quinta-feira, 24 de junho de 2010

Numumba, Banha de Elefante


Numumba, Banha de Elefante

Numumba existia neste mundo do mesmo modo que o mundo desistia de pessoas como Numumba.

Seu heróico trabalho de todos os dias era levar comida para os soldados que treinavam no kilombo – que é como chamamos nossos centros militares. Numumba suava, fedia e ofegava enquanto corria e corria carregando cabaças e mais cabaças de comida pra lá e pra cá; levava também recados, ordens, xingamentos, desaforos. E sorria quando os homens chamavam-no de traseiro gordo, banha de elefante, hipopótamo tetudo, etc.

Chorava, em silêncio, quando não estavam olhando.

Na aldeia Namba, os homens caçam, pescam ou lutam; as mulheres plantam, colhem e cozinham; Numumba sonha, se masturba e apanha, mas ora, não sei pescar, caçar ou lutar, e plantar e cozinhar é coisa de mulher, só que levar comida pros soldados também é coisa de mulher, gostaria de ser um respeitado artesão, ou um forte soldado, ou um famoso caçador, mas não é essa a minha realidade, minha mãe prepara a comida e eu levo, pra lá e pra cá, sob risos e chacotas dos outros garotos, meu pai, que é soldado raso, morre de vergonha e me bate na cara na frente de todo mundo só pra mostrar o quanto desaprova meu trabalho, e todo mundo lá no kilombo também me bate e me chuta, moleque retardado, demorou pra caralho, a gente tá com fome, porra!, sempre atraso, sempre demoro, embora eu corra bem rápido, acho que a única coisa que sei fazer bem é correr rápido, apesar de ser gordo, afinal, desde criança tenho de correr dos moleques que tentam me surrar, mas mesmo assim sempre chego atrasado, por quê?, e, então, sempre apanho, aí o capitão lá do kilombo grita pro meu pai, Nugunga, teu filho é um inútil, um imbecil que nem você, família de retardados!, meu pai se encolhe e ri nervoso, magrinho que é, eu e mamãe somos gordos, mas papai é bem magro, e lá vão uns tapinhas no rosto dele, os outros soldados aproveitam pra zombar do mais fraco entre eles, educa direito o banha de elefante!, a guerra já tá pra começar, acorda!, aí de noite lá em casa papai me estapeia a cara, toda hora cê me faz passar vergonha no kilombo, seu gordo estúpido!, Aí uma cabaça voa na cabeça de papai, teu filho é assim porque tu é um frouxo dos infernos, berra a mamãe, o pior da tropa, o pior!, se for pra guerra vai se foder, vão te enfiar uma lança na bunda, cê vai morrer, covarde miserável!, quem tu pensa que é pra falar assim comigo, sua elefanta nojenta!, sou tua única mulher, seu imbecil!, tu só tem uma mulher, tem vergonha não?, cê tem mais é que me agradecer, tá me entendendo?, Nenhum homem te quis não, gorda nojenta, cê é insuportável, ninguém te aguenta!, Nem esse filho otário aí, que vai continuar otário, com um pai desses, um fracote ridículo!, Motivo de chacota, todo mundo fala que meu marido é um merda!, um merda!, Vai se foder, que porra, cê acha que é fácil?!, gorda desgraçada!,fracote fracassado!, e a gritaria perfurava os tímpanos de Numumba como agulhas de insetos peçonhentos, e lamentava o desprazer amargo de existir e a estupidez triunfante de rastejar sobre a terra.

Se eu fosse o poderoso caçador Numumba dos meus sonhos nada disso me aconteceria.

Daí que, enquanto eu pensava em tudo isso, um pé sacana surgiu no meio do caminho, as cabaças foram ao ar, minha cara direto no súmate quentinho que a mãe preparara, meu nariz gordo invadido por tomate frito e farinha grossa, imediatamente aparecem dedos apontados, gargalhadas chicoteando os ouvidos, banha de elefante, ridículo, inútil, retardado, banha de elefante, traseiro gordo, inútil, retardado, tampar os ouvidos não adianta, já estão todos gargalhando, todos, atrasar é uma coisa, mas estragar comida é imperdoável, tempos difíceis, alimento escasso, traseiro gordo, banha de elefante, dedos apontados, gargalhando, o coração alucinando, começa a peidar, peidar, a tanga já toda úmida de desespero, banha de elefante, ridículo, risos, dedos apontados, xingamentos, risos que esfaqueiam a alma, risos, risos, risos, banha de elefante, estragou comida, vai apanhar, vão arrancar teu couro, vai morrer!, de repente pernas flácidas se levantam num rompante, corre, corre, corre, cena patética de alguma coisa gorda disparando sem rumo, a cara cheia de farinha e legumes, vão me bater, vão me matar, vão me rasgar a pele, vão rir da minha cara, vão me rasgar as bochechas, vão perfurar minha bunda, vão rir da minha cara, vão rir, vão rir, vão rir, vão rir, estraguei comida, sou um criminoso, o pai vai me socar, a mãe vai me gritar, o capitão vai me estrangular, os moleques já estão rindo, só riem todos, riem, riem, riem, porque sou gordo e feio e inútil, estraguei comida, vão me matar, vão me socar, vão rir, vão me matar, vão me socar, vão rir, vão me matar, vão rir, vão me matar, não quero mais sentir dor, não quero, socorro, socorro, alguém me salve, socorro, socorro, socorro!, E o pedido foi atendido pelo punho de um guarda mal humorado, boca do estômago escancarada pela força do golpe, sucos gástricos subindo à garganta, olhos revirando e Numumba finalmente desmaia.


Fábio Cabral, especial para o Ao Sugo e autorizado por ele para os Dragões do Sol Negro
Imagem: Kilimanjaro Speedpaint, por Mr. Conceptual, Deviant Art

Confira o começo da saga, Numumba O Herói aqui

4 Blá blá blá!:

Força disse...

Vai Numumba, mata todos eles!
Caracas quero mais cadê!?!

Paulo disse...

Muito boa essa continuação!

Kabral disse...

Opa, agradeço aí! Desculpe a demora pra aparecer aqui e tal. ;)

Dragões do sol Negro disse...

Seja bem vindo!

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