quarta-feira, 29 de junho de 2011

Conto: Grimoire Sorciére by: Marco Fisher




Primeiro capítulo da Grimoire.

-Você me odeia irmão?

A pena de Zaenir estancou sobre o pergaminho, deixando escorrer um filete de tinta negra. O garoto hesitou como se quisesse fingir que não ouvira aquelas palavras, mas no quarto silencioso ele mal pôde disfarçar o suspiro que veio de seus lábios em seguida. Se virando sobre a cadeira lentamente, ele encarou a irmã com um olhar resignado. O aquecedor a vapor lançava uma luz alaranjada sobre a pequena elfa negra, sentada com as pernas cruzadas na cama. Sua expressão era serena como sempre, mas seus olhos violeta suplicavam uma resposta.

-Quem colocou isso na sua cabeça, Zanira? – disse Zaenir de imediato.

-Não foi ninguém – respondeu a menina em uma voz calma e triste - Você está frio, irmão. Mais frio do que o chão congelado lá fora. Eu sei que é por minha causa. Eu sinto que quando estou perto você finge que não percebe. Prefere pensar que não existo. Que não sou sua irmã.

Zaenir franziu a testa.

-Eu tenho que estudar as lições de caligrafia que o sacerdote me passou. Não posso ficar te adulando como os outros.

-É por isso, não é? Tem nada a ver com as lições. É por que eles ficam me adulando no templo, falando que sou a criança do sonho e não sei mais o que...

-Zanira, você é a criança do sonho. – Zaenir assinalou - O sacerdote não passa um dia sem falar que toda Svartalfheim sonhou com você na noite em que nasceu, e que você nos levará de volta ao nosso lar no Reino das Aranhas nos libertando dessa prisão de gelo e... você já deve ter decorado o discurso.

A elfa esboçou um sorriso tímido.

-Decorei. Mas se isso for verdade, então você é o irmão da filha do sonho – Zanira respondeu alargando o sorriso.

-Grande coisa. Isso não me impede de ter que escolher entre lutar nas montanhas ou aguentar aquele bando de esquisitos aracnófilos no templo – resmungou Zaenir.

Zanira parou pensativa. Ela sequer imaginava o significado de "aracnófilo", mas não era por isso. Ela não precisava fazer essa escolha, como todo o seu povo. Pelo jeito, ela não precisava fazer nada, apenas continuar sendo quem era. Mas assim só iria se afastar de Zaenir. E de todos a quem tinha afeição.

-Vem cá – ela disse finalmente, se afastando um pouco sobre a cama - senta aqui, eu vou te mostrar uma coisa.

Zaenir arqueou uma sobrancelha, sem entender aquela reação.

-Vem logo! – ela insistiu, como se o estivesse convidando para alguma brincadeira.

-O que foi? – Zaenir disse se sentando ao lado da menina – eu tenho que terminar esses pergaminhos ainda hoje, Zanira. Não tenho tempo para brincar.

-Deixa de ser chato – Zanira engatinhou para trás do irmão, se ajoelhando no colchão – isso é segredo, viu? O sacerdote disse que não era pra mostrar pra mais ninguém, mas ele não manda em mim!

-O que você está aprontando? – disse o elfo com um misto de impaciência e curiosidade.

-Apenas relaxe – respondeu a irmã, tapando os olhos de Zaenir com as mãos – agora... como é que era mesmo? Ah, sim! Preste atenção apenas em sua respiração, e imagine que a escuridão á sua volta...

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...é apenas uma cortina. Uma densa cortina negra. Veja como ela farfalha suavemente. Não visualize mais nada, apenas a cortina. Agora, você percebe? Tem algo atrás dela. Preste atenção. Agora, com cuidado. Se concentre na cortina, você quer movê-la para descobrir o que está atrás. Concentre-se nisso. Visualize a cortina se afastando lentamente, está vendo a luz? Imagine ele vindo em sua direção, fazendo a cortina esvoaçar. Se aproximando, aproximando... Vê como brilha? Agora... abra os olhos devagar.

O garoto moreno abriu os olhos e quase perdeu o fôlego. Na sua frente estava uma pequena esfera de luz, flutuando a alguns centímetros de seu rosto. Mas a luz não o ofuscava, embora iluminasse todo o aposento de pedra.

-Isso...é...fui eu que fiz? – disse o menino maravilhado.

-Sim, Akunesh – respondeu o escriba com um sorriso satisfeito – Isso é magia. Meus parabéns, você se dedicou aos seus estudos e aí está o primeiro presente concedido pelo Aether e pela sabedoria do grande Toth.

Akunesh mal prestava atenção nas palavras do careca, levantando e controlando o globo de luz de um lado para o outro da sala, com um sorriso de orelha a orelha.

-Tenho que mostrar isso pra Miriam – disse o garoto – quero ver ela se gabar de seus cata-ventos quando ver isso!

