sábado, 27 de novembro de 2010

Mudança de Valores


Como parte do meu trabalho, eu visito escolas para divulgar o RPG como tecnologia educacional e, de alguma forma, conseguir novos RPGistas.
O que vou relatar para vocês foi uma experiência diferente de outras. Eu já conhecia o local: uma escola pública de dar inveja a muito colégio particular. Tudo muito limpo, salas impecáveis e a biblioteca então? Uma primazia! Entretanto meu primeiro contato com esse colégio foi em um dia não letivo. Não conheci os alunos atuando ali.
No dia da visita, para conhecer os alunos e a dinâmica do dia-a-dia do colégio, outra grata surpresa: ao invés de ter um sinal, o aviso sonoro que indicava o início e término do intervalo era musica clássica. Na verdade não sei o quão bom isso pode ser. Talvez algum aluno associe a música com o momento “ruim” de voltar para a sala. Enfim, não pretendo fazer suposições sobre isso. O que importa é que achei uma iniciativa muito boa, principalmente por ser diferente das outras escolas. E parecia dar resultados, todos os alunos voltaram calmamente para suas salas, alguns que estavam com bolas de futebol entre outros artigos esportivos, se direcionaram para a secretaria e devolveram educadamente e se direcionaram para suas salas – sem birra!
Assim começava a minha experiência nesse colégio: estava cheio de expectativa e entusiasmado com a possibilidade de atuar com o RPG num lugar tão bacana. Inclusive cheguei a pensar se o RPG faria muita diferença ali, afinal, parecia um modelo ideal de escola.
O pesadelo começou pouco depois disso. Um aluno, que estava numa quadra mais distante, estava vindo, feliz, para devolver a bola e ir para sua sala. Ele vinha sorrindo e brincando com a bola, passando-a de uma mão para outra. Não prestei atenção no momento exato, creio que ele se distraiu, e a bola caiu de suas mãos. Ele rapidamente a pegou, com uma feição de medo, depois de dois “quiques” no chão. Aí eu entendi a pressa e o medo. Três funcionárias – não sei exatamente a função, inspetora, limpeza, não sei – começaram uma gritaria com o menino que chegou a me assustar, como se ele tivesse batendo em alguém.
- Você sabe que o horário de bater bola já acabou! Porque ainda insiste em ser diferente. Acha que é melhor que os outros e pode jogar bola onde bem entender e a hora que quiser? Se na sua casa não te regras aqui tem moleque! – foram algumas das palavras que as funcionárias gritavam para ele.
Fiquei embasbacado com a situação. Ele devolveu a bola, quieto e sem o sorriso que tinha outrora no rosto, e voltou para sua sala enquanto as mulheres ainda praguejavam sobre ele.
Como isso me chamou muito atenção, comecei observar com mais cuidado o tratamento com os alunos, até chegar o momento que eu falaria com eles. Pouco depois desse episódio, um jovem, devia ter apenas 11 ou 12 anos, entrou no banheiro. Não pude ver o que aconteceu, mas ouvi. Ele mal entrou no banheiro e começou outra sessão de gritos:
- Você sabe que horário de ir ao banheiro é o intervalo. Agora estou limpando aqui. Vocês fazem isso de propósito, esperam a gente começar a limpar só para vir sujar e ficar rindo da gente. – E assim que a responsável pela limpeza do banheiro começou, as outras três reiniciaram o falatório.
Isso foi me dando um mal estar terrível. Percebi que mais que os alunos, quem precisava de ajuda li eram as profissionais – se é que podemos as chamar assim. Em seguida, assim que o menino saiu da banheiro (sem fazer o que queria), vi uma professora com sua turma indo para alguma outra sala. A cena que vi me lembrou as aulas que os alunos do filme “Sociedade dos Poetas Mortos” tinham. Era como se os alunos estivessem em um regime militar ou algo do gênero. Entendo que por serem jovens, devem ter disciplina, entretanto eu vejo muito bem a diferença de disciplina e falta de respeito. E era o segundo caso que estava acontecendo ali. Um uso da autoridade de professora que eu não tenho lembranças da última vez que vi.
E o que isso tudo tem a ver com o RPG? Pois bem; para quem está nessa batalha de inserir o RPG nas escolas, sabe que o grande problema é conseguir convencer a equipe pedagógica que o RPG é uma ferramenta que pode ser muito útil na educação dos alunos. Contudo, percebendo a realidade nessa escola, descobri que apenas inserir o RPG de nada adianta!
Esse colégio que visitei tinha uma excelente infra-estrutura, era limpo e com móveis novos para os alunos, muitos materiais modernos para fazer aulas diferentes e mesmo assim, na prática, era a mesma coisa! Por quê? Porque as pessoas eram as mesmas. Era curioso e triste ao mesmo tempo o rosto dos professores em sala de aula: era nítido que eles não gostariam de estar ali.
Digo que apenas introduzir o RPG não mudará nada, porque a mudança maior deve vir antes do RPG, das tecnologias e de tudo o que for externo. A grande mudança é a de querer fazer algo diferente. Atualmente é fácil encontrar professores que sabem que é preciso mudar a dinâmica das aulas, mas na prática nada fazem.
Digo que, se algum professor mudar internamente, saber de coração que é preciso mudar, e se dispor a fazer algo diferente, não precisará de RPG para ajudá-lo.
No fim, acho que nossa briga nunca foi pela inserção do RPG na escola, mas sim pela conscientização de que algo deve mudar!

Matheus Vieira
Psicólogo
Mestre em Educação
Aplica o RPG em sala de aula desde 2006

4 Blá blá blá!:

Rotieh disse...

Que pena.

De verdade.

Tomei a liberdade de divulgar este texto.

Estudei em um colégio federal semelhante. As classes eram divididas em pavilhões e trancavam as portas das salas durante as aulas. As janelas possuiam grades, e era bastante complicado o convívio. Mesmo assim, ótimas lembranças de grandes amigos nesta época ;)

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Gostaria de saber se há obras literárias que defendem a implementação do RPG nas escolas. Já vi algumas que vagamente tratam do assunto em poucos parágrafos, para então retornar ao ponto principal do livro. Geralmente livros pedagógicos mais modernos, que dedicam um capítulo à novas extensões das dinâmicas escolares, só não achei argumentos suficientes.

Sabemos dos benefícios do RPG, mas não conheço estudos específicos, ao menos não dentro da pedagogia, mas confesso que não pesquisei tão a fundo.

O senhor teria um projeto escrito, com certeza. Não haveria acesso a ele para nós, aqui do Pantanal? Uma versão digital?

Gostaria de dar uma olhada =)

Se houver formas de enviá-lo por email...

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Obrigado! Belíssimo post!

Até mais, menestrel.

Matheus disse...

Olá Rotieh!

No blog "www.rpgacademico.blogspot.com" você encontra bastante coisa (monografias, artigos, dissertações e teses) sobre o RPG e Educação.

Vale dar uma conferida!

papelrasgado disse...

Me parece se misturar com um caso de pequenas autoridades também. Principalmente no caso da faxineira, pareceu até que ela queria descontar frustração de alguma coisa no moleque! Isso não é disciplina, é falta de respeito. E os pais que deixam a criança em uma escola dessas ou não sabem o que acontece, ou erroneamente acham que é assim que tem que ser pra disciplinar. Eu não deixava filho meu em um lugar desses não!

Dragões do sol Negro disse...

Partilhamos a mesma opinião.

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