quinta-feira, 26 de maio de 2011

Forjado a Fogo - Segunda Parte


Sem muita traquinagem, vamos com a continuação de Forjado a Fogo:



- O que fizeste Demeroff? – A pergunta atingiu a divindade enquanto esta ainda retornava a seu lugar no reino dos Deuses.
- Fiz o que precisava fazer!
- Não, você não precisava fazer isso com um de meus filhos!
- Por que Raziel? Por que apenas os meus filhos devem sofrer? Por que aqueles que são amados por você e por Ilena devem permanecer intocados a nós?
- Não dispare sua amargura contra nós irmão! – Desta vez a voz que vinha aos ouvidos celestiais tinha o tom feminino.
- A culpa do extermínio dos meus filhos recai aos seus, então cabe a um deles pagar pelo que os outros fizeram.
- Não Demeroff, não cabe a um humano qualquer pagar, mas sim ao humano que gerou toda essa destruição.
- Aquele que se intitula Deus Único! Eu sei que cabe a ele pagar, mas a vingança demorou demais, vocês podem esperar, mas não eu! Seus filhos não foram deixados para morrer não é?
- E quantos de nossos filhos morrem nesta guerra? Você se esquece disso?
- Quantos deles ainda existem ou existiam ao inicio desta guerra? Quantos deles é dada à opção de tornar-se seguidor daquele que iniciou a guerra e aceitam? Os humanos são todos iguais!
- Sua amargura custou a sanidade de um homem!
- Mas ele viverá Raziel, ele viverá e vingara meus filhos e os seus filhos!
- Toda essa sede de vingança alimentada a cada dia irá nos gerar mais e mais problemas irmão. Dar a um mortal o poder de um Deus!
- Os mortais já tem por natureza este poder! Eu apenas ampliei o conhecimento.
- Ele não estava preparado, você destruiu a mente de Andréas e o imbuiu de selvageria em demasia.
- A mesma selvageria que queria dar aos meus elfos quando estiveram em retirada e vocês me proibiram.
- Eles não se adequariam aos outros elfos se isso tivesse acontecido, seriam corrompidos e entrariam em atrito contra os outros povos, o que nos traria mais outra guerra, não basta os filhos bestiais de Gamek, você queria que os elfos de olhos vermelhos fossem iguais?
- Você fala em adequação, sim os filhos de Quioc, elfos da floresta Etilia não deixaram meu povo ficar com eles, e nem os elfos gélidos de Sameth, então que adequação foi essa?
- Mas os humanos acolheram seus filhos!
- A que preço?
- Nenhum! – Raziel parecia cada vez mais perturbado e irritado pelas atitudes de seu irmão.
- Sim, houve um preço e este é caro demais para meu povo depois da quase extinção! Agora deixem-me a sós, não quero mais palavras a respeito de meus atos. Quero apenas saborear a vingança vindoura.
Falando isso Demeroff fechou sua mente e nenhum dos outros deuses pode saber onde estava ou mesmo falar com ele.
********
Andréas correu pelo caminho farejando o ar, os cheiros diversos que vinham da trilha formada por seus inimigos dava-lhe a direção correta em que se dirigir. A noite veio lentamente e cobriu os campos dando ao cavaleiro uma nova camuflagem, a distância podia ver as fogueiras e o vento trazia até ele a confirmação de que os soldados do Deus Único ali acampavam.
- Então o que será do menino que trazemos conosco? – Perguntava uma sentinela a outra enquanto tentavam fazer o tempo correr com conversas sobre diversos assuntos.
- O irmão Kalib deverá entregá-lo ao templo de nosso senhor e lá será decidido o que ele fará.
- Provavelmente será marcado.
- Sim, é o de praxe, eles são marcados e vistos pelo resto da sociedade como um iniciado no culto a nosso senhor.
- Eu lembro desta época da minha vida.
- Mas agora irmão você já afirmou a sua fé e não é mais assim.
- Não sei como pude um dia ser diferente.
- Você viu a luz em nosso senhor irmão, deixou para traz as enganações dos outros auto intitulados deuses antigos.
- Eu sei.
Andréas esperava, em sua mente algo ainda restava de sanidade, a selvageria imposta por Demeroff não embaçava sua mente estratégica, apenas lhe dava algo diferente que não conseguia explicar. Uma sede de sangue inigualável e uma fome de morte impressionante.