-Magia não é para isso, garoto – respondeu o escriba com severidade – além disso, está tarde, sua amiga já deve estar dormindo.

-Duvido. Ela fica naquela oficina a madrugada inteira!

-Mesmo assim, não é hora de um aprendiz de escriba estar na rua. Ou será que deveria chamá-lo agora de aprendiz de mago?

-Eu não temo mais a escuridão! – respondeu Akunesh com um olhar confiante – agora ela é que irá me temer! – continuou, fazendo pose com a esfera flutuando sobre a mão, como se ela fosse alguma espécie de arma mística de destruição em massa.

-Então porquê não aproveita – disse o escriba prendendo o riso – e usa sua nova amiga para te guiar até a torre leste? Chegaram alguns manuscritos do Império Ming essa tarde. E se minha memória não falha, tinha alguma coisa de alquimia no meio.

-Sério? Posso mesmo pegá-los? – os olhos do menino ficaram tão brilhantes quanto a esfera de luz ao seu lado – eu não sei nada do idioma deles ainda, mas amanhã não irei descansar até alguém traduzir pra mim! – e dizendo isso com um sorriso diabólico, Akunesh saiu correndo pela porta, a esfera o seguindo como um pássaro de estimação.

À medida que o garoto percorria os corredores da gigantesca Biblioteca de Rosetta, a esfera iluminava como uma tocha as prateleiras de livros que se estendiam do subsolo até o teto, impossíveis de vislumbrar em um único olhar. Conhecimento de todas as partes do mundo descansava ali, na forma de livros, papiros, pergaminhos, mapas e todo tipo de artefato possível. Essa era a casa de Akunesh, desde que sua rica família havia decidido encaminhá-lo para a escola de escribas do Templo de Toth. 

Curioso e perspicaz, o garoto não teve problemas em se adaptar. Mas foi em uma tarde quente, ao explorar um dos andares superiores da torre leste, que o garoto encontrou sua real vocação. Ele havia encontrado, em um canto sombreado, um exemplar do Tomo de Zuleiman, o lendário alquimista de Al-Dasht, traduzido para o idioma de sua terra. Desde então ele não conseguia mais largar o livro, tentando decifrar as complexas fórmulas com a ajuda dos outros escritos daquele andar, que possuía até mesmo uma caixa com material de laboratório. Quando mal havia começado a fazer suas primeiras experiências, Akunesh foi pego pelos professores escribas, desconfiados da longa permanência do garoto em um mesmo local da biblioteca. Ao invés de repreendê-lo, a instituição resolveu dar uma chance a seu interesse, percebendo que o garoto possuía potencial não só para a alquimia, como também um talento inesperado para as correntes mais filosóficas da mesma, relacionadas ás artes mágicas da transmutação.

E agora ele havia se tornado o primeiro aprendiz de mago de Rosetta em muitos anos. Um aprendiz autodidata capaz de devorar um tratado sobre leis químicas em questão de dias, mas sempre disposto a ouvir os conselhos dos escribas, principalmente os do sacerdote de Toth que possuía profundo conhecimento de magia e agora o estava ajudando a descobrir os intricados segredos do Aether. 

Chegando até a torre leste, Akunesh não demorou a encontrar os pergaminhos de Ming, feitos com papel antigo amarelado e presos com enfeites de bambu. Trazendo a esfera de luz para mais perto, ele os abriu ansioso sobre uma mesinha de madeira, se deparando com a figura de um imenso dragão que rugia...

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...pelos céus, faiscando e serpenteando até explodir em uma chuva de fagulhas sobre a multidão fascinada. O jovem mágico oriental fez uma reverência, em seguida abrindo um leque e o fazendo explodir em uma dezena de fitas coloridas. No carro seguinte, um grupo de homens trajados com quimonos de seda se equilibrava sobre os longos narizes das máscaras de bambu uns dos outros, formando torres e pirâmides. Tigres, leões e bestas desconhecidas rugiam em suas jaulas, estranhos palhaços ofereciam rosas á plateia, e caminhando de um carro para o outro, uma mulher oriental com uma enorme cartola anunciava que o Circus Cauchemar havia chegado á Rosé-Blanc, a gloriosa capital de Aurin.

Maravilhados com o carnaval de mistérios, os cidadãos na rua não tinham como notar que em meio a cavalheiros e mendigos, a crianças e velhos, um pequeno gato branco fitava a caravana com olhos faiscantes. Apenas quando os carros adentraram uma esquina, desaparecendo sob uma ponte de pedra, um rápido borrão branco disparou como uma flecha sobre os telhados, seguindo o circo como um fantasma da cidade.

Marco Fischer | twitter @MarcoFischerBrd
O conto se passa no universo do Crônicas do Mar de Prata: http://cronicasdomardeprata.wordpress.com/


1 Blá blá blá!:

Paulo disse...

Bom, muito bom!

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