segunda-feira, 11 de outubro de 2010

RPG, Violência e Educação


RPG, Violência e Educação



Dentre os assuntos polêmicos que envolvem o RPG, com certeza um deles é a violência. Sangue, rituais e mortes muitas vezes fazem parte de uma aventura de RPG, mas não necessariamente causa o repúdio, horror ou aversão que normalmente se espera.

Tenho notado que, quando uso o RPG com alunos, eles têm uma predileção por aventuras que tenham muito combate e sangue. É bem verdade que as características da personalidade do aluno faz com que ele crie um tipo único de personagem. Ainda não fiz um estudo pesquisando com mais profundidade, mas percebi que mesmo sendo únicos, eles criam um personagem para o combate. Desde bárbaros e guerreiros até os diferentes tipos de magos e feiticeiros, em sua grade maioria os alunos os criam para matar, para o combate.

Creio que até merece um estudo, ou até mesmo um ensaio aqui no DSN, comentando sobre essas escolhas. Imagino que seja possível associar os motivos de se escolher um guerreiro ou um conjurador de magias – e que essa associação seja coerente com a vivência do aluno em sala de aula. Mas esse não é o foco hoje, vamos adiante.

Muitas vezes, para proteger seus filhos, os pais os privam de muitas experiências que consideram ruins; como se os envolvessem em uma bolha protetora que só acontece aquilo que faz bem. Violência, sangue e morte são coisas ruins aos olhos dos pais (e da maioria da população) e por isso seus filhos muitas vezes não têm contato com essa faceta do mundo.

Gerard Jones, em seu livro Brincando de Matar Monstros, comenta do tempo todo da necessidade de fantasia do jovem, da criança, para seu desenvolvimento. Embora Jones não seja um educador ou pesquisador da área, é difícil refutar seus argumentos.

Enquanto eu estava na faculdade eu aprendi uma coisa, quando estudava o desenvolvimento infantil: a maldade está nos olhos de quem vê! Creio que isso se aplica nesse caso. Muitas vezes a violência imaginária, no reino da fantasia fere os valores que os adultos (pais) têm ou querem para seus filhos. Um tiroteio imaginário gera, muitas vezes, uma preocupação desnecessária por parte dos pais. Como que se um filho envolvido num tiroteio imaginário vá participar ou promover um tiroteio real quando for mais velho.

Jones tem uma observação forte em relação a isso:

Não estamos ajudando as crianças a aprender a diferença entre a fantasia e a realidade quando permitimos que as fantasias delas provoquem, em nós, reações que seriam mais apropriadas à realidade. Quando uma criança mata alegremente um amiguinho que gosta de ser morto, não deixamos as coisas mais claras para ela ao dizer, cheios de ansiedade, “você não deve atirar nas pessoas!” Em vez disso, deixamos vagos os limites que ela está tentando estabelecer. Ensinamos-lhe que tiroteios de mentirinha fazem com que os adultos se sintam ameaçados na realidade e, portanto suas próprias fantasias devem ser mais perigosas e mais poderosas do que pensavam. (JONES, 2004, p. 61).

Ou seja, na ânsia de bloquear a violência, é possível que essa censura da fantasia acabe por mostrar para as crianças como sua imaginação interfere (ou seria manipula?) as emoções e atitudes de seus pais.

Agressividade, violência, faz parte da vida, faz parte do ser humano. Li em algum lugar uma vez que enquanto essa agressividade ou violência esteja no plano da imaginação ela não tem necessidade de vir para o mundo real; ao passo que se ela não acontecer na fantasia, ela possivelmente acontecerá na realidade.

Não, isso não é uma regra. Toda aquela questão de conviver com a violência pode gerar ações violentas tem fundamento também, mas acho mais coerente o primeiro argumento. Não creio que um simples vídeo-game ou unicamente o RPG pode tornar alguém um mais violento e menos social. Se isso ocorrer, talvez seja porque haja outros fatores além deles atuando como violência no bairro, a educação ou exemplos de pais e irmãos em casa, enfim... outras fontes de violência.