Os homens sequer viram o vulto em seu ataque, o primeiro sentinela foi jogado ao chão feito boneco de pano. A brutalidade do primeiro golpe e sua força foram tamanhas, que os ossos de seus membros superiores e inferiores demonstravam ângulos absurdos quando finalmente este parou de rolar no chão. Já o segundo soldado pode ver o homem a sua frente, e o horror varreu qualquer reação de seu corpo. Não havia um só ponto do rosto que não fosse tomado por severas queimaduras, a armadura que antes fora dourada, agora vinha grudada a pele queimada do cavaleiro e havia sido enegrecida pelo contato direto com o fogo. Braços e pernas tomados por diversas queimaduras, seus olhos não tinham mais pálpebras e nem a boca por sua vez era protegida pelos lábios. O segundo vigia caiu de joelhos chorando ao ver o ser deformado a sua frente, e pedia a seu Deus que o protegesse de tal aberração, mas o Deus Único não ouviu as preces de seu seguidor.
Um a um os postos de vigia foram caindo, mas ninguém no acampamento soube disso. Nenhum ruído de batalha, ou mesmo grito de terror fora emitido. Andréas era rápido e eficiente em seus assaltos, e antes que a lua cruzasse para o outro lado do céu o cavaleiro iniciava seu ultimo e definitivo assalto, iria para o centro do acampamento.
“Morte e vida ou vida e morte”, as palavras de Demeroff ganhavam cada vez mais espaço no cérebro do homem, e a cada morte a selvageria ganhava espaço em seu intimo. Espadas se cruzaram a sua frente, um grito de alarma fora emitido de dentro do acampamento, mas já era tarde. Andréas arrastava um a um os soldados sonolentos de suas barracas ou de suas camas improvisadas e seifava-lhes a vida com uma espada, muito mais da metade morrera assim, e os poucos que restaram tentaram fazer frente contra o guerreiro. Desorganizados e pensando serem maior número atacaram. Na primeira onda de ataque três espadas atingiram o corpo de Andréas, mas nenhuma gota de sangue retiraram, em compensação dois soldados ficaram para traz, um deles o cavaleiro segurava pelo pescoço deixando-o acima de si, o outro jazia aos pés deitado sobre uma poça de sangue.
- É só isso que os escravos do Deus Único tem a me oferecer? – Dito isso arremessou o homem contra seus aliados, correndo em um novo e surpreendente ataque.
Os nove soldados remanescentes foram pegos de surpresa, a lâmina de Andréas cortou dois deles quase que ao meio, enquanto que com a mão o cavaleiro agarrava outro pela nuca. O soldado tentou se libertar, mas a espada que agitava na tentativa de cortar seu algoz encontrava algo mais duro que pedra, então sentiu a dor e o corpo amolecer. Com os dentes Andréas arrancou boa parte do pescoço do homem para depois jogá-lo longe. Agora de novo com as duas mãos na espada golpeou novamente seus inimigos, no trajeto a espada encontrou outra e de tão poderoso golpe as duas armas partiram-se. O soldado gritou de dor, a vibração que o golpe criou no cabo de sua espada fez seus ossos estalarem e partirem. A mão de Andréas logo encontrou a cabeça do homem ferido e com maior fúria a jogou contra o chão. O soldado estremeceu e morreu.
Desarmado o cavaleiro parou observando os cinco inimigos, que perplexos pela ferocidade de seu algoz, ainda tentavam entender a natureza da criatura que lhes atacava. Um deles cansado de esperar novo ataque lançou-se a frente desferindo outro golpe. O grito do homem apavorou mais as pessoas de Tzein, as quais ainda tentavam esconder-se deste novo acontecimento. Já mais consolados pela condição em que se encontravam os cidadãos da vila escondiam-se como podiam, mesmo estando acorrentados uns aos outros.
Chocados, os quatro soldados remanescentes viam o cavaleiro empunhando em uma de suas mãos a espada do ultimo soldado abatido, na outra o braço que arrancara do oponente enquanto o desarmava. Algo parecido com um sorriso se fez no rosto deformado, e Andréas farejou novamente o ar.
