sexta-feira, 16 de julho de 2010

Numumba e o Mijo das Estrelas


Numumba e o Mijo das Estrelas

Nesta terra sempre se passam guerras. Pelo visto, minha raça adora se matar.

Assim é desde os tempos dos pais dos pais dos meus pais, velho Nanga me conta. Os sobas de nossa linhagem Nangana se odeiam e sempre procuram pretextos para espoliar uns aos outros e aumentar seu prestígio perante os anciãos. Porque a linhagem Nagana já foi uma das quatro mais poderosas de nosso mundo, tal como os feiticeiros Kalumba ou os guerreiros Gambalisita. Mas hoje somos apenas um punhado de sobados espalhados em nosso vasto território.

Mesmo em decadência, a linhagem Nangana permanece muito temida entre as linhagens menores ao nosso redor.

Nossa aldeia Namba é um desses sobados, cujo chefe chama-se soba Nalas. Sabe-se que soba Nalas é jovem e forte, porém caprichoso, cruel e demasiado ambicioso; ouvi dizer que usurpou o título assassinando o próprio pai. Sempre ouço papai reclamar que o velho chefe era muito melhor que esse moleque que agora está no comando, que os espíritos não me ouçam!, Muito mais justo e bondoso, embora fosse difícil ser generoso naquela época de seca mortal, as nakas morrendo e a fome rondando, o povo reclamava, dizia-se que o velho estava fraco e não conseguia mais afugentar os espíritos malignos causadores da seca e da fome, soba que não tem mais poder sobre espíritos não pode ser mais soba, até que ascendeu seu filho Nalas, ninguém sabe bem como ocorreu, mas um dia o velho chefe acordou morto, olhos secos e boca escancarada, foram cazumbis devoradores de vida!, diziam, mas papai jurava de pé junto que havia sido obra de Nalas, o cruel, mancomunado com o kimbanda – que é como chamamos os sacerdotes de nossa linhagem –, papai tinha certeza de que havia tramado juntos a morte do antigo chefe, falava dessas suspeitas somente para mim e para mamãe, sempre berrava, não fiquem fofocando por aí ou senão darei uma surra em vocês!, Mas sei a verdade, ele morre de medo de soba Nalas, todos nós, ele é muito poderoso, fez chover, todos vimos, fez chover conforme manda a tradição, eu lembro, era muito novo, mas lembro, soba Nalas subiu na colina e cerrou os punhos, seu corpo sangrava com as escarificações rituais de véspera, num transe sinistro berrava palavras dum idioma esquecido e então cabrum!, Trovejou forte e a chuva caiu, acabou a seca, soba Nalas fez chover, eu lembro.

Será que só eu percebi o quão ereto estava o pênis de soba Nalas naquela ocasião?

Ainda assim, ainda que seja capaz de fazer chover, assassinar o próprio pai para tomar-lhe a chefia não era permitido nos dias anteriores aos pais dos meus pais, mas os tempos são outros; idosos cada vez mais desrespeitados, jovens ignoram velhas estórias e fazem o que querem, portam-se de modo tão atrevido quanto ousam, esses penteados esquisitos, essas escarficações em excesso; só para impressionar garotas, só por isso, as desmioladas, cada vez mais valorizam a aparência em detrimento dos valores morais de antigamente, o mundo está perdido e eu pareço um senhor idoso falando, embora seja tão jovem e imaturo como todos os outros, mas ainda assim me sinto um alienígena.

Sob esse pretexto eu me isolo e fico observando a chuva. A chuva, sempre anterior a todas as lágrimas.

Dizem que, da mesma forma que mijamos o cansaço de nossas almas, as estrelas mijam o suor do Universo. Todos nós adoramos a urina das estrelas, que faz crescer todas as plantas, que mata a sede dos rios exaustos, que refresca a pele queimada da terra; as águas percorrem seu caminho veloz das alturas da Munda Central rumo ao Nungolo, rio caprichoso que alimenta nossa sede e nossas nakas.

Por isso, soba que é soba tem de fazer chover. Como soba Nalas fez.

Chovia bastante certo dia; peguei gripe forte, não fui trabalhar, pai e mãe fora, estava sozinho na cubata. Naquele momento não queria saber de guerras ou de sobas assustadores, estava eu pensando em Nilimba; então, era pra cima e pra baixo, pra cima e pra baixo, Nilimba se aproximando, pra cima e pra baixo, pra cima e pra baixo, peitos da Nilimba, biquinhos durinhos, pra cima e pra baixo, pra cima e pra baixo, a bunda redondinha chegando pertinho, pra cima e pra baixo, pra cima… Porque é só assim que tenho a Nilimba, único momento de prazer nos meus dias; mas dizem que quem se masturba é vigiado de perto pelos espíritos dos ancestrais; que vergonha, devem rir horrores, mas o que posso fazer?

Pode berrar de medo, já que uma cabeça de pigmeu raivoso e molhado entrou de repente em sua cubata.

Olhos esbugalhados e dentes afiados como os de um animal rosnavam para Numumba, que peidou, peidou, peida sempre quando está com medo ou constrangido, o pênis da bronha recente ainda estava teso, o intruso encarou isso como um desafio e berrou algo nalguma língua medonha, Numumba não entende, nem pensa, sequer se move, só balbucia, peida, o pigmeu dos olhos raivosos agarra sua perna gorda, abre a boca de dentes serrilhados, vai me devorar!

Não, não vai, porque acabam de enfiar uma lança na cabeça do infeliz.

– Achei o desgraçado! – gritou a cabeça encharcada do Nobombo, o caçador – Seus retardados, por que deixaram ele fugir?!

Como que nem notando a presença aparvalhada de Numumba, Nobombo puxa pra fora da cubata o pigmeu ainda espetado na lança. Petrificado onde estava, Numumba ainda conseguiu ouvir, livrem-se dele rápido, rápido!, Vários passos enlameados, muitas pragas abafadas pela chuva, não entendeu nada, óbvio, nem iria entender, não iriam lhe contar, não iriam…

- Cê não viu porra nenhuma, tá me entendendo? – falaram os olhos penetrantes do Nobombo, que apareceram de repente dentro da cubata. – Você não viu nada, seu gordo miserável, ou terá sido a última coisa que você viu nessa sua vidinha de merda.

Nobombo desapareceu sem esperar resposta. E Numumba, pateticamente ainda de bunda no chão, balbuciou, peidou e se mijou, ah, como mijou! Tal como as estrelas estão fazendo agora.

 
Fábio Cabral, especial para o Ao Sugo e autorizado por ele para os Dragões do Sol Negro

Imagem: Kilimanjaro Speedpaint, por Mr. Conceptual, Deviant Art

Se perdeu o inicio da saga confira aqui

4 Blá blá blá!:

RPG Forever disse...

Bacana e muito bem escrito. E engraçado também.

Dragões do sol Negro disse...

Cara tbm sou fãn do Numumba!

Kabral disse...

Opa, agradeço aos elogios. Caramba, esqueci que estavam publicando Numumba por aqui. LoL

Dragões do sol Negro disse...

Como assim esqueceu!? ahuahau

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