Encerro o ensaio de hoje com outra observação de Jones, sobre a fantasia e o desenvolvimento do jovem:

Para que possam desenvolver uma personalidade que lhes será útil durante toda a vida, os jovens precisam de modelo, orientação, direcionamento, comunicação e limites. Mas também precisam de fantasia, de brincadeira e se deixar levar pelas histórias. É assim que reorganizam seu mundo em formas que possam manipular. É assim que exploram seus próprios sentimentos e emoções, e assumem o controle sobre si. É assim que matam seus monstros. (JONES, 2004, p. 66).

Ou seja, proibir um jovem de fantasiar suas agressividades, censurar práticas que envolvam violência imaginária e irreal e que sejam do consentimento dos jovens, pode gerar mais que um conflito interno nos pais, mais sim, uma etapa do desenvolvimento não resolvida do jovem: ele não matou seus “monstros”!



Uma boa semana e muito sucesso decisivo para todos!

JONES, Gerard. Brincando de Matar Monstros: porque as crianças precisam de fantasia , videogames e violência de faz-de-conta. São Paulo: Conrad Editora do Brasil, 2004.


Escrito por :

Matheus Vieira
Psicologia
Mestre em Educação
Trabalha com RPG em sala de aula desde 2006

7 Blá blá blá!:

Astreya disse...

Concordo bastante com os argumentos colocados. Há uma onda do politicamente correto que, acredito, coloca as crianças muito mais em uma redoma, apresentando um mundo bastante fora da realidade, do que qualquer coisa. Os pais ficam cada vez mais inseguros, as crianças afastam-se cada vez mais da responsabilidade de pensar por si próprias o que é certo ou errado, pois as fórmulas já estão prontas em desenhos e filmes onde os pais são pacientes e compreensivos, os amiguinhos pedem desculpas o tempo todo e competições são lugares onde todos apertam as mãos e ficam em harmonia, desejando a vitória um do outro. Acredito que a criança fica confusa ao sentir coisas como raiva, vontade de ganhar ou mesmo agressividade, e como sua imaginação está tolhida e restrita ao mundo artificialmente pacífico e harmonioso apresentado pelos desenhos, escola, e etc (vejo isso nos desenhos que minha sobrinha assiste), ela não sabe como lidar com isso, e aí sim pode simplesmente descarregar isso onde não deve.

Dragões do sol Negro disse...

Faço minhas as palavras da Astreya!

Gustavo disse...

concordo totalmente com Astreya...
...alem do mas, q sou bem novo, posso dizer q é completamente verdade. acredito q se as crianças, podem ter suas fantasias com sangue e afins, eles procuram saber como aquilo é e acho q dai q surgem aquelas por assim dizer "cagadas", como os casos se tiros na escola, e se vcs perseberem nenhuma daquelas deve saber q o é Rpg e q ele existe.

ahhhh

e dragoes parabens pelo blog q a cada ano q se passar deve ficar cada vez melhor

Gustavo disse...

ops faltou um "se nao" antes do podem

Dragões do sol Negro disse...

HEHEHE Obrigado Gustavo e seja bem vindo!

João Francisco disse...

Concordo bastante com o que foi dito. Atualmente, quase tudo tem uma tendência moralista muito forte. É uma ofensa à inteligência das crianças dar a elas um desenho do Mickey sobre "a importância de fazer amigos" ou mais um filme sobre o pai que não pode assistir ao jogo de beisebol do filho... Sem contar a hipocrisia disso tudo, dados os filmes "para adultos" ou as notícias dos jornais.
Obviamente, existe um limite para o que é aceitável ou não, sobretudo para crianças que ainda não desenvolveram plenamente seu senso crítico, mas isto é muito mais ligado à forma como a violência é mostrada do que à violência em si. Não precisa exaltar ou banalizar a violência, mas também não precisa fingir que ela não existe "para proteger as criancinhas".
E o pior: o RPG, por alguma razão, aparece como um dos vilões dessa história. Porque é muito mais violento matar um beholder do que trucidar alemães ou russos.

Prof. Matheus disse...

Obrigado a todos os comentários!
Fico feliz em saber que outras pessoas compartilham os mesmos pensamentos que eu!

A propósito, João, quando li seu comentário eu imaginei um guerreiro, em frangalhos, dando o golpe de misericórida num beholder e pensei: "é verdade! RPG é muito mais bacana!" hehehe

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