- Medo, mas não vindo de vocês, não. – Ele disse olhando para os soldados. – Medo vindo do povo de Tzein, sim eles tem o que temer.
Com o braço arrancado em punho correu contra os homens desferindo golpes, ora com a parte ensangüentada de seu inimigo, ora com a espada. Nenhum dos quatro guerreiros do Deus Único resistiu ao embate, e logo o cavaleiro encontrava-se sozinho entre diversos cadáveres. O cheiro do medo ainda enchia sua narina, mas não iria seguir aquele cheiro agora, tinha outro ainda mais familiar a seguir.
Entrando em uma das poucas cabanas que existiam ali seguindo aquele odor Andréas encontrou seu objeto de perseguição. Se ainda houvessem lagrimas para serem choradas certamente o cavaleiro as derramaria. Deitado no chão o corpo de Kalistos ainda com os olhos abertos parecia observá-lo entrando no aposento. Seu filho único estava morto e nada poderia fazer a respeito.
Antes de fugir do acampamento que parecia estar sendo atacado, o irmão Kalib matou Kalistos já que ainda rejeitava a fé verdadeira. Pelo que parecia, seus soldados não estavam sendo páreos para a força que agora os atacava, e não deixaria um guerreiro mesmo que infante sobreviver assim para atacar os exércitos de seu Deus. Mal sabia ele que agindo daquela forma tudo o que fez foi colocar um inimigo ainda pior contra tal armada, pois Andréas vendo seu filho morto covardemente jurou destruir o próprio Deus que através de um escravo levará seu filho para longe dele.
Enquanto corria Kalib ouviu os gritos de algo que agora fugia completamente do humano. A dor no peito do pai que perde seu filho destruiu completamente a humanidade que ainda teimava em existir no peito de Andréas, e seu primeiro ato de vingança fora despedaçar uma a uma as pessoas que haviam deixado seus valentes guerreiros, seu filho e ele próprio serem capturados pelo sacerdote e seus soldados. Na mente insana do cavaleiro existia culpa naquelas pessoas, então nem mulher, homem ou mesmo criança escapou de sua fúria vingativa. Depois foi a vez de seguir o rastro do homem que a tudo aquilo havia causado.
O sacerdote ainda corria, mesmo cansado sabia que aquilo que atacara seu esquadrão poderia vir atrás dele, o que confirmou-se quando o cavaleiro vindo por trás saltou e deu-lhe um tapa no ombro, como um felino ao saltar sobre sua presa. Kalib rolou no chão, mas logo ergueu-se, se iria morrer que então fosse lutando em nome de seu Deus.
Com a espada em mãos o sacerdote esperou olhando para o escuro na direção em que seu atacante caíra. Tal foi a surpresa em ver que era um homem.
- Criatura profana! – gritou ele antes de ver completamente seu algoz. – Vou permitir que se redima perante o senhor pelos pecados que cometeu esta noite! – Apontou a espada para o estranho. – Irá conhecer a ira div….- enfim engasgou ao ver o cavaleiro deformado a sua frente e reconhecer o brasão em sua armadura.
- Eu conheci a ira de seu Deus e sobrevivi a ela sacerdote! Agora será que você irá sobreviver a minha ira?
Kalib engoliu em seco e exitou por um segundo, tempo suficiente para Andréas atacar. Com o ombro deslocou o sacerdote jogando-o ao chão de costas. O homem teve tempo apenas para gritar. As mãos de Andréas penetraram na armadura como se ela fosse feita de papel, e o mesmo aconteceu com o tórax do sacerdote. Em pouco tempo ossos, sangue e órgãos internos estavam espalhados ao redor dos dois, Andréas ria e chorava ao mesmo tempo enquanto retirava mais e mais partes do cadáver de seu inimigo.
Em outro plano Demeroff ria junto a sua nova criação, aquela que agora não conheceria inimigos e levaria a sua vingança em frente, a levaria até que o próprio auto intitulado Deus Único estivesse aos seus pés implorando por misericórdia.

0 Blá blá blá!:

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