quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Numumba – Celebração aos Bons Espíritos

Numumba – Celebração aos Bons Espíritos

E olha ali a Nilimba, minha gente; entre risinhos e fofoquinhas, a Nilimba passeava suas coleguinhas, que seguiam como fiéis cadelinhas da irmã mais nova de soba Nalas, Nilira era seu nome, a insuportável que fingia ser gente, todas as menininhas lambiam-lhe os joelhos, incluindo a linda Nilimba, entre risinhos e fofoquinhas, Numumba as observava – de longe, sempre de longe, é certo – com a cara de bobalhão que lhe é característica, lógico, o pênis crescia mas ninguém percebia, a barriga enorme cobria mais as partes do que a tanga, mas então, vinham as garotas em direção a Numumba, ou era assim que ele queria pensar, vinham elas, assim como vinham naquela noite ao redor da fogueira, na grande celebração de nossa aldeia aos bons espíritos, evitaram a destruição total da colheita, parece que fomos vítimas de feitiço, não sei bem, isso cheira a guerra e eu não queria saber mas acabo sabendo, todos falam, papai comenta lá em casa aos gritos com mamãe, soba Nalas e o kimbanda andam zangados!, diz-se que os pigmeus enfeitiçaram nossas nakas, pigmeus?!, sim, pigmeus da tribo Barabas, aí me lembro do pigmeu espetado na minha cubata, lógico, mas não contei a ninguém, nem mesmo ao Nolom, ainda me lembro dos olhos do soldado Nobombo me ameaçando, solto um sonoro peido, papai não liga e continua, o moleque Nalas lutou contra os maus espíritos e saiu vitorioso, o kimbanda e seus aprendizes curaram a terra, mas agora o nosso soba vai à desforra, tô te dizendo!, terminou papai cheio de assombro, se pudesse mijaria de medo ali mesmo, é soldado mas detesta guerras, o soldado mais fraco do kilombo, mas nenhum civil realmente gosta desses conflitos, mas é disso que os sobas vivem, conforme eu já dissera: reúnem o glorioso exército de camponeses combalidos, insultaram os antepassados, aqueles comedores de gente desgraçados, temos de defender a honra de nossos ancestrais!, mandam para o campo de batalha valentes pais de família barrigudos e heróicos adolescentes espinhentos, combatemos uns aos outros e nos matamos – e assim diminuímos ainda mais nossa nobre linhagem Nangana, misturamos nosso sangue com o de gentes inferiores e diluímos nosso poder, daqui a pouco não haverá nem mais chibindas nem sobas fazedores de chuva nem kimbandas domadores de espíritos nem nada, mas é um milagre, não iremos combater nossos irmãos e sim pigmeus da tribo Barabas, com seus olhos esbugalhados e dentes afiados, seria uma luta justa contra pigmeus que não alcançam nem metade de nossa altura?, devem ser todos feiticeiros, devem lidar com poderes sinistros e espíritos malignos, pelo menos é dessa forma que nos referimos a todos os outros, inclusive a nossos irmãos de linhagem que vivem sob o comando de outros sobas, então somos mesmo os únicos heróis e todos os outros são malvados comedores de gente?, mas voltemos àquela noite de celebração de estávamos falando, as garotas se aproximando e tal, som alto de tambores e cordas, todos dançando, a alegria reverberando pelo njango, eu me remexo muito, eu me remexo muito, os olhares e os risinhos marotos das meninas, os moleques se exibindo numa vigorosa dança do acasalamento, eu me remexo muito, é claro que Numumba não se exibia, estava num canto qualquer, esquecido e patético, como sempre, os garotos flexionando os músculos, mesmo os que não tinham nenhum, mesmo os mais gordos que Numumba, e mesmo assim Numumba se mantinha à parte, não conseguia se mexer, nem tentava, já todo encharcado de medo, não tenho nada pra fazer, isso aí tudo é uma besteira, tudo isso, uma idiotice, perdão perdão não posso falar mal da celebração aos espíritos, vão se zangar – mas eles já me odeiam de qualquer jeito, de todos os jeitos, é certeza, acho não gostam do Nolom também, que nem está aqui, nunca aparece em festas, esperto ele, por que vim pra cá?, só olho as pessoas, as garotas, ah, as garotas, meu pau crescendo de novo, a mão