quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

RPG: Jogo de interpretação de papéis. Interpretação? Tem certeza?



Tenho notado, como disse em outro texto, que há uma grande dificuldade dos alunos-jogadores interpretarem seus personagens quando estão jogando. No máximo eles conseguem interpretar eles mesmos.
Como um amigo me disse uma vez:
- Fulano não joga o RPG de verdade. Ele não interpreta. Quando ele joga de paladino, ele interpreta ele mesmo. Quando é um bárbaro, é ele mesmo. Quando é um mago é ele mesmo. É muito previsível e independente de qual seja o personagem que ele monte, todos já sabem o que esperar dele na hora do jogo.
Essa é a máxima que encontro em mesas de jogos em algumas escolas por onde levo o RPG. Em um dos textos mencionei a dificuldade de alguns alunos de entender a dinâmica do RPG muitas vezes devido aos jogos de vídeo game e computador.

Pois bem. Vivenciando o cotidiano dos alunos com seus personagens, a cada encontro com seus heróis mais evoluídos, com mais experiência e com a mesma interpretação, comecei a pensar em estratégias para que eles pudessem explorar mais o que o jogo tem a oferecer, interpretando melhor seus personagens.

Me deparei com um problema que não imaginava: eu mesmo. Tentarei explicar com uma metáfora que li há muito tempo atrás, da centopéia sapateadora.

Na floresta havia uma centopéia muito famosa, a “centopéia sapateadora”. Todos os bichos da floresta gostavam de assistir os espetáculos que ela promovia, afinal, imagine a grandiosidade de um show feito a 100 pés sapateando. Entretanto, a borboleta, invejosa que só ela, queria dar um jeito de acabar com o sucesso da centopéia e ter a atenção toda para ela. Com um plano em mente, a borboleta foi até a centopéia sapateadora e disse:

- Olá Dona Centopéia, tudo bem? Fiquei admirada em vê-la sapatear e fiquei intrigada. Você levanta primeiro o pé 37 e depois o 79 ou primeiro você levanta o pé número 23 e depois o 61?

A centopéia não respondeu na hora. E nem nunca. Alguns bichos na floresta dizem que depois dessa pergunta a centopéia nunca mais sapateou.

A metáfora pode ser aplicada em várias situações. Mas quando me pus a escrever esse texto, logo ela me veio à mente. E vou explicar o porquê.
            
    Não que eu seja o melhor ator do mundo. Muito pelo contrário, acho que tenho muito a aprender no quesito interpretação em jogo de RPG, entretanto sei como funciona a desvinculação pessoa-personagem. E tentei ensinar isso aos alunos com fé que daria certo. Ledo engano.

                O que consegui foi uma frustração maior ainda, pois além de saberem que poderiam melhorar, estavam preocupados, pois não entendiam como fazê-lo. Alguns passaram a mencionar detalhes estrambóticos do seu personagem durante a aventura que não fazia nenhum sentido; ou ainda, narravam inúmeras peripécias, mais ainda na 3ª pessoa.
A famosa diferença do “meu personagem vai se levantar e sair da sala” e o “eu levanto e saio da sala”.

                Percebi que ao tentar ensinar os alunos a interpretarem (se é que isso é possível) o pouco que eles faziam piorou. Antes que alguém diga que o RPG é para diversão e não interessa se estão interpretando ou não, eu respondo: interessa SIM. Aplico o RPG nas escolas como meio de desenvolvimento de valores e habilidades. Para que o desenvolvimento ocorra cada vez melhor, o RPG deve ser explorado em todos os âmbitos. Estão se divertindo? Que bom, mas espero mais que diversão para que o RPG se sustente como prática dentro da escola.

                Eis que um dia uma idéia me ocorreu. Do nada. Acho que sei o que Newton pensou quando fora atingido pela maçã. E a minha maçã se chamava NPC.
                Num dado momento da aventura, inseri um personagem que pudesse servir como um “mestre dos magos” para os alunos. Esse NPC ( personagem sem jogador) seria o apoio, aquele que daria um palpite de como resolver alguma situação, um norte – em outras palavras. Todavia, não imaginei que o norte estaria apontando para a interpretação.

É bem verdade que a presença desse NPC no jogo ajudou os alunos a tomarem algumas decisões, mas sua maior contribuição fora no quesito da interpretação. Quando os alunos viram o como o NPC estava sendo interpretado passaram a entender do que se trará o Role Playing do RPG. Entonação da voz, situações condicionais, amizades e inimizades, pontos de vista, motivação (...) tudo estava sendo observado e aprendido com esse NPC. Para quem ficou curioso para saber sobre esse NPC, ele é um ladino bon-vivant, conhecido por Dread. Se quiserem saber da história dele, basta clicar AQUI.
A partir da presença do Dread  eles começaram a entender como os pensamentos do personagem não necessariamente devem ser o pensamento deles enquanto pessoas.

Claro que uma boa análise psicológica diria que tudo o que sai da interpretação é fruto do próprio caráter do aluno, que toda interpretação é projetiva, mas isso não vem ao caso agora.

O que vem ao caso é a possibilidade dos alunos falarem e vivenciarem situações diferentes das que conhece e experimentarem “ser outras pessoas”.

Não é de hoje que nós aprendemos a fazer coisas novas imitando os outros. Não fora assim quando aprendemos a falar?
Por que motivo muitas vezes tentamos buscar respostas complexas para problemas simples?
Como não sei responder a pergunta, encerro o texto por aqui. Para quem quiser se arriscar a responder, estarei muito atento aos comentários do texto. Enquando isso, muito sucesso decisivo a todos.



Matheus Vieira
Psicólogo
Mestre em Educação
Aplica o RPG em sala de aula desde 2006

2 Blá blá blá!:

Anderson disse...

Nada como a experiência de quem bota a mão na massa! Obrigado pela dica!!!

Carlos Augusto disse...

Muito bom o artigo ! Continue =)

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