segunda-feira, 27 de setembro de 2010

O RPG e os alunos Introspectivos


O RPG e os alunos Introspectivos




Em uma sessão recente de jogo de RPG na escola me deparei com uma grata surpresa que vou contar a vocês adiante.

Dentre vários alunos que existem numa sala de aula, não é raro encontrar aquele que é o estudioso e que não se dá bem com as garotas, aquele que fica no fundão só fazendo bagunça e não estuda nada, aqueles amigos inseparáveis que estão juntos a todo momento e também aquele aluno que não é brilhante, tem alguma dificuldade de relacionamento e vive na frente do PC. É, esse aluno lembra muito o típico nerd, entretanto ele além de não ter vários amigos e não ser o mais extrovertido ele também costuma não ir bem nas provas e trabalhos. Aliás, com alguma freqüência ele apresenta alguma dificuldade ou na escrita ou com números.

Como qualquer outro professor, tenho alunos como esses que mencionei. Mas hoje quero falar de um em específico: esse último que citei. Para facilitar a leitura, vamos chamar esse aluno de instrospectivo.

Dentro do meu trabalho com o RPG na escola já vi muita coisa. A turma do fundão se destacando como exímios RPGistas; a turma de CDFs fazendo boicote à prática do jogo (talvez porque no RPG não haja o que decorar e sim raciocinar...rs) e claro, os alunos introspectivos.

Durante as sessões de RPG desse ano um aluno desses estava participando da aventura. Era deveras frustante ou complicado inseri-lo numa discussão pois sua timidez ou algo do gênero, o impedia de discutir com os outros. Pensei que logo viria os primeiros sinais de insatisfação como ausências ou a negação de participar. Pelo contrário, cada sessão ele se mostrava mais ansioso; mas durante a sessão a mesma inércia. Tentei com recursos de mestre, colocá-lo mais próximo da aventura, dando enigmas que só o personagem dele poderia fazer. Fracasso. Se não fosse algumas interferências minhas ou dos outros personagens talvez estaríamos lá na sala até agora esperando ele tomar alguma decisão.

Creio que para ele estava sendo interessante participar do jogo – senão ele já teria desistido – mas sua falta de iniciativa e/ou diálogo estava fazendo com que o grupo agisse como se ele não estivesse ali – e de alguma forma, não podia tirar a razão deles.

Porém, numa sessão recente algo mudou. Esse aluno introspectivo estava diferente – muito diferente. Foi num dia que os personagens enfrentariam um grande inimigo, algo como o Vingador da Caverna do Dragão. Eles estavam com medo. Para minha surpresa e de todos na mesa o aluno tomou a palavra e começou a esboçar uma estratégia, uma tática de combate contra o inimigo. Eu, boquiaberto, via tudo sem questionar.

Esse momento de liderança e iniciativa não durou apenas nesse início. Devo dizer que se não fosse esse aluno a equipe não teria saído com a vitória. Graças a ele nenhum personagem caiu inconsciente. A percepção do aluno nas jogadas, onde e quando era melhor utilizar determinada magia ou colocar uma armadilha foram cruciais. Na verdade creio que os outros alunos ficaram tão surpresos com a atitude desse aluno que quase esqueceram o combate.

Quando isso aconteceu eu pensei: Putz... acho que isso daria um texto no WRF! E deu!

Não que haja uma grande moral da história ou uma lição de vida aqui. Acho que o relato fala por si só.

Aliás... há uma lição sim: para aqueles educadores que querem utilizar o RPG nas aulas – ou até utilizaram uma vez – achando que o RPG é o salvador de tudo e que, com o RPG os alunos mudarão da água para o vinho.

Concordo que o RPG pode trazer muitos benefícios imediatos, mas nem todas as coisas boas que o RPG pode trazer são instantâneas. Aprendi isso com esse aluno. Depois desse dia ele passou a jogar com mais interatividade e na sala de aula tem demonstrado algumas melhoras. Para quem achou que esse dia foi um marco e que ele nunca mais seria o mesmo eu digo: As maiores mudanças acontecem aos poucos!

Fiquei e estou extremamente feliz em saber como o RPG está interferindo positivamente na vida desse jovem. Sei que não sou o único a ter histórias desse tipo para contar. Ficarei muito feliz em saber a sua!

Enquanto você não envia sua história, tenha um ótimo final de semana e muito sucesso decisivo!

Escrito por :

Matheus Vieira
Psicologia
Mestre em Educação
Trabalha com RPG em sala de aula desde 2006

10 Blá blá blá!:

o Clérigo disse...

É, o RPG tem mesmo essa capacidade de despertar talentos que de outra forma ficariam ocultos.

Gilson disse...

Devo encarar essa na Escola de Aplicação em Belém-PA. Que tensão!

E não é meu objeto de pesquisa, mas acreditar que alguns (ou um!) alunos aprendam a gostar das práticas de leitura e escrita por algo que me ajudou, o RPG, é bastante animador.

Gilson

Anônimo disse...

Será que vc pode fazer este relato no www.bejrpg.com.br?

Ederson disse...

Que porcaria, comentei hj logo que saiu o post, mas não está aparecendo...

Ficou maneiro seu artigo Matheus. Muito bom o resultado. Ponto pra vc e um conceito inteiro pro aluno.

Parabéns!

Rodrigo Soares Samersla disse...

Belo artigo, amigo... ainda estou em estudos de como fazer a filosofia ligar-se com a prática do RPG, e seus artigos estão ajudando muito.
Parabens.

Gilson disse...

Rodrigo, tenho organizado toda a bibliografia referente ao tema 'RPG e Educação'. Veja no link da Capes também, na postagem abaixo:

http://rpgsimples.blogspot.com/2010/07/bibliografia-rpg-e-educacao.html

Gilson

Matheus disse...

Anônimo, eu postei lá no BEJRPG... não sei se eu certo! mas tá lá! rs

Debora disse...

Parabéns! Nossa, como aluna de licenciatura e jogadora, isso é um grande incentivo para unir o trabalho e o lazer.
Além de ser uma maneira diferente de promover a interação em aula.

Fábio Silva disse...

Excelente texto... infelizmente minhas experiências não são em sala de aula mas, sei muito bem como você se sente. Muito de meus jogadores são garotos com alguma dificuldade, quer relacionada a interação social, quer relacionada a distúrbios de personalidade. O RPG me fez conhecer um lado deles oculto, o qual nem eles próprios conheciam. Também fico muito feliz hoje em poder ver que o RPG influenciou positivamente na vida deles, e agora mais feliz com seu relato. Abraços

Arquimago disse...

Acredito que toda questão que envolve educação não é instantânea leva algum tempo, mas se bem feita produz sim os resultados esperados!

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