esquerda já se movimentando, ninguém está olhando, um retardado invisível, alguém sabe que existo?, olha ali o Nimba se chegando na Nayala, a Nayala de cara inexpressiva que não fala com os outros, assim como eu, ela nem é bonita, assim como eu, mas o Nimba sorri pra ela, ela treme os lábios, logo ela que nunca reage com ninguém, haka, como é que se faz isso?, não entendo, é só chegar e falar?, não entendo, o Nimba conversando com a Nayala da cara inexpressiva, nunca não fala com ninguém, logo estarão se tocando, é sempre assim, assim como outros já estão se pegando, olha ali o velho Nanga Contador de Estórias pegando na cintura daquela garotinha, não sei o nome dela, as garras do corvo velho apertando com vontade as ancas macias, e isso porque velho Nanga já tem quatro mulheres, os anciãos mais abastados têm até mais, por que não tenho nenhuma?, é uma disputa desleal os moleques contra os adultos, e mesmo assim os moleques caem dentro, exemplo, aquele imbecil do Nabonga, que tem a minha idade e nem tem cérebro mas já é um herói respeitado de nossa tribo Nangana, um chibinda, exibe sempre pras garotinhas seu colar de dentes de omakaluka do pântano, um omakakula!, morte certa para a maioria dos caçadores, mas o Nabonga, que tem a minha idade, encarou um monstro desses, só pra salvar a Nilira, a irmã mais nova do soba Nalas insuportável, perdão, a irmã mais nova insuportável do soba Nalas, dá na mesma, mas então, o Nabonga matou o omakakula comedor de gente e deu o couro de presente pro soba Nalas e ganhou prestígio, um monte de garotinhas e uma noite com a Nilira, eles nem se olham mais hoje, a Nilira e o Nabonga, mas o Nabonga continua rodeado de garotinhas e bajuladores que olham hipnotizados seu colar de dentes de omakakula, eu também queria falar com ele, perguntar suas técnicas e feitiços, tem a minha idade e já é um caçador de monstros, sempre quis ser um chibinda, sempre, quem sabe caçar o moru-ngou do meu sonho e dar uma de suas penas de presente pra Nilimba, sonho besta, a realidade é injusta, o Nabonga nem tem cérebro, desde criança, e isso eu tenho, ah se tenho, mais do que todos esses idiotas aí que estão aí levando as menininhas pro capim, todos sorridentes, já paqueraram e prepararam e agora era a hora da refeição, fico imaginando eles colocando as moças de quatro e fazendo bem devagar, deve ser bom, mas nunca fiz, nunca tive e acho que nem nunca terei, aqui no canto batendo uma punheta fedorenta, as garotas vem vindo, olha aí a Nilimba, tenho de parar!, as garotas vêm vindo sim, mas não pra mim, sempre falo que estão vindo, mas não é pra mim, é para o Nobombo, sim, aquele mesmo!, o que espetou o pigmeu na minha cubata, nem olha pra mim nem deve se lembrar da ameaça, mas eu não me arrisco, Nobombo, guerreiro forte que bate bem, outro herói gostosão da minha idade, aliás ouvi dizer que está feliz pela guerra iminente, a lança sempre em punho, já matou vários inimigos da tribo e hoje ocupa um cargo importante no exército, outro prodígio da minha idade, quer dizer, só um pouco mais velho, haka!, qual a diferença?, minha mãe sempre grita no meu ouvido, por que você é inútil igual a esse seu amigo Nolom?, por que não é igual ao Nabonga e o Nobombo, são da sua idade, idade, idade, idade!, retardado imbecil, consegue ser pior que o pai!, doce mamãe, amo o papai também, então, a Nilimba se agarrando com o Nobombo, olha que feliz, sempre foi afim dele, e eu aqui olhando, da mesma forma que a olho todos os dias, todas elas passeando à luz do dia, entre risinhos e fofoquinhas, a insuportável Nilira à frente, minha amada Nilimba seguindo a irmã do soba que nem uma cadelinha, eu carregando comida pros soldados, o pênis duro e ninguém percebeu.

Fábio Cabral, especial para o Ao Sugo e autorizado por ele para os Dragões do Sol Negro

Imagem: Kilimanjaro Speedpaint, por Mr. Conceptual, Deviant Art

2 Blá blá blá!:

RPG Forever disse...

Gosto muito deste Numumba.

Paulo disse...

Cara, Muito bom.

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