinação das fragrâncias ali presentes e por mais coisas que não podiam ser reveladas. O jardim flutuava, ficando a quilômetros de altura e só podendo ser alcançado com a autorização do rei e em circunstâncias bastante específicas.
Ali, repousava o monarca Eolus. Em meditação, como que refazendo-se do cansaço provocado pelos afazeres reais, mantinha-se silencioso, respiração contida, concentrando-se na tarefa de não pensar em nada. Apenas sentir. Deixar as emoções aflorarem. Os sentidos aguçados pelo odor cítrico vindo do ambiente, a mente descansando em um transe intencional.
Horas se passaram até que o rei abriu os olhos. As visitas que ele tanto aguardava chegaram.

- Pontuais, como sempre – ele disse, com um leve sorriso no rosto.

Os cinco indivíduos prostraram-se rosto em terra, para em seguida erguer-se. Vestiam preto, não permitindo saber se usavam roupas ou armaduras. Nas bainhas, pequenas espadas de lâminas curvas. Sobre as cabeças, capuzes que só revelavam olhos indecifráveis.

- Às suas ordens, meu senhor – o que parecia ser o líder bradou.

O Rei Eolus sorriu em aprovação. Seus lutadores mais capazes estavam prontos. Finalmente ele poderia fazer a guerra que se aproximava pender para o seu lado.

***

Camuflados por poderosa magia, centenas de indivíduos acampavam em terras inóspitas, muito além das fronteiras dos quatro reinos.
Dormiam em tendas imundas, separadas umas das outras por sujeira, dejetos e corpos sem vida de traidores. Não tinham higiene, alimentavam-se mal e não estavam preocupados com o que eles mesmos chamavam de “detalhes insignificantes”. Parecia haver um pouco mais de organização e limpeza nos arredores das tendas de algumas pessoas que lideravam o bando, mas não o bastante para impedir uma certa náusea ao se olhar para elas.
Estavam ali há três dias. A insatisfação dos que não queriam esperar mais foi calada com sangue. Ninguém mais questionou qualquer coisa. Havia também certo mal-estar entre os magos e os demais guerreiros, pois uns não confiavam nos outros. Também não havia mulheres para aliviar a tensão e isso sim gerou um certo burburinho por parte dos soldados. E até o líder daquela multidão concordou que aquilo teria que ser resolvido.

- Breve, teremos mulheres, ouro e muito mais que isso – bradou Hiago.

Os banidos formavam um exército considerável. Desprovidos de caráter, piedade e dignidade, eram munidos de boas armas e guiados por uma sede de sangue impressionante. Todos eles foram, um dia, parias dentro de suas terras, excluídos, marginalizados e desprezados pelo povo de suas cidades. Todos aqueles corações clamavam por vingança.
Hiago os reuniu. Subiu em uma das muitas pedras daquela região rochosa. Junto dele, os magos, cobertos por andrajos. Ordenou que se fizesse silêncio e precisou repetir a ordem algumas vezes até ser totalmente obedecido.

- Sei que muitos de vocês estão insatisfeitos por estarem aqui ainda. Sei que todos aqui querem o sangue dos povos dos quatro reinos. Querem tomar para nós as terras que hoje são deles. Querem as mulheres, o ouro, a comida e as cidades deles. E é por isso que estamos aqui. Porque vamos sair daqui agora para atacar um dos reinos.

Houve um burburinho misturado a gritos de ovação e apoio. Todos vibravam por ouvirem de seu líder justamente o que queriam ouvir. Comentavam entre si qual seria o reino atacado. Talvez Solu, o mais frágil deles e o mais rico em alimentos. Quem sabe Aqua-Mare, que ainda não tinha se recuperado do ataque anterior. Ou talvez até Wyndh, o misterioso reino dos ventos.
Levaram alguns minutos até Hiago conseguir falar novamente.

- Vocês estão prontos para fazer história? – perguntou, recebendo um imenso brado de afirmação em resposta – Estão prontos para se tornarem os novos senhores deste continente?

A massa guerreira levantou as armas e urrou que sim.

- Estão prontos para saborear o doce sabor da vingança? Para adoçar com o sangue inimigo nossas próximas refeições?

Uma massa sonora ensurdecedora respondeu que sim.

- Então, preparem-se! Pois vamos atacar as Montanhas Ignis!"

Continua dia 27 de junho. Mais sobre o trabalho do Jacó, clicando aqui.

0 Blá blá blá!